Só 25% dos imóveis e infraestruturas têm seguro para catástrofes naturais
As seguradoras portuguesas pagaram mil milhões de euros nos últimos 20 anos por 27 catástrofes naturais. Mas os prejuízos foram muito maiores.
Do recente comboio de tempestades que na última semana tem fustigado Portugal, ainda não estão totalmente contabilizados prejuízos materiais, embora as principais seguradoras do ramo multiriscos, seja para habitação, comercial ou industrial estejam no terreno a acelerar processos indemnizatórios. A tragédia é uma oportunidade para Fidelidade, Generali Tranquilidade e Ageas – que detém cerca de 6 em cada 10 apólices neste ramo, fazerem cumprir promessas de estarem presentes, de carteira aberta, quando é preciso.

Em Portugal, segundo dados da EIOPA, a reguladora europeia de seguros, apenas até 25% do valor segurável de imóveis e estruturas sensíveis ao clima, está de facto protegida por seguros. Um estudo coligindo dados de 1980 a 2020 foi mais negativo e estimou que 96% dos danos causados por tempestades não estavam segurados quando na Europa esse valor era de 78%.
Um estudo apresentado em 2022 pela Nova SBE concluiu que as alterações climáticas provocadas pela atividade humana contribuem para a ocorrência de fenómenos climáticos extremos como ondas de calor, chuvas intensas, secas e ciclones tropicais, fenómenos estes que têm vindo a aumentar em termos de frequência e intensidade.
Em Portugal, entre os anos de 1966 e 2000, apenas em 1983 houve o registo de 3 catástrofes naturais, ao passo que entre 2000 e 2022 houve tal registo em 4 anos (2003, 2010, 2013 e 2018). O protection gap (diferença entre valor segurado e valor total) relativo ao risco climático e de catástrofes naturais observado em Portugal entre 1980 e 2020 foi de 96%, o que compara com 78% para os 27 países da União Europeia.
Com perdas totais em consequência de catástrofes naturais a rondar os 13,5 mil milhões de euros no período referido, Portugal é o décimo país da UE com o maior registo de perdas por quilómetro quadrado. No que toca à magnitude dos danos relativamente ao Produto Interno Bruto, o estudo constatou que Portugal se encontra entre os países com maiores perdas face à dimensão da sua economia, com o total das perdas associadas a catástrofes naturais entre 1980 e 2020 a representar cerca de 0,2% do PIB nacional para o mesmo período.
Embora estivessem ativas 4.386.389 apólices de seguros multiriscos em setembro de 2025, segundo dados da Associação Portuguesa de Seguradores, a verdade é que os números globais de prejuízos contabilizados no final das tragédias ficam sempre além dos que as seguradoras pagaram em indemnizações.
Fundo sísmico alargado a Catástrofes naturais
Se os seguros não cobrem, os prejuízos acabam por ser assumidos pelos proprietários e pelo Estado, muitas vezes pagos em promessas por cumprir, ou tardiamente cumpridas.
Para tentar colmatar essas falhas, está em constituição um Fundo de catástrofes Naturais , agora em apreciação no Ministério das Finanças. “A nossa falta de proteção contra catástrofes naturais é agravada pelas alterações climáticas”, disse Gabriel Bernardino, presidente da ASF, que propõe uma solução “inspirada em modelos internacionais de sucesso, passa por um sistema de responsabilidade partilhada entre o setor privado e o Estado”. Neste modelo, acrescenta, “alavanca-se a capacidade global do mercado segurador para cobrir a esmagadora maioria das perdas, e o Estado atua apenas como garante de última instância, assegurando uma recuperação mais rápida e pré-financiada que protege a estabilidade de todos”.
Uma longa lista de tragédias implica mediadas imediatas
A sequência Ingrid-Joseph-Kristin apenas acentua o intensificar da frequência de eventos catastróficos ou quase. Em conjunto, os prejuízos, segurados ou não, devem ascender a centenas de milhões de euros, segundo fonte do setor.
As 27 catástrofes mais notáveis dos últimos 20 anos também incluem tempestades causadoras de inundações, eventos costeiras e tempestades de vento como as tempestades na Madeira de fevereiro de 2010 que custaram 141 milhões de euros às seguradoras, temporais no continente em janeiro de 2013, com prejuízos segurados de 100 milhões de euros, o furacão Leslie em outubro de 2018 com 101 milhões em danos, a mais recente Martinho em abril com 50 milhões a abater às contas das companhias.
De repente, em dois meses a Claudia custou 31 milhões de euros em novembro passado e agora espera-se a fatura da Ingrid, do Joseph e da Kristin.
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