Depressão Kristin vai fazer abrandar o crescimento e afetar as contas públicas?

Centro e Oeste e Vale do Tejo representam 20% da economia. Paragem na produção causa preocupação, mas economistas acreditam que PIB resiste. Controlo da despesa é receita para atingir excedente.

O temporal que assolou o país na semana passada provocou centenas de milhões de euros de prejuízos para empresas e famílias, com Leiria, por onde a depressão Kristin entrou no território, Coimbra e Santarém a serem os distritos mais afetados. Com o levantamento dos danos ainda a decorrer, o Governo faz contas ao impacto, mas os economistas consultados pelo ECO acreditam, para já, na resistência da economia na globalidade do ano e descartam que os apoios sacrifiquem o ligeiro excedente.

Há fábricas destruídas, maquinaria incapaz de funcionar, produção danificada e, sem água ou eletricidade, empresas que resistiram aos estragos mas estão paralisadas por falta de condições mínimas. Perante este cenário, os empresários contabilizam os prejuízos diretos, mas também os indiretos, ou seja, aqueles que ocorrem por não conseguirem exportar ou perderem lugar nas cadeias de abastecimento.

O ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, sinalizou na semana passada que o impacto económico fica “bastante acima” dos valores registados nos incêndios de 2024 ou 2025. “Fui fazendo as minhas contas, evidentemente, ao ouvir a descrição do que estava a ser feito e vou criando um número na minha cabeça, mas são números muito redondos. O que lhe digo é que são números bastante acima daquilo que foram os prejuízos nos incêndios do ano 2025 ou do ano 2024”, afirmou o governante aos jornalistas.

Castro Almeida reconheceu nessa ocasião que, devido ao facto de “muitíssimas fábricas” estarem sem teto e sem “condições de trabalhar”, a situação “vai mexer nas cadeias de produção”, o que “vai ser um problema sério”.

Castro Almeida reconheceu que, devido ao facto de “muitíssimas fábricas” estarem sem teto e sem “condições de trabalhar”, a situação “vai mexer nas cadeias de produção”, o que “vai ser um problema sério”.

Esta semana, o Governo avançou com um número mais concreto: pelo menos dois mil milhões de euros em prejuízos, embora não discrimine o que a estimativa abrange. Por seu lado, os dados avançados pelas associações são ainda muito preliminares.

A título de exemplo, a Associação dos Industriais de Vidro de Embalagem quantifica em milhões de euros os prejuízos para o setor, que aos custos da reconstrução das fábricas danificadas soma as exportações perdidas, enquanto a Associação Empresarial da Região Oeste (AIRO) aponta para um impacto que ultrapassam os 20 milhões de euros.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2024, o Centro representou 13,7% do PIB do país e o Oeste e Vale do Tejo 6,3%. Duas regiões onde se inserem os três distritos mais afetados: Leiria, um motor industrial e exportador, com presença no comércio externo e competitividade das pequenas e médias empresas (PME), Coimbra onde o ensino superior, a ciência e emprego qualificado são prato forte e Santarém um dos distritos com maior contribuição relativa no emprego e comércio internacional fora dos principais centros urbanos.

Segundo o organismo de estatística nacional, na região de Leiria existem cerca de 41.300 empresas, o equivalente a 2,7% do total do país, que empregam mais de 127 mil pessoas, sendo a maioria PME e voltadas para setores como os moldes, vidro, cerâmica, plásticos e metalomecânica. Destas, 976 são exportadoras, correspondente a 4,6% do total em Portugal, com 30% das empresas a venderem ao exterior mais de um milhão de euros, tendo Espanha como o principal destino.

Em 2024, a região exportou 2.313 milhões de euros, ou seja, 2,9% dos bens vendidos por Portugal ao exterior, com o concelho de Leiria a representar 36,2% do total da região, a Marinha Grande 37,6%, Pombal 10,9% e Porto de Mós 9,2%. Os minerais e minérios, máquinas e aparelhos, metais comuns e plásticos e borracha lideram os principais produtos exportados para um total de 154 mercados.

Região de Leiria tem 976 exportadoras, o que correspondente a 4,6% do total em Portugal, com 30% das empresas a venderem ao exterior mais de um milhão de euros.

Por sua vez, segundo dados da CCDR Centro, a região de Coimbra tem 61.649 empresas, com um valor acrescentando bruto por trabalhador (VAB) de 28.991 euros e um volume de negócios por empresa de 265,8 milhões de euros. Apesar da indústria ter um menor peso, com os serviços a serem a principal atividade, o peso das exportações de bens no PIB ascende a 19,4%.

Por seu turno, o distrito de Santarém representa cerca de 3% das exportações nacionais de bens. A história económica da região está fortemente ligada ao setor primário, especialmente à agricultura e agroindústria, mas a indústria está presente em segmentos como logística, transformação alimentar e manufatura.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

É neste sentido que Ricardo Ferraz, professor no ISEG e na Universidade Lusófona, admite que o Produto Interno Bruto (PIB) sobretudo do primeiro trimestre poderá sair penalizado, mas a economia ainda crescer na globalidade do ano em torno de 2%. “Isto tem tudo impacto no crescimento e poderá levar a eventuais revisões de previsões económicas, mas nada mais grave sucedendo e admitindo que os apoios chegam às famílias e empresas rapidamente, a economia ainda terá todas as condições para registar um crescimento de 2%”, antevê.

O Ministério das Finanças prevê atualmente um crescimento de 2,3% este ano, em linha com o esperado pelo Banco de Portugal, mas mais otimista do que as restantes principais instituições económicas.

Nada mais sucedendo grave e admitindo que os apoios chegam as famílias e empresas rapidamente, a economia ainda terá todas as condições para registar um crescimento de 2%.

Ricardo Ferraz

Ou seja, apesar da importância destas regiões para a produção do país e de sublinharem que ainda é muito cedo para leituras concretas, os economistas mostram-se confiantes na resiliência da economia e até admitem que, paradoxalmente, os efeitos da reconstrução podem posteriormente dar um impulso aos números do PIB.

“Há três impactos no PIB. O primeiro é sobre o stock de capital, ou seja, a destruição das infraestruturas. O segundo impacto é sobre a paragem na produção e o terceiro é o da reconstrução. Vai haver despesa de investimento na reconstrução das fábricas, das estradas, das casas, das torres de eletricidade que caíram. Ironicamente e paradoxalmente, dado que o primeiro efeito não é contabilizado no PIB, é provável que o efeito da reconstrução seja mais forte do que o da perda de produção“, considera Pedro Braz Teixeira, diretor do gabinete de estudos do Fórum para a Competitividade.

Vai haver despesa de investimento na reconstrução das fábricas, das estradas, das casas, das torres de eletricidade que caíram. Ironicamente e paradoxalmente, dado que o primeiro efeito não é contabilizado no PIB, é provável que o efeito da reconstrução seja mais forte do que o da perda de produção.

Pedro Braz Teixeira

Deste modo, para o economista, caso não se concretizem outros riscos, nomeadamente externos, “há condições para que as metas sejam cumpridas”. Uma opinião partilhada por Ricardo Ferraz, que porém ressalva que também dependerá dos próximos dias, para os quais se prevê um agravamento do estado do tempo.

É de admitir que haja impactos para a economia que podem ser elevados, mas os efeitos indiretos vão depender de duas coisas. Primeiro, quando é que o temporal vai acabar, porque vem aí outra tempestade que pode trazer mais constrangimentos. Depois se os apoios que vão ser dados chegam rapidamente às pessoas e às empresas ou não e que impacto vão ter na economia, nomeadamente em termos de efeitos reprodutivos no PIB, já que podem mitigar um bocadinho o efeito negativo”, aponta.

Ou seja, à data e com os escassos dados disponíveis, os economistas não decretam já um abrandamento da economia apesar de uma eventual penalização de algumas exportações e perda de produção a médio prazo, uma vez que o impacto da recuperação poderá compensar quer esse efeito, quer a menor propensão ao consumo da população afetada.

Estragos provocados pela tempestade Kristin nos arredores da cidade de LeiriaHugo Amaral/ECO

Certo é que o impacto do temporal será mais um desafio para o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento. Os apoios concedidos pelo Governo, equivalentes a 0,8% do PIB, terão impacto nas contas públicas e a fatura pode subir uma vez que o Executivo não exclui rever o programa para reforçar algumas componentes, num ano já desafiante devido ao impacto do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Em entrevista ao Now, o ministro da tutela admitiu que “esta tragédia veio tornar o exercício orçamental mais difícil”, já que existem impactos “significativos” quer devido ao aumento da despesa, quer à perda de receita. No entanto, garantiu que apesar da pressão adicional, o Governo “tudo fará para manter o equilíbrio das contas públicas” e alcançar o excedente de 0,1% do PIB em 2026.

E isso mesmo é destacado pelos economistas consultados pelo ECO. “Como estamos no início do do ano acredito que o ministro das Finanças ainda tem margem de manobra e meios ao seu dispor para nos próximos trimestres recuperar de certa forma e ainda assim conseguir registar um pequeno excedente”, prevê Ricardo Ferraz.

Entre os instrumentos à disposição de Miranda Sarmento está, por exemplo, a dotação provisional destinada à cobertura de despesas imprevisíveis e inadiáveis que para este ano ascende a 500 milhões de euros. Este foi um dos mecanismos usados pelo Governo de António Costa para financiar os apoios associados à mitigação do impacto da pandemia.

Além das cativações, um controlo mais apertado da despesa ao longo do ano é uma das opções que o Terreiro do Paço tem à sua disposição para ‘salvar’ o saldo orçamental. Ademais, muita da ajuda é sobre a forma de empréstimos e, portanto, não é despesa pública e não vai ao défice”, assinala Pedro Braz Teixeira.

Entre os instrumentos à disposição de Miranda Sarmento está, por exemplo, a dotação provisional destinada à cobertura de despesas imprevisíveis e inadiáveis que para este ano ascende a 500 milhões de euros.

Como está a acontecer no princípio do ano, existe uma grande margem orçamental e há a possibilidade de reafetação e verbas para chegar a meta desejada. Estamos a enfrentar isto com as contas públicas com uma certa margem”, aponta o economista.

Ainda assim, o Governo está isolado na previsão de atingir um excedente este ano, já que o Conselho das Finanças Públicas e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) apontam para um défice de 0,6%, o Banco de Portugal de 0,4% e a Comissão Europeia de 0,3%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê um saldo nulo.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Depressão Kristin vai fazer abrandar o crescimento e afetar as contas públicas?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião