Três ameaças espreitam a economia global em 2026, alerta FMI
Apesar das previsões otimistas para este ano, o FMI alerta que a inteligência artificial, o protecionismo comercial e as fragilidades orçamentais podem interromper a expansão económica global em 2026.
- O FMI reviu em alta as previsões de crescimento da economia global para 3,3% em 2026, mas alerta para riscos negativos persistentes.
- O WEO de janeiro destaca que o crescimento está concentrado em poucos setores e vulnerável a choques, especialmente no setor tecnológico.
- As tensões geopolíticas e a elevada dívida pública em grandes economias podem agravar a incerteza, alertam os analistas do FMI.
O Fundo Monetário Internacional (FMI), liderado por Kristalina Georgieva, alerta que os riscos para a economia global permanecem inclinados para o lado negativo, apesar de ter revisto em alta as previsões de crescimento, ao antecipar uma expansão de 3,3% do PIB mundial este ano.
O World Economic Outlook (WEO) de janeiro, publicado esta segunda-feira, aponta para que o crescimento em 2026 está concentrado em poucos setores e apoiado por políticas monetárias e orçamentais expansionistas, o que aumenta a vulnerabilidade a choques e “pode ser interrompida por dinâmicas setoriais ou por choques que se disseminam a partir de fatores de risco mais amplos e de longa data”, adverte o FMI no documento que tem como título “Economia mundial: “estável perante forças divergentes.
Um dos principais riscos identificados prende-se com o setor tecnológico, em particular com o investimento em inteligência artificial (IA).
Tarifas adicionais específicas de setores, especialmente se impostas em indústrias a montante, podem criar estrangulamentos de oferta e impor um impacto desproporcionado na atividade económica e nos preços.
“Se as expectativas sobre os ganhos de produtividade impulsionados pela IA se revelarem demasiado otimistas e os resultados dececionarem, pode ocorrer uma queda acentuada no investimento real no setor de alta tecnologia, bem como nos gastos com adoção de IA noutros setores, e uma correção mais prolongada nas valorizações do mercado acionista”, alertam os analistas do Fundo.
As consequências deste cenário incluiriam a obsolescência de ativos, uma realocação dos custos de capital e trabalho, e efeitos negativos sobre a riqueza que pesariam no consumo privado e no investimento.
“Os efeitos colaterais espalhariam diretamente através dos fluxos comerciais para economias orientadas para a exportação especializadas em produtos tecnológicos”, vaticinam os analistas do FMI, sublinhando que “estes se iriam propagar para o resto do mundo através do aperto das condições financeiras globais” e que “o impacto sobre o crescimento é altamente incerto e depende da forma como as condições financeiras reagirem.”

Além disso, o equilíbrio das posições de política comercial que sustenta as previsões do FMI pode ser perturbado. “Tarifas adicionais específicas de setores, especialmente se impostas em indústrias a montante, podem criar estrangulamentos de oferta e impor um impacto desproporcionado na atividade económica e nos preços”, alerta o FMI.
O documento acrescenta que medidas não tarifárias que visem inputs críticos como minerais de terras raras também podem perturbar as cadeias de abastecimento globais, notando que “mais países podem adotar uma postura protecionista, especialmente se o desvio e reencaminhamento do comércio tornarem-se disruptivos”.
Tensões geopolíticas e pressões orçamentais
Entre os principais riscos identificados pelos analistas do FMI para este ano está o agravamento das tensões geopolíticas. “Uma escalada significativa nas tensões geopolíticas, particularmente no Médio Oriente ou na Ucrânia, mas possivelmente também na Ásia e América Latina, pode desencadear choques negativos substanciais de oferta”, alerta o FMI, advertindo que estas situações podem provocar “perturbações nas principais rotas de navegação, cadeias de abastecimento críticas e viagens aéreas, levando a atrasos e custos aumentados”.
O WEO de janeiro refere ainda que “picos de incerteza política interna, incluindo mas não limitados aos relacionados com eleições, podem elevar e alargar ainda mais a incerteza, pesando no sentimento e retendo o consumo e o investimento. A interferência política em instituições económicas independentes pode aumentar o risco de erros políticos e corroer a confiança pública”.
Uma preocupação particular são os níveis elevados de dívida pública em várias grandes economias, especialmente aquelas cujas moedas e títulos são sistemicamente importantes nos mercados financeiros internacionais.
Igualmente como ponto de fricção para o crescimento da economia global este ano surgem as vulnerabilidades orçamentais por parte de alguns países, que podem tornar-se mais pronunciadas, com implicações para a estabilidade macrofinanceira mundial.
“Uma preocupação particular são os níveis elevados de dívida pública em várias grandes economias, especialmente aquelas cujas moedas e títulos são sistemicamente importantes nos mercados financeiros internacionais”, lê-se no relatório.
Preocupações com a sustentabilidade orçamental nessas economias “podem não apenas pressionar os seus próprios custos de financiamento, mas também apertar as condições financeiras mais amplas e amplificar a volatilidade dos mercados financeiros“, alerta o FMI.
Os analistas destacam que “a crescente dependência de investidores sensíveis a preços como fundos do mercado monetário e fundos de cobertura alavancados aumenta os riscos de disrupção e pode necessitar da provisão repetida de apoios de liquidez por parte dos bancos centrais, possivelmente gerando preocupações de moral hazard e dominância financeira”.
Do lado positivo, a rápida adoção de IA pode melhorar a produtividade e impulsionar as perspetivas de crescimento a médio prazo. “Como resultado, o crescimento global pode ser elevado em até 0,3 pontos percentuais em 2026 e entre 0,1 e 0,8 pontos percentuais por ano a médio prazo, dependendo da velocidade de adoção e melhorias na prontidão para IA globalmente”, preveem os analistas.
No entanto, esses benefícios requerem políticas complementares para conter o potencial impacto nos preços da energia, aumentar os inputs intermediários críticos necessários e gerir transições da força de trabalho.
Prudência e disciplina nos gastos
O FMI defende que a reconstrução da capacidade orçamental dos países e a manutenção da sustentabilidade da dívida pública são fundamentais para garantir estabilidade e promover o crescimento da economia global. “No mínimo, é necessário o compromisso com uma consolidação orçamental credível a médio prazo”, referem os analistas.
Os países devem procurar reforçar as receitas fiscais, racionalizar as despesas e fortalecer a eficiência da despesa, destaca o FMI. “Os subsídios de base alargada e outras medidas de política industrial podem ser dispendiosos e disruptivos. Para evitar a alocação ineficiente de recursos, as políticas industriais devem ser precisamente direcionadas para abordar falhas de mercado específicas e estar sujeitas a análises periódicas de custo-benefício”, refere o WEO de janeiro.

No campo da política monetária, o FMI aponta para a importância da independência dos bancos centrais, numa alusão ao confronto que se vive atualmente nos EUA com a pressão de Donald Trump sobre a Reserva Federal norte-americana (Fed) e o seu presidente, Jerome Powell.
“A independência dos bancos centrais é primordial para a estabilidade macroeconómica e o crescimento económico. Preservar a independência dos bancos centrais, tanto legal como operacional, continua a ser crítico para evitar o risco de dominância fiscal, ancorar as expectativas de inflação e permitir-lhes alcançar os seus mandatos”, afirma o documento.
Para estabilizar expectativas e encorajar o investimento, os analistas do Fundo consideram que os países devem reduzir a incerteza impulsionada por políticas. “Devem estabelecer e aderir a quadros de política comercial transparentes e coerentes, auxiliados por cooperação pragmática.”
Reformas estruturais direcionadas aos mercados de trabalho, educação, quadros regulatórios e concorrência impulsionarão a produtividade, o produto potencial e a criação de emprego.
Na perspetiva do FMI, isto envolve avançar “esforços multilaterais relativos a bens comuns globais chave, atualizar regulamentações internacionais onde viável, e explorar soluções regionais ou plurilaterais onde apropriado”.
O FMI conclui que elevar as perspetivas de crescimento a médio prazo continua a ser a estratégia mais eficaz para resolver dilemas macroeconómicos. “Reformas estruturais direcionadas aos mercados de trabalho, educação, quadros regulatórios e concorrência impulsionarão a produtividade, o produto potencial e a criação de emprego”, sublinhando que aproveitar o progresso tecnológico pode acelerar ganhos de produtividade e expandir o potencial de crescimento”.
Perante este quadro de oportunidades e riscos, a mensagem do FMI é de que a economia global encontra-se numa encruzilhada onde a trajetória de crescimento não é garantida, mas construída por escolhas políticas deliberadas.
Enquanto a inteligência artificial oferece o potencial para reacender a produtividade global, as vulnerabilidades estruturais — desde o endividamento excessivo das grandes potências até às fragilidades das cadeias de abastecimento — exigem uma ação coordenada e disciplinada dos decisores políticos.
A reforma estrutural, a recomposição orçamental credível e a preservação da independência dos bancos centrais não são meras recomendações técnicas, mas imperativos de estabilidade que determinarão se a economia mundial consegue capitalizar as oportunidades da transformação tecnológica ou sucumbe aos múltiplos choques que se acumulam no horizonte.
O crescimento de 3,3% previsto para 2026 é, portanto, um cenário condicionado, não uma certeza, um prognóstico que permanece dependente da sabedoria coletiva das políticas que os próximos meses hão de revelar.
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