Comprar casa em Lisboa, Porto e Faro já é ‘inacessível’. Crise alastra-se a outras capitais de distrito

A crise habitacional agravou-se bastante nos últimos anos, com as dificuldades no acesso à habitação a estenderem-se para lá dos grandes centros urbanos, aponta um estudo da Century 21.

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  • Apesar de entre as 18 capitais de distrito 15 com terem casas acessíveis aos rendimentos das famílias, mais de metade exige uma taxa de esforço elevada entre 34% a 50%.
  • Setúbal é o distrito que exige a maior taxa de esforço, seja para comprar ou arrendar casa. Portalegre e Castelo Branco exigem menos esforço para a compra e a Guarda para arrendar.
  • Os preços das casas quase duplicaram nos últimos cinco anos, enquanto os rendimentos das famílias aumentaram a um ritmo muito mais lento.
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Comprar casa em Portugal continua a ser uma tarefa difícil para muitas famílias portuguesas, e a situação não mostra sinais de melhoria. Se nas áreas urbanas de Lisboa, Porto e Faro adquirir habitação já era complicado devido às fortes subidas de preços nos últimos anos, agora este problema está a alastrar-se a outras regiões do país.

Segundo o estudo “Acessibilidade à Habitação” da Century 21, o número de capitais de distrito onde a compra de casa é considerada acessível (em que o custo mensal da habitação é inferior a 50% do rendimento líquido do agregado familiar) caiu de 16, em 2022, para 15 em 2025. Visto assim, poderia parecer que a situação pouco se alterou.

No entanto, destas 15 cidades ainda consideradas acessíveis à carteira das famílias, mais de metade exige atualmente uma taxa de esforço elevada de 34% a 50% para a prestação de crédito mensal — quando em 2022 apenas uma das 16 cidades se encontrava nesta situação.

Além disso, as três maiores capitais de distrito — Lisboa, Porto e Faro –, tornaram-se “completamente inacessíveis”, já que é exigida uma taxa de esforço superior a 50% do rendimento líquido mensal para pagar o crédito à habitação. “Os dados mostram que o problema não está a abrandar –- está a alastrar-se para os mercados periféricos de Lisboa, Porto e Faro e a concentrar-se nos grandes centros urbanos e turísticos”, refere Ricardo Sousa, CEO da Century 21 em Portugal.

O estudo, apresentado e publicado esta quinta-feira, mostra ainda que entre 2022 e 2025, os rendimentos das famílias aumentaram, em média, 16%,o que corresponde a um reforço mensal de cerca de 200 euros. Ainda assim, este crescimento revelou-se insuficiente para acompanhar a escalada dos preços da habitação e das rendas, que registaram aumentos muito mais expressivos no mesmo período.

Os dados permitem ver ainda um encolhimento acentuado da oferta a preços mais baixos: no ano passado, apenas 13 cidades, metade delas no interior, disponibilizam casas de 90 metros quadrados por valores inferiores a 200 mil euros, quando três anos antes essa realidade se verificava em 35 concelhos analisados no estudo.

No arrendamento, a pressão é ainda maior. Atualmente, 23 dos 41 concelhos analisados exigem rendas acima dos 1.000 euros para um imóvel com a mesma tipologia, um cenário que em 2022 se limitava a apenas dois concelhos.

Interior continua a ser onde é mais fácil comprar e arrendar casa

Excluindo os distritos de Lisboa, Faro e Porto, o estudo permite fazer um raio-x aos restantes distritos do país. Para um imóvel de 90 metros quadrados, Setúbal regista o valor médio mais alto, com 225.540 euros, enquanto Castelo Branco está no extremo oposto, com um valor médio de 94.230 euros.

Também em Setúbal se registam os maiores custos mensais, tanto para crédito habitação (852 euros) como para renda (1.098 euros). Por outro lado, em Portalegre, a mensalidade do crédito custa apenas 337 euros, enquanto o arrendamento mais “barato” se encontra na Guarda, com uma média de 522 euros.

Setúbal é ainda o distrito que exige a maior taxa de esforço, seja para comprar ou arrendar, enquanto Portalegre e Castelo Branco exigem menos esforço para a compra e a Guarda apresenta a menor taxa para arrendamento.

Atualmente, apenas 48% das casas à venda situam-se num patamar de preços compatível com a capacidade financeira de 77% das famílias portuguesas, que está fixado no valor máximo de 330 mil euros.

 

Os dados revelam ainda que Vila Real registou a maior subida na taxa de esforço para comprar casa entre 2022 e 2025, passando de 23% para 43%, enquanto Castelo Branco teve o menor aumento, de 18% para 20%.

Arrendar tornou-se mais difícil em Beja, com a taxa de esforço a subir de 23% para 43%, enquanto em Portalegre ficou ligeiramente mais fácil, diminuindo de 33% para 31%.

O estudo conclui ainda que os preços da habitação em Portugal praticamente duplicaram nos últimos cinco anos, registando ainda uma nova aceleração de 23,4% em 2025, enquanto os rendimentos das famílias cresceram a um ritmo muito mais lento.

Atualmente, apenas 48% das casas à venda situam-se num patamar de preços compatível com a capacidade financeira de 77% das famílias portuguesas que, segundo o estudo, está fixado no valor máximo de 330 mil euros, o que revela uma oferta cada vez mais concentrada em segmentos acessíveis apenas a uma minoria.

Este desequilíbrio é agravado pelo nível de rendimentos no país. A mediana do rendimento disponível em Portugal foi de 14.446 euros em 2024, ficando muito abaixo da média da União Europeia (21.245 euros) e também de Espanha (20.800 euros).

O estudo cruza os rendimentos líquidos médios anuais das famílias, com base nas declarações fiscais publicadas pelo INE, com os custos de acesso à habitação, preços de venda e rendas contratadas, apurados pela Confidencial Imobiliário.

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