Mark Carney, o líder canadiano que acredita na honestidade para derrotar Trump

O primeiro-ministro do Canadá apelou às potências intermédias que acordem para a realidade. A ideia de benefício mútuo da integração, num contexto de hegemonia americana, é uma mentira, alertou.

Discurso especial de Mark Carney, Primeiro-Ministro do Canadá, durante a Reunião Anual do Fórum Económico Mundial de 2026 em Davos-Klosters, Suíça, no dia 20/01/2026, das 16h30 às 17h00, no Centro de Congressos – Salão de Congressos (Zona C), Sessão Plenária.©2026 World Economic Forum / Ciaran McCrickard.

Mark Carney não foi de rodeios, entrou com toda a força no discurso em Davos esta terça-feira. “Hoje vou falar sobre uma rutura na ordem mundial, o fim de uma ficção agradável e o início de uma realidade dura, onde a geopolítica, onde o grande poder principal, a geopolítica, não está sujeita a limites nem restrições”.

Numa altura de enorme tensão geopolítica entre os Estados Unidos e os seus supostos aliados, a mensagem do primeiro-ministro canadiano foi tão clara e fria como a neve que cobre a estância suíça onde decorre esta semana o Fórum Económico Mundial.

Sobre a posição canadiana em relação ao tema que está a marcar a semana em Davos, Carney foi direto: “No que diz respeito à soberania do Ártico, apoiamos firmemente a Gronelândia e a Dinamarca e apoiamos plenamente o seu direito exclusivo de determinar o futuro da Gronelândia“.

O discurso foi, no entanto, muito mais abrangente. Sem se referir diretamente a Donald Trump ou aos Estados Unidos, Carney apelou aos países de “poder médio” para seguirem os passos do Canadá, “que foi um dos primeiros a ouvir o alerta, levando-nos a mudar fundamentalmente a nossa postura estratégica”. Os outros países, “especialmente potências intermédias como o Canadá, não são impotentes, têm a capacidade de construir uma nova ordem que englobe os nossos valores, tais como o respeito pelos direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos vários Estados”.

Carney citou um ensaio de 1978 do então dissidente (e depois presidente) checo Václav Havel, que diz que o poder autoritário subsiste não da sua veracidade, mas da disposição de todos em agir como se fosse verdade, e a sua fragilidade vem da mesma fonte. Esse texto procurava responder à pergunta de como o sistema comunista se aguentava tanto tempo, e contava a história de um merceeiro que, todos os dias, colocava na montra da sua loja, um cartaz que dizia “Trabalhadores do mundo, uni-vos”, o mesmo que todas as lojas dessa rua.

“Ele não acredita nisso, ninguém acredita, mas ele coloca o sinal na mesma, para evitar problemas, para sinalizar cumprimento, para se dar com os outros. E porque todos os lojistas em todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste – não apenas através da violência, mas através da participação de pessoas normais em rituais que sabem, em privado, serem falsos”, relatou Carney, no palco de Davos. “Quando mesmo que seja só uma pessoa deixe de representar, a ilusão começar a rachar-se”. E concluiu com a poderosa frase: “Amigos, é hora de empresas e países retirarem os cartazes”.

“Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas áreas financeira, sanitária, energética e geopolítica revelou os riscos da integração global extrema”, explicou Carney. “Mas, mais recentemente, as grandes potências começaram a usar a integração económica como arma, as tarifas como alavanca, a infraestrutura financeira como coerção e as cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a serem exploradas”.

Não se pode viver na mentira do benefício mútuo através da integração, quando a integração se torna a fonte da sua subordinação“, sublinhou.

A intervenção foi ovacionada em Davos. O The Guardian classificou Carney como um líder que está a emergir como “o realista inflexível” pronto a enfrentar Trump. “Os líderes de outras capitais ocidentais aludiram aos ‘desvios perigosos’ que Trump tomou em relação às normas, mas sempre voltam à possibilidade de que ele possa ser apaziguado ou acomodado e Carney expôs isso como simplesmente impreciso”, referiu Jack Cunningham, professor de relações internacionais da Universidade de Toronto, ao jornal britânico.

Discurso especial de Mark Carney, Primeiro-Ministro do Canadá, durante a Reunião Anual do Fórum Económico Mundial de 2026 em Davos-Klosters, Suíça, no dia 20/01/2026, das 16h30 às 17h00, no Centro de Congressos – Salão de Congressos (Zona C), Sessão Plenária.©2026 World Economic Forum / Ciaran McCrickard.

Primeiro estrangeiro no Banco de Inglaterra

Mas quem é este canadiano que está a enfrentar o poderoso vizinho a sul da fronteira? Foi eleito líder do Partido Liberal do Canadá a 9 março de 2025 e empossado como primeiro-ministro passados cinco dias, sucedendo a Justin Trudeau, que após 10 anos no cargo demitiu-se com a popularidade em queda e pressões dentro do partido. Carney não teve tempo para se adaptar ao cargo, obrigado a lidar imediatamente com as tarifas aduaneiras impostas por Trump. Anunciou tarifas retaliatórias, mas acabou por removê-las em agosto, embora as tensões comerciais entre os vizinhos continuem elevadas, na ausência de um acordo. Pelo meio, o primeiro-ministro teve de informar o presidente americano, em plena Casa Branca, que o Canadá nunca estará à venda.

Em abril, levou os Liberais a uma vitória eleitoral, com 44% dos votos face aos 40% dos Conservadores liderados por Pierre Poilievre. Aos 60 anos Carney nunca ocupara um cargo político, o que, em tempos normais, teria prejudicado a sua candidatura, mas a sua carreira bancária de alto nível jogou a seu favor, com o líder liberal argumentando que é a única pessoa preparada para lidar com Trump.

“Ao contrário de Pierre Poilievre, já administrei orçamentos antes. Já administrei economias antes. Já administrei crises antes“, disse durante a campanha, citado pela Reuters. “Este é o momento para experiência, não para experiências”.

Nascido em Fort Smith, nos Territórios do Noroeste, e criado em Edmonton, Alberta, Carney é filho de professores e cresceu com um forte sentido de comunidade e trabalho árduo, segundo o perfil oficial no site do governo. Depois de se formar na St. Francis Xavier High School, em Edmonton, obteve o diploma de bacharel em Economia pela Universidade de Harvard em 1988, seguido por um mestrado em Economia em 1993 e um doutorado em Economia em 1995, ambos pela Universidade de Oxford.

Os 13 anos que Carney passou na Goldman Sachs proporcionaram-lhe conhecimentos especializados sobre o mercado financeiro, amplamente considerados como uma mais-valia para lidar com a crise de crédito. Depois de trabalhar nos escritórios do banco de investimento em Londres, Tóquio, Nova Iorque e Toronto, foi nomeado vice-governador do Banco do Canadá em 2003. Deixou o cargo em novembro de 2004 para assumir uma posição sénior no departamento financeiro do Canadá, que incluía ser o representante do país no G7, regressando em 2008 ao banco central, agora como governador.

A revista Time nomeou Carney como uma das pessoas mais influentes do mundo em 2010 por ajudar a manter os bancos do país seguros durante a crise financeira global. No entanto, enfrentou críticas ocasionais no seu país por previsões consideradas excessivamente otimistas e por não ser suficientemente franco sobre as perspetivas do banco em relação às taxas. Mas a maioria dos críticos foi conquistada pela sua maneira de lidar com a crise de crédito e a recessão, quando criou novas linhas de crédito de emergência e deu orientações excepcionalmente explícitas sobre a manutenção das taxas de juro em níveis historicamente baixos por um período específico. Sob a liderança de Carney, o Canadá tornou-se o primeiro país do G7 a começar a aumentar as taxas de juro após a crise.

Em 2013, Carney foi nomeado governador do Banco de Inglaterra (BoE), o primeiro estrangeiro a ocupar o cargo nos seus três séculos de história. O BoE ainda estava a sofrer com resposta lenta à crise financeira de 2008-09, e o então ministro das Finanças britânico, George Osborne, recorreu ao homem que chamou de “o governador de banco central mais notável de sua geração” para ajudar a instituição.

Carney, porém, passou por um período difícil, forçado a enfrentar a inflação zero e o caos político do Brexit. Teve dificuldades para implementar a sua política característica de sinalizar a trajetória provável das taxas de juros. O banco central afirmou que as suas orientações vinham acompanhadas de ressalvas, mas os media frequentemente as interpretaram como uma garantia, com o legislador trabalhista Pat McFadden apelidando o BoE sob Carney de “namorado não confiável”.

Quando a libra esterlina deu um trambolhão nas horas seguintes ao resultado do referendo do Brexit em 2016, Carney fez um discurso para tranquilizar os mercados, garantindo que o banco central abriria as torneiras da liquidez, se necessário. “Mark tem uma capacidade rara de combinar a mão firme de um banqueiro central com o olhar de um reformador político voltado para o futuro” afirmou Ana Botin, presidente executiva do Santander, à Reuters.

Mas Carney enfureceu os apoiantes do Brexit ao falar sobre os danos económicos que, segundo ele, provavelmente seriam causados pela saída da União Europeia. O legislador conservador Jacob Rees-Mogg chamou-o de “supremo sacerdote do projeto do medo”, mas Carney disse que era seu dever falar sobre tais riscos.

Dever foi também a palavra empregue pelo canadiano esta terça-feira para iniciar o discurso em Davos. “É um prazer e um dever estar com vocês esta noite neste momento crucial pelo qual o Canadá e o mundo estão a passar”.

Já esta quarta-feira, Trump fez questão de o mencionar, depois do sucesso do discurso do canadiano: “o Canadá vive por causa dos Estados Unidos. Mark, não te esqueças disso quando fizeres outro discurso“.

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