Exclusivo Banca e fornecedores vão ter de perdoar 18 milhões para salvar Gato Preto

Cadeia de lojas de artigos para o lar vai encerrar dez lojas em Portugal e fechar a atividade em Espanha. Credores vão ter de perdoar mais de 40 milhões de dívida, incluindo bancos e fornecedores.

Os bancos e fornecedores vão ter de perdoar cerca de 18 milhões de euros (correspondendo a um perdão de dívida de 80%) para ajudar a salvar o Gato Preto, que se prepara para fechar dez das 15 lojas em Portugal (o que implicará a saída de dezenas de trabalhadores) e encerrar toda a atividade em Espanha, no âmbito do plano de recuperação que submeteu junto do tribunal na semana passada e consultado pelo ECO.

A cadeia de lojas de artigos para o lar e decoração fechou 2025 com prejuízos de 11 milhões de euros e atravessa um período de muitas dificuldades financeiras que surgiram com a pandemia da Covid-19, após um forte investimento no rebranding, e que se avolumaram com o incidente global relacionado com o encalhe do navio Ever Given no Canal do Suez, em 2021, “que originou ruturas no fornecimento de bens e agravou significativamente os custos de transportes”, isto enquanto enfrenta ameaças relacionadas com invasão de produtos chineses vendidos em plataformas como a Temu, “com menor preço e qualidade inferior”, segundo alega no plano.

Neste período, o Gato Preto viu as vendas caírem de 40 milhões de euros para menos de 20 milhões, uma redução substancial do negócio, que se tornou insuficiente para suportar os custos de estrutura e que nem com os aportes do acionista – o Grupo Aquinos, que vai assumir uma perda de 26 milhões na reestruturação financeira em cima da mesa – se conseguiu evitar uma situação de desequilíbrio financeiro que ameaça a existência de um grupo que celebra 40 anos de existência em 2026.

A administração do Gato Preto ainda contratou a EY para encontrar investidores para entrarem no capital da empresa ou para comprarem todo o negócio, mas sem sucesso, o que levou a avançar com um plano de reestruturação “com a redução do número de lojas e dos recursos humanos, centrando a aposta na venda online que tem vindo a apresentar resultados interessante”.

A sobrevivência da empresa vai ter custos para quase todos. A começar pelos trabalhadores. São mais de 150 ao todo, mas dezenas terão de sair por conta do fecho da maioria das lojas em Portugal. O plano prevê o encerramento de dez lojas em Portugal (as menos rentáveis e que cujo custo de desmantelamento rondará os 215 mil euros) e das cinco que tem em Espanha (quatro na Andaluzia e outra em Madrid), que permitirá reforçar a aposta no canal online.

Estas são as dez lojas a encerrar: Amoreiras (Lisboa), Colombo (Lisboa), Oeiras Parque (Oeiras), Norte Shopping (Matosinhos), Montijo (Lisboa), Arena Shopping (Torres Vedras), Arrábida Shopping (Gaia), Alegro Sintra (Sintra), Alegro Setúbal (Setúbal) e Mondego Retail Park (Coimbra). Continuarão abertas as seguintes lojas: Fórum Almada (Almada), Freeport Fashion Outlet (Alcochete), Mar Shopping (Matosinhos), Palácio do Gelo (Viseu) e UBBO (Amadora), prevendo-se vendas de 4,6 milhões de euros em 2026.

O Gato Preto estima que venha a ter de pagar uma indemnização de 900 mil euros aos colaboradores afetos às lojas que vão ser encerradas. O dinheiro virá da venda de um armazém que tem nos arredores de Lisboa, “sobredimensionado” para a realidade atual e futura da empresa, e que poderá render 1,2 milhões de euros.

Ainda assim, em relação aos trabalhadores, além garantir o pagamento das rescisões, a empresa assegura também que pagará todos os salários em atraso, que ascendem a 1,6 milhões de euros. Pede um período de carência de três meses, começando a pagar a primeira de nove prestações mensais a partir do 4.º mês a seguir à aprovação do plano.

Gato PretoGato Preto

Banca perdoa 9,5 milhões

No âmbito da reestruturação financeira, aos bancos é pedido um perdão total de juros e comissões e um perdão de 80% do capital. Isto significará que terão de perdoar 9,5 milhões de euros dos 12,2 milhões que o Gato Preto lhes deve para que o plano de recuperação vá para a frente. O Gato Preto compromete-se a pagar restantes 20% (2,4 milhões de euros) em cinco anos (em 60 prestações mensais), com carência de capital por 12 meses.

Os bancos portugueses estão entre os maiores credores do Gato Preto, nomeadamente o Novobanco (1,9 milhões de euros), BPI (1,9 milhões), Caixa Geral de Depósitos (1,5 milhões) e BCP (1,2 milhões), mas é o espanhol BBVA o mais exposto (2,5 milhões).

Os fornecedores também terão de suportar um perdão semelhante: só vão conseguir recuperar cerca de dois milhões de euros de uma dívida que ascende a quase dez milhões, a serem liquidados durante um período de cinco anos.

Quanto aos créditos subordinados, que correspondem a perto de 26 milhões de euros do grupo Aquinos, a título sobretudo de fornecimento de bens e serviços, são perdoados a 100%.

Credores receberiam no máximo 3% com liquidação

O Gato Preto está ciente do “esforço significativo” que pede aos credores, mas frisa que eles estarão em pior situação caso o plano de recuperação não seja viabilizado e não reste outra solução senão a liquidação.

Num cenário de liquidação, estima a empresa, os bancos e fornecedores só deveriam receber entre 500 mil a 700 mil euros, correspondendo a apenas 2% a 3% dos seus créditos – em vez de 20%, como prevê o plano. Isto porque, por exemplo, o inventário avaliado em cerca de oito milhões de euros só valeria dois milhões com a empresa em liquidação.

“Assim, nenhum credor sairá prejudicado com a aprovação do presente plano face ao cenário que decorreria da liquidação dos ativos da Loja do Gato”, justifica a empresa, que garante ter procurado um plano “equilibrado” para “dividir os sacrifícios pelos credores das diferentes classes”.

O plano ainda tem de ser aprovado pelos credores. O grupo Aquinos detém mais de 50% dos direitos de voto. Bancos, fornecedores e, com menor relevância, trabalhadores detêm os restantes direitos de voto.

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