Mais custos, menos margem e “herança” da covid “servem” crise na restauração

Ministro da Economia anunciou apoios para a restauração, justificando que empresas ainda estão a pagar os empréstimos contraídos na pandemia, num cenário de preços mais altos que rouba margem.

As empresas do setor da restauração vão contar, a partir de fevereiro, com um novo apoio de até 60 mil euros, sendo 30% a fundo perdido, anunciou esta quarta-feira o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida. Estas ajudas surgem após meses de relatos de dificuldades no setor. Aumentos dos preços, com impacto negativo nas margens do setor, associados à concorrência dos grandes supermercados e à fatura associada aos empréstimos contraídos por altura da covid estão no centro da crise que está a afetar os restaurantes.

“Muitas empresas estão ainda a pagar os custos da pandemia, porque contraíram empréstimos que estão ainda a pagar”, disse o ministro da Economia, esta quarta-feira, quando anunciou o conjunto de apoios aos restaurantes. Manuel Castro Almeida apontou ainda para a importância do setor, que emprega milhares, dizendo que o Governo vai apoiar as empresas que “precisam de algum investimento para se manter em pé”. Mas o que se passa, afinal, com o setor?

Muitas empresas [do setor da restauração] estão ainda a pagar os custos da pandemia, porque contraíram empréstimos que estão ainda a pagar.

Manuel Castro Almeida

Ministro da Economia e da Coesão Territorial

Muitas empresas do setor da restauração têm sido confrontadas com um aumento de preços em diversas componentes, que estão a comprimir as margens de lucro. “O aumento sucessivo dos custos com matérias-primas, energia, rendas, salários e outros encargos tem sido, em grande parte, absorvido pelas próprias empresas, comprimindo margens e limitando a capacidade de investimento”, realça a AHRESP em comunicado, numa primeira reação às medidas anunciadas esta quarta-feira pelo ministro que tem a pasta da Economia.

A associação que representa a restauração aplaudiu as ajudas, “que vão ao encontro” daquilo que têm sido as suas propostas, avisa que o setor é composto maioritariamente por micro e pequenas empresas, “ainda a lidar com créditos Covid e elevados níveis de incerteza” e que é preciso que os apoios cheguem “às empresas que mais precisam”.

O aumento sucessivo dos custos com matérias-primas, energia, rendas, salários e outros encargos tem sido, em grande parte, absorvido pelas próprias empresas, comprimindo margens e limitando a capacidade de investimento.

AHRESP

A inflação dos alimentos tem sido um dos fatores de pressão. Apesar de a inflação ter baixado, em 2025, para 2,3%, a alimentação contrariou a tendência de descida, com a classe de “produtos alimentares não transformados” a destacar-se. Segundo os números do INE, produtos como a carne aumentaram 7,7%, ao passo que o peixe, crustáceos e moluscos subiram 5,6% e o café, chá e cacau sofreram um agravamento de 7,3%.

A AHRESP argumenta que o aumento dos preços das principais matérias-primas para os restaurantes e similares supera a variação dos preços praticados pelo setor. Ainda assim, os restaurantes e hotéis lideram a taxa de variação média mais elevada, com um aumento médio de 6,2%, que compara com os 4,7% registados no ano anterior.

Estas subidas juntam-se a outros custos mais elevados, nomeadamente associados aos do trabalho, destacando-se ainda uma crescente concorrência dos supermercados, que têm vindo a apostar no segmento de cafés e restaurantes. No caso do Pingo Doce, da Jerónimo Martins, a empresa a apostar na sua cadeia de restaurantes, que está a contribuir para o aumento das receitas.

“O Pingo Doce, que tem beneficiado do sucesso do conceito de loja All About Food, prosseguirá com o seu programa de remodelações, que deverá abranger cerca de 50 lojas em 2025“, refere o relatório e contas dos primeiros nove meses de 2025 da Jerónimo Martins. “A Companhia prevê ainda inaugurar no ano aproximadamente 10 novas localizações”, acrescenta o documento.

Apesar de não dar detalhes sobre o contributo da restauração para os números do Continente, a Sonae tem vindo a apresentar lucros recorde e também tem apostado nestes serviços, que concorrem com os chamados cafés e restaurantes tradicionais.

Dívida dispara desde a pandemia

Em termos de endividamento, os dados mais recentes do Banco de Portugal, relativos ao final de novembro, mostram que a dívida das empresas de alojamento e restauração atingiu 16,3 mil milhões de euros, ligeiramente acima dos 16 mil milhões no final de 2024.

No entanto, recuando ao final de 2019, antes da pandemia da covid-19, que penalizou muito o setor, o aumento do endividamento é bem visível. As empresas de alojamento e restauração tinham um endividamento na ordem dos 12,5 mil milhões no final de dezembro de 2019, o que significa que, desde a covid, se endividaram em mais 3,8 mil milhões, ou quase 31%.

Fonte: Banco de Portugal

Em junho do ano passado a AHRESP alertou que 30% das empresas do setor estavam a falhar o pagamento das linhas de crédito da pandemia devido ao aumento dos custos do negócio com a quebra da procura e o aumento da inflação.

Face a esta situação, “temos insistido com o BPF na urgência de encontrar mecanismos que permitam aliviar esta pressão e apoiar as empresas que já se encontram em situação de incumprimento”, disse Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP.

O presidente executivo do Banco de Fomento, disse ao ECO, na altura que o lançamento da linha ADN, prevista para o primeiro trimestre deste ano, poderia ser a solução para as empresas do setor da restauração que já não conseguem cumprir com as obrigações das linhas de crédito Covid.

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