Os vencedores e os derrotados da segunda volta das presidenciais

Ganhou o candidato que quer ser o Presidente de "todos, todos, todos", perdeu o que diz ter lutado "contra tudo e contra todos". Seguro e Ventura não foram, contudo, os únicos vencedores e derrotados.

Os números de António José Seguro na segunda volta das Presidenciais 2026 deste domingo não deixam qualquer margem para dúvidas. O ex-líder socialista foi o grande vencedor da noite com um desempenho eleitoral que há meros meses parecia altamente improvável. O resultado ficou na margem inferior das sondagens à boca da urna, mas isso não impediu que se tornasse no político em Portugal a conseguir um maior número de votos em presidenciais, superando a reeleição de Mário Soares em 1991. Se Seguro conseguiu tornar um hipótese remota numa vitória esmagadora, André Ventura tentou, como quase sempre tornar uma derrota numa vitória moral, destacando a liderança à direita. Ainda assim, teve de admitir que está no lote dos vencidos.

Mas os dois candidatos tiveram companhia, um de cada lado da linha entre a vitória e a derrota. O secretário-geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, apanhou a boleia de Seguro nas Caldas da Rainha e salientou a alegria de ver um dos seus antecessores chegar à Presidência da República e ainda aproveitou para mandar umas farpas ao Governo, dizendo esperar que compreenda este momento importante. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, viu um candidato que não quis apoiar de forma explícita a arrombar as portas do Palácio de Belém, portanto sai derrotado por via tácita. Ainda tentou passou recados a Seguro, mas viu-os devolvidos no discurso do Presidente-eleito.

Vencedores

António José Seguro

Underdog, concorrente visto como tendo poucas hipóteses de vencer uma competição. O termo em inglês é difícil de traduzir de forma direta para português, mas é perfeito para descrever o estatuto de António José Seguro no início da longa corrida que este domingo o levou ao cargo de Presidente da República. Ao início da noite, Seguro lembrava que a primeira sondagem lhe dava 6%. “É muito bonito”, dizia, sabendo que o resultado de domingo iria multiplicar esse número por mais de 11 vezes. Pelo meio, bateu o recorde de voto de outro Presidente socialista, com os 3.482.481 votos (com 99,2% contados) a ultrapassarem os 3.459.521 votos averbados por Mário Soares na reeleição em 1991.

Seguro ganhou em todos os distritos e provavelmente captou eleitores de diversos quadrantes políticos. Mas isso não belisca a sua vitória, antes pelo contrário, pois quer ser o Presidente de “todos, todos, todos” os portugueses e vai dar primazia à independência pois “em Belém, os interesses ficam à porta”. Começou o discurso de vitória com palavras dedicadas às vítimas das tempestades, mas aproveitou para recordar que o Estado tem responsabilidades e prometeu que enquanto presidente-eleito irá ajudar para que os apoios cheguem rapidamente as famílias e empresas.

Tendo ouvido o apelo de Montenegro para cooperação, Seguro disse que prometeu lealdade e cooperação institucional com o Governo e irá cumprir a palavra. Explicou, no entanto, embora jamais será um contrapoder, vai ser “um Presidente exigente com as soluções e com os resultados”. Embalado, prometeu ainda “nunca deixar que o debate entre na lama”, num alerta mal disfarçado para o Chega, e disse que no seu mandato as palavras terão peso e medida e que não vai falar sobre tudo e nada, numa provável referência à diferença que quer marcar no estilo da presidência.

José Luís Carneiro

A vitória do líder socialista é parcial, mas não deixa de ser uma vitória. Após a hecatombe nas legislativas, o PS precisava desesperadamente de boas notícias para ganhar confiança para o combate ao Governo e o resultado de Seguro irá certamente ajudar. Resta saber é quanto, dada a ênfase de Seguro na independência que vai levar para Belém.

Até Carneiro reconheceu que a vitória do Presidente-eleito é pessoal: “É de António José Seguro, da sua coragem, avançou sozinho, com estimativas eleitorais muito baixas”, disse, à chegada das Caldas da Rainha. Questionado por que razão demorou a apoiar o candidato, Carneiro ainda teve de defender atirou: “A decisão foi tomada no momento oportuno”.

O líder do PS ainda aproveitou o momento para pôr sal nas feridas da AD e do Chega. “O PS espera que o Governo compreenda este momento importante, esta mensagem de estabilidade, em que 2/3 dos portugueses mostraram-se a favor dos valores constitucionais”, concluiu.

Derrotados

André Ventura

Não vencemos e isso deve significar, como sempre foi, o reconhecer que temos de fazer mais e que temos de trabalhar mais para convencer o povo de que a mudança faz falta”, admitiu André Ventura. Apesar da concessão de derrota, o líder do Chega rapidamente rodou a agulha para os aspetos positivos e para o futuro. A candidatura lutou contra tudo e contra todos numa segunda volta em que viu o bipartidarismo aumentar. Salientou que ainda assim conseguiu o melhor resultado de sempre do partido e mostrou que há uma alternativa, “fora do espaço do PSD e do PS”.

A mensagem que Ventura queria mesmo passar é que esta foi uma derrota num caminho que vai levar à vitória do Chega. “Liderámos a direita, vamos liderar a direita e vamos governar o país”, declarou. Para reforçar a ideia, recordou que a percentagem de votos que recolheu superou a da Aliança Democrática (PSD e CDS) nas legislativas de maio do ano passado, embora omitindo no detalhe que ficou abaixo desse patamar no número absoluto de votos.

Por mais que Ventura tente dourar a pílula, e apesar ter terminado no patamar superior dos primeiros números das sondagens da noite, o ambiente no Hotel Marriott espelhava um resultado dececionante. As tempestades não abalaram a participação e esvaziaram de certa forma os apelos de Ventura para o adiamento do segundo sufrágio. Seguro conseguiu apoio alargado e será em Belém um Presidente que vai privilegiar a estabilidade e aumentar o nível de exigência aos partidos. A derrota deste domingo poderá não ser necessariamente apenas mais um passo no caminho para a vitória do Chega.

Luís Montenegro

O primeiro-ministro chegou à noite eleitoral enfraquecido pela derrota estrondosa do seu candidato, Luís Marques Mendes, na primeira volta e pelas críticas por não ‘endossar’ a candidatura de António José Seguro na disputa com André Ventura, candidato da extrema-direita. Pelo meio fora também alvo de reparos sobre a reação do Governo às tempestades que assolaram várias regiões do País nas últimas duas semanas. Montenegro tentou sublinhar os lados positivos, mas no final da noite não saiu fortalecido, antes pelo contrário, acabou como um dos derrotados.

“Garanti a António José Seguro, em nome do Governo, toda a disponibilidade para trabalharmos em prol do futuro de Portugal, com espírito de convergência para salvaguardarmos o interesse dos portugueses, com toda a cooperação e com o sentido de servimos o povo português de forma construtiva e positiva, cada um ao nível dos poderes que a Constituição lhes atribui”, assegurou o chefe do Executivo. Mas Montenegro não quer apenas oferecer cooperação, espera que seja retribuída a partir de Belém por Seguro e a partir do Parlamento pelo Chega e pelo PS. “Contamos com o esforço e contribuição positiva de todos os partidos nela representados, em particular os que têm um nível de participação que pode desequilibrar as votações mais importantes, como o Orçamento do Estado”, disse.

Montenegro esforçou-se ainda para minimizar a importância de um socialista estar agora em Belém, opinando que “não é a origem partidária dos percursos do Presidente da República que marcam o exercício do seu magistério”. Mas a partir das Caldas da Rainha recebeu de Seguro uma resposta firme, começando pelos avisos sobre os apoios pós-tempestades e passando para a exigência que vai impor aos partidos. O primeiro-ministro conta com um “período de três anos e meio sem eleições que se abre agora”, mas a derrota deste domingo poderá baralhar essa contabilidade, pois jogar pelo seguro em vez de apoiar Seguro pode vir a ter consequências.

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