Portugal já superou o “missing middle” do financiamento?
Marco Neves, presidente da Portugal Ventures, e André Matias de Almeida e Bárbara Schürmann, sócios da Proença de Carvalho, discutiram a evolução do ecossistema de capital de risco em Portugal.
Apesar da maturidade alcançada pelo ecossistema nacional de startups na última década, o financiamento das empresas em fases intermédias de crescimento continua a alimentar o debate entre investidores, gestores e decisores públicos. Na talk da Proença de Carvalho Advogados, integrada na 9ª edição da Advocatus Summit – defendeu-se que o mercado português evoluiu significativamente, mas que a dimensão dos fundos e a capacidade de captar capital internacional permanecem desafios estruturais.
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A sessão reuniu Marco Neves, presidente da Portugal Ventures, e os advogados André Matias de Almeida e Bárbara Schürmann, sócios da Proença de Carvalho, para discutir a evolução do ecossistema de capital de risco em Portugal e a existência de um eventual “missing middle” entre o venture capital e o private equity.
Para Marco Neves, a transformação do mercado português começou há cerca de 14 anos, impulsionada pela criação da Portugal Ventures, pela consolidação das incubadoras e aceleradoras e pela capacidade de atração de talento internacional. O responsável destacou ainda o papel decisivo da Web Summit e de figuras como João Vasconcelos na afirmação de Portugal como destino para startups e inovação.
Apesar dos progressos registados, o presidente da Portugal Ventures considera que continua a existir uma falha de mercado nas fases mais iniciais de desenvolvimento das empresas, nomeadamente nos estágios pre-seed e seed. Segundo explicou, trata-se de investimentos de elevado risco, em projetos que muitas vezes ainda não dispõem de produto validado, clientes ou propriedade intelectual consolidada. Nesse contexto, defendeu a intervenção pública através de instrumentos como as calls Inove ID e de mecanismos de coinvestimento que permitam apoiar ideias inovadoras até atingirem maturidade suficiente para atrair investidores privados.
Já nas fases posteriores de crescimento, Marco Neves considera que o panorama é substancialmente diferente. Na sua perspetiva, o mercado dispõe hoje de mais operadores de capital de risco e de instrumentos de financiamento do que há uma década, beneficiando também do papel desempenhado pelo Banco Português de Fomento. O responsável rejeitou a ideia de que subsista atualmente um vazio significativo entre o venture capital e o private equity, defendendo que vários programas públicos e fundos especializados contribuíram para colmatar essa lacuna. Ainda assim, sublinhou que o Estado não deve competir com investidores privados, mas sim atuar apenas onde existam falhas de mercado identificadas.

Outro dos temas centrais do debate foi a necessidade de aumentar a escala do mercado português de capital de risco. Para Marco Neves, o principal desafio já não é a existência de financiamento, mas sim a dimensão dos fundos disponíveis. Enquanto em Portugal um fundo de 100 milhões de euros continua a ser considerado de grande dimensão, noutras geografias europeias e internacionais os veículos de investimento movimentam montantes muito superiores. A capacidade de captar capital junto de investidores institucionais internacionais, do Banco Europeu de Investimento e do Fundo Europeu de Investimento foi apontada como um fator determinante para financiar empresas com ambições globais e criar novos unicórnios nacionais.
No encerramento da conversa, os participantes abordaram ainda setores considerados estratégicos para o futuro do investimento em Portugal. Defesa, ciências da vida, deep tech, digitalização e turismo surgem entre as áreas prioritárias para a Portugal Ventures, que pretende reforçar a sua presença tanto nas fases iniciais como no crescimento das empresas. Questionado sobre as medidas que poderiam transformar o ecossistema nos próximos anos, Marco Neves destacou um fator acima de todos os outros: a estabilidade. Na sua opinião, a previsibilidade fiscal, regulatória e política continua a ser o elemento mais importante para atrair investimento estrangeiro e consolidar a posição de Portugal como destino competitivo para o capital de risco.
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