Seguro vs Ventura. “A oportunidade perdida” de um debate sem impacto na campanha

O único frente-a-frente da segunda volta entre Seguro e Ventura consolidou estratégias e narrativas já conhecidas, sem vencedor claro nem impacto relevante no rumo da campanha até às eleições.

O único debate televisivo da segunda volta das eleições presidenciais entre António José Seguro e André Ventura pouco alterou o guião já traçado para os últimos dias de campanha. O frente-a-frente serviu sobretudo para consolidar narrativas, clarificar estilos e reforçar linhas de clivagem conhecidas, sem um vencedor claro nem momentos de confronto extremo que pudessem provocar uma viragem no sentido de voto, segundo os politólogos consultados pelo ECO.

Para Bruno Ferreira Costa, professor de Ciência Política da Universidade da Beira Interior, o debate “correu dentro das expectativas” e permitiu distinguir claramente as visões dos dois candidatos sobre o papel presidencial. “Seguro aposta numa via mais institucionalista, colada à ideia de ‘fazedor de consensos’ e ‘garante da Constituição’, beneficiando, nesta altura, de amplo apoio político-partidário, enquanto Ventura seguiu uma lógica de rutura, defendendo a necessidade de um Presidente mais interventivo”.

Apesar dessas diferenças, o confronto ficou marcado por prudência estratégica. “Não se registou um ‘combate feroz’”, observa o politólogo, sublinhando o taticismo de ambos para evitar erros com custos eleitorais. Ainda assim, aponta um momento menos conseguido de Seguro no tema da imigração: “Houve uma ‘atrapalhação’ quando questionou o papel do Presidente da República numa eventual lei de regularização. Ventura aproveitou a deixa e deixou claro que cabe ao Presidente promulgar ou não.”

Seguro aposta numa via mais institucionalista, colada à ideia de ‘fazedor de consensos’ e ‘garante da Constituição’, beneficiando, nesta altura, de amplo apoio político-partidário, enquanto Ventura seguiu uma lógica de rutura, defendendo a necessidade de um Presidente mais interventivo.

Bruno Ferreira Costa

Professor de Ciência Política da Universidade da Beira Interior

Na análise de Hugo Ferrinho Lopes, investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, o debate foi dominado por um objetivo comum: “O principal objetivo de cada um dos candidatos era não cometer erros.” Nesse quadro, Seguro apresentou-se à defesa e Ventura ao ataque, mas quem estava mais pressionado acabou por sair melhor. “Seguro conseguiu sair ileso”, afirma.

Ferrinho Lopes sublinha ainda o contraste de perfis: “O primeiro apresentou-se com uma postura claramente ‘presidenciável’ e o segundo com um perfil muito próximo do de um candidato a primeiro-ministro.” Para o investigador, esse desfasamento ajuda a explicar porque é que o debate “não acrescentou muito ao que já se sabia”.

Também do ponto de vista temático, o contributo foi limitado. “O debate sobre a saúde e a reforma laboral não acrescentou muito além da questão dos eventuais vetos, uma vez que não faz parte dos poderes do Presidente legislar sobre essas matérias”, nota. Já na imigração e na Constituição, “os candidatos não podiam estar mais distantes”, embora sempre a falar “para eleitorados diferentes”.

O cenário mais favorável a Seguro é uma participação elevada e concentrada no voto estratégico; o mais favorável a Ventura é uma participação mais baixa.

Hugo Ferrinho Lopes

Investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

“Numa segunda volta, a abstenção é decisiva porque não interessa apenas ‘quantos’ votam, mas ‘quem’ vota”, sublinha Hugo Ferrinho Lopes. Uma subida da abstenção tende a favorecer “o candidato com uma base mais segura e altamente mobilizada”, o que “à partida pode beneficiar Ventura”.

Pelo contrário, “Seguro depende de uma coligação ampla e heterogénea, incluindo eleitores que votam sobretudo ‘contra’ Ventura”, segmentos que podem ser mais voláteis na participação. “O cenário mais favorável a Seguro é uma participação elevada e concentrada no voto estratégico; o mais favorável a Ventura é uma participação mais baixa”, conclui.

Sílvia Mangerona, politóloga e professora universitária, considera que o debate “não foi muito galvanizador” e representou “uma oportunidade perdida” para mobilizar eleitores indecisos. “Ambos perderam uma oportunidade muito relevante de motivar os eleitores que estão na dúvida entre votar ou ficar em casa”, afirma.

Questionada sobre vencedores e vencidos, Sílvia Mangerona é perentória: “Exigirá um exercício de grande criatividade identificar um vencedor ou um perdedor.” Na sua leitura, Ventura “esteve mais contido na linguagem verbal e não verbal” e Seguro “permaneceu fiel à sua redundância”. Essa prudência mútua teve um efeito claro: “Garantiu que nada pudesse vir a colocar em causa relações institucionais futuras”, mas também retirou intensidade política ao confronto.

Quanto ao esclarecimento do eleitorado, a avaliação é igualmente negativa. “O debate não trouxe nada de novo”, considera, sublinhando que os temas escolhidos “voltaram a estar longe das reais funções e poderes do Presidente da República”. Mesmo quando surgiu a política externa, “ambos fugiram às grandes afirmações e tomadas de posição face à conjuntura e aos desafios internacionais”.

Sobre a participação eleitoral, a politóloga é pessimista. “Espero que a abstenção não suba, mas intuo ser inevitável”, afirma, ainda que admita que os dias finais de campanha “possam trazer novidades que motivem os portugueses a irem às urnas”.

A única conclusão possível é que o debate não marcou a campanha e não ficará na memória dos portugueses.

Sílvia Mangerona

Politóloga e professora universitária

No balanço final, Sílvia Mangerona é taxativa quanto ao impacto do frente-a-frente: “A única conclusão possível é que o debate não marcou a campanha e não ficará na memória dos portugueses.”

No essencial, as leituras dos três politólogos convergem: o debate ajudou a consolidar posições e a reforçar narrativas, mas não alterou o guião da campanha. Como resume Bruno Ferreira Costa, “o roteiro está escrito” e apenas um evento extraordinário ou uma gaffe política poderá mudar o equilíbrio da corrida presidencial.

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