BCE trava subida dos juros e ameaça com subida em setembro

O Banco Central Europeu prepara-se para manter os juros inalterados, mas o alívio pode ser de curta duração. A escalada da guerra no Golfo reforça a aposta dos analistas numa nova subida em setembro.

ECO Fast
  • O Banco Central Europeu deverá manter a taxa de depósito inalterada em 2,25%, com uma probabilidade de 98% segundo os investidores e economistas.
  • A inflação na Zona Euro abrandou para 2,8% em junho, mas a escalada do preço do petróleo reacendeu temores de novas subidas de juros já em setembro.
  • Esta reunião poderá trazer pistas sobre a possibilidade de duplicar, de 1% para 2%, o rácio de reservas mínimas não remuneradas exigido aos bancos.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

O Conselho de Governadores do Banco Central Europeu (BCE) reuniu-se na quarta-feira e volta a reunir-se esta quinta-feira em Frankfurt para mais uma decisão de política monetária, mas o desfecho parece já escrito antes mesmo de a porta da sala de reuniões se abrir.

Os investidores atribuem uma probabilidade de 98% a que Christine Lagarde e os restantes membros do conselho mantenham a taxa de depósito inalterada nos 2,25%, segundo os dados mais recentes do Central Bank Watch, e essa é também a leitura unânime dos 74 economistas ouvidos pela Reuters entre 13 e 16 de julho.

A própria presidente do BCE já tinha deixado o caminho traçado no final de junho, em Sintra, onde afirmou que os riscos sobre a inflação estavam “mais equilibrados” e que não havia motivo para repetir em julho a subida decidida no mês anterior.

A subida de 25 pontos base de junho foi a primeira em quase três anos e surgiu depois de a inflação na Zona Euro ter furado a barreira dos 3%, obrigando o banco central a travar a escalada com o que muitos analistas descreveram então como um “tiro de aviso”.

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A pausa agora amplamente esperada não significa, contudo, que o BCE tenha fechado a porta a novas subidas de juros. A escalada da tensão no Médio Oriente, que fez disparar o preço do petróleo em mais de 30% este mês, com o Brent a subir de valores abaixo dos 72 dólares no arranque do mês para atualmente negociar acima dos 93 dólares — à boleia dos ataques recíprocos entre EUA e Irão junto ao Estreito de Ormuz –, reacendeu o temor de que a inflação volte a acelerar e devolveu força à hipótese de um novo aumento já em setembro.

É esse o cenário que ganha peso entre os analistas, numa altura em que a inflação na Zona Euro abrandou para 2,8% em junho, ainda bem acima da meta de 2% do banco central.

Segundo o inquérito da Reuters, 70% dos economistas consultados (52 em 74) esperam mais uma subida da taxa de juro ainda este ano, nomeadamente em setembro, uma proporção que subiu dos 60% registados no mês anterior.

“O BCE provavelmente teria de subir os juros de qualquer forma, mesmo sem todo este ruído extra em torno do Estreito de Ormuz”, refere Chris Scicluna, responsável de investigação económica do Daiwa Capital Markets, notando porém que, “para já, vai considerar que não há urgência”.

Para quem tem crédito à habitação, o momento é particularmente sensível. Uma nova subida dos juros em setembro pode devolver pressão à Euribor, travando o alívio com a prestação da casa desde o verão de 2024.

Já Simon Wells, economista-chefe para a Europa do HSBC, alerta para o risco de contágio salarial caso o petróleo se mantenha acima dos 90 dólares até setembro, o que “poderá bem ser prudente” para justificar nova subida — um cenário que ganhou plausibilidade depois de a EIA norte-americana ter revisto em alta a sua previsão para o Brent este ano, para uma média de 96 dólares por barril.

O Deutsche Bank vai no mesmo sentido e estima que o BCE volte a subir a taxa de depósito em 25 pontos base em setembro, para 2,5%, numa trajetória que contrasta com a da Reserva Federal norte-americana, à qual o banco alemão atribui um corte de juros já em 2027.

Do lado da Allianz Global Investors, Michael Krautzberger e Christian Schulz sublinham que o BCE deverá manter uma “abordagem estritamente dependente dos dados, reunião a reunião”, e que, apesar de sinais mais suaves na inflação core, “a renovada volatilidade dos preços energéticos cria uma incerteza persistente” que desaconselha qualquer recuo prematuro na postura mais restritiva.

Os dois especialistas da sociedade gestora alemã mantêm como cenário central uma subida de juros após o verão, seguida de um novo aumento até ao final do ano, que levaria a taxa de depósito até 2,75%, caso a Reserva Federal norte-americana (Fed) também retome o ciclo de subidas.

O Conselho de Governadores do BCE reúne-se em Frankfurt para decidir sobre as taxas de juro, num momento em que a guerra no Médio Oriente e a subida do petróleo complicam as contas de Christine Lagarde e da equipa do banco central.BCE

Porta aberta a nova subida das taxas e da prestação da casa

A equipa de mercados do ING, liderada por Carsten Brzeski, Francesco Pesole e Michiel Tukker, descreve a reunião de quinta-feira como uma espécie de “cabo-de-guerra entre falcões e pombas” dentro do Conselho do BCE.

Na ausência de novas projeções económicas, que só voltarão em setembro, os analistas do banco neerlandês esperam que seja a comunicação de Christine Lagarde a fazer o trabalho pesado, com a ala mais falcão do Conselho do BCE a manter os mercados a apostar em uma ou duas subidas até ao final do ano.

Essa mensagem, sublinham, “dificilmente surgirá no comunicado cauteloso ou na conferência de imprensa”, mas poderá acabar por transparecer através das habituais fugas de informação ao final do encontro.

O pano de fundo económico também pesa nesta equação, dado que a economia da Zona Euro contraiu 0,2% no primeiro trimestre e deverá crescer apenas 0,5% no conjunto de 2026, uma quarta revisão em baixa consecutiva das previsões dos economistas ouvidos pela Reuters, o que reforça os argumentos de quem defende cautela redobrada antes de qualquer nova subida.

Para quem tem crédito à habitação, o momento é particularmente sensível, ainda que os efeitos desta reunião só se façam sentir de forma indireta. A Euribor a seis meses, a mais utilizada nos contratos a taxa variável em Portugal, tem vindo a subir desde o início do ano e já ronda os 2,7%, renovando máximos de dezembro de 2024.

O mercado não espera que esta reunião altere significativamente o rumo da política monetária, mas servirá para testar a influência da guerra no Médio Oriente no calendário do BCE.

Uma eventual subida de juros em setembro tende a alimentar novas subidas da Euribor, invertendo parte do alívio que muitas famílias sentiram desde que o BCE começou a cortar juros entre o verão de 2024 e o verão de 2025, mostrando assim como decisões tomadas em Frankfurt acabam sempre por chegar ao bolso das famílias.

Além da decisão sobre juros, esta reunião poderá também trazer pistas sobre outros temas da política monetária do BCE, nomeadamente a possibilidade de duplicar, de 1% para 2%, o rácio de reservas mínimas não remuneradas exigido aos bancos, uma medida que pouparia ao Eurosistema cerca de 4 mil milhões de euros por ano em juros, segundo estimativas dos analistas.

Está ainda por esclarecer a preferência do Conselho do BCE entre operações de refinanciamento de longo prazo e uma carteira estrutural de obrigações como principais instrumentos de fornecimento de liquidez, um debate que os analistas da Allianz Global Investors esperam ver abordado, ainda que sem respostas definitivas, na conferência de imprensa de Christine Lagarde.

No conjunto, o mercado não espera que esta reunião altere significativamente o rumo da política monetária, mas servirá para testar até que ponto o BCE está disposto a deixar a guerra no Médio Oriente redesenhar o calendário das próximas subidas de juros, com os analistas do ING a recordarem que, mesmo que o banco central decida surpreender com uma subida já esta semana, tal moveria dificilmente os mercados além de uma antecipação da subida prevista para setembro.

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