Empresários ainda não estão a recorrer às ajudas do Estado por causa do vírus. Estão em modo “solidariedade” e “desenrascanço”

As empresas estão a desdramatizar a situação e garantem que recorrer às medidas anunciadas pelo Governo, só em último recurso. A estratégia é solidariedade e desenrascanço.

As empresas nacionais dependentes do fornecimento de matérias-primas da China e de Itália, e que exportem para estes dois mercados, são as mais vulneráveis aos efeitos do coronavírus e as principais candidatas a recorrer às medidas de apoio anunciadas pelo Executivo. No entanto, as empresas contactadas têm discurso alinhado para desdramatizar a situação e garantem que recorrer às medidas, só em último recurso. A estratégia é solidariedade e desenrascanço.

“Há um conjunto de empresas do setor do vestuário que estão a ajudar-se mutuamente”, conta César Araújo, presidente da Anivec. “Se faltam telas, por exemplo, ligam para outra empresa que as tenha e pedem. Se tenho um problema ligo a outra empresa e vice-versa”, explica o empresário sublinhando que o objetivo é “aguentar o máximo possível” porque “há noção das dificuldades do país”. “Só usaremos as medidas se for extremamente necessário“, acrescenta César Araújo.

Os portugueses são muito desenrascados, principalmente o povo cá do norte“, sublinha, por seu turno, António Ferreira, fundador da Bolflex. Para esta empresa especializada em componentes para calçado, a solução é “abrir uma linha de crédito por uma questão de segurança e para assegurar a continuidade dos serviços”. António Ferreira considera que “as ajudas do Estado são poucas e insuficientes” e que os empresários deveriam ter “mais ajudas”.

Só usaremos as medidas se for extremamente necessário.

César Araújo

Presidente da Anivec

Para já, em cima da mesa está um pacote de medidas que passa por uma linha de tesouraria de 200 milhões de euros, o alargamento do prazo para as empresa pagarem impostos, a agilização dos lay-offs e algumas formas de flexibilização dos fundos comunitários. Mas o Governo garante que estas são medidas dinâmicas, que serão reavaliadas à medida que a situação vá evoluindo.

Apesar de as Nações Unidas já falarem de recessão mundial devido ao coronavírus, com a economia a perder entre um a dois biliões de euros, os empresários nacionais estão apreensivos mas expectantes. “Algumas das matérias-primas de que precisamos estão atrasadas“, reconheceu ao ECO, Fortunato Frederico. O dono da Kyaia, que detém a marca Fly London, admite que a situação “é motivo de apreensão”, até porque esta “é apenas a ponta do icebergue, que ainda não se vê”. Para o empresário, a decisão de Itália colocar a totalidade do país de quarentena “é um panorama realmente assustador”.

Se tivermos de parar a produção, para nós seria uma tragédia, porque estamos em força a exportar”, reconhece Fortunato Frederico, numa referência à fábrica de calçado de Felgueiras, que teve de encerrar portas porque todos os seus colaboradores foram colocados de quarentena depois de o dono da empresa ter ido à feira de calçado de Milão onde foi infetado com Covid-19. “A minha postura é de apreensão pura e dura, mas há sempre uma réstia de esperança de que as coisas não piorem”, diz.

Na Autoeuropa, por exemplo, há a sensação de que o pior pode já ter passado, porque a China já está a retomar a laboração. “A produção da Autoeuropa está coberta, não temos quaisquer impactos na importação de componentes, que decorre sem problemas“, garante fonte oficial da Autoeuropa ao ECO, quando questionada sobre eventuais impactos de um abrandamento das importações da China. “Além disso, a China já está a laborar”, acrescenta.

Já na vertente das exportações, “a China já não faz parte do top 10 dos exportadores” da fábrica de Palmela, isto porque o T-ROC tem, na Europa, o seu principal mercado de exportações — a China tem um modelo diferente deste SUV. “A Sharan e o Scirocco eram exportados em grandes quantidades para a China, mas agora já não é o caso”, acrescentou a mesma fonte oficial.

Em termos de mão-de-obra, a fábrica de Palmela já teve vários colaboradores de quarentena, mas nenhum acusou positivo e a Autoeuropa começou a adotar medidas de prevenção, antes mesmo de a Direção Geral da Saúde ter feito recomendações para as empresas.

A mesma nota de tranquilidade para o setor automóvel é dada pela Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA). “Por enquanto não sentimos muita coisa“, diz ao ECO Adão Ferreira. O secretário-geral sublinha que “não houve nenhuma disrupção de fornecimento” mas, “se a situação continuar, poderá acontecer”, admitiu. “Notam-se atrasos na receção de algumas peças, mas não o suficiente para implicar a paragem de qualquer empresa”, avança Adão Ferreira, referindo que o inquérito que a associação fez junto dos seus associados não revelou quaisquer sinais de alarme. Ainda assim, o responsável receia o “efeito dominó”, até porque “Portugal não é muito diferente de Itália”.

"Se tivermos de parar a produção, para nós seria uma tragédia, porque estamos em força a exportar.”

Fortunato Frederico

Kyaia

O efeito dominó não é apenas externo. A Frezite, que começou por ser apenas uma empresa de ferramentas de corte e hoje se estende ao setor aerospacial, está a “reforçar a atividade” tendo em conta “a instabilidade do setor automóvel”, explicou ao ECO, José Manuel Fernandes. O fundador do grupo explica que a empresa tem em vigor o seu próprio plano e contingência, que poderá passar por colocar alguns trabalhadores em regime de teletrabalho. “Estamos preocupados com o período mau do setor automóvel, tendo em conta o défice de estabilidade quanto às fontes energéticas, em stop and go, em múltiplas áreas”, explicou o empresário. Assim, a Frezite “está a apostar nos outros núcleos” que tem vindo a desenvolver como o da aeronáutica, aeroespacial e metalomecânica de alta precisão, onde “temos novas oportunidades”, acrescentou.

O ECO contactou várias empresas e todas garantiram que não vão para já recorrer à linha de tesouraria nem aos lay-offs. Aliás, a figura do lay-off já é usada setor do calçado, “mas apenas por uma questão estratégica”, frisou ao ECO, Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS). O recurso ao lay-off é, na opinião da APICCAPS, “uma excelente medida de gestão e há, por isso, várias empresas que dessa ferramenta fazem recurso, no período de transição de coleção, como é aquele que se vive neste momento”.

Ao nível do vestuário, César Araújo assegura que “não há muitas empresas em lay off, até porque isto, numa situação normal, significa que as empresas estão com problemas de produção”. “A nossa indústria tem um contrato coletivo de trabalho que permite a adaptabilidade e férias — que é o que estamos a fazer, baseado nas necessidades. Para já não temos ninguém que tenha recorrido a outra situação para além destas“, frisou.

“Mas quanto mais tempo a situação se mantiver, será necessário introduzir novos mecanismos que têm de ser articulados com as empresas, com o Ministério da Economia, a secretaria de Estado da Internacionalização e o Ministério do Trabalho”, explica o presidente da Anivec. “E já estamos a falar com eles”, frisa.

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