2050: um compromisso com as gerações futuras

  • Cristina Amorim
  • 10:00

Se os últimos 25 anos foram de consciencialização e integração, os próximos 25 terão de ser sobretudo de execução e de transformação.

Ao olharmos para os últimos 25 anos, é inevitável reconhecer que a sustentabilidade deixou de ser um conceito periférico para se tornar um eixo central das estratégias empresariais, das políticas públicas e das expectativas da sociedade. Em Portugal e no mundo, assistimos a uma transformação profunda, ainda incompleta, mas estrutural, na forma como pensamos o crescimento económico, o uso de recursos e o papel das empresas na criação de valor.

Há 25 anos, embora o desenvolvimento sustentável já integrasse as dimensões ambientais, sociais e económicas, estes temas eram frequentemente abordados de forma segmentada nas empresas. Hoje, encontra-se integrado no modelo de negócio, articulando ambiente, sociedade e governance, influenciando decisões de investimento, cadeias de abastecimento, inovação e reputação corporativa.

Portugal acompanhou esta evolução de forma significativa, registando progressos em áreas como a energia renovável, a economia circular e a gestão florestal.

Os últimos 25 anos mostraram também os limites do progresso alcançado: a emergência climática intensificou-se, a perda de biodiversidade continua a um ritmo preocupante e as desigualdades sociais permanecem um desafio estrutural. O crescimento económico global, embora robusto, não foi suficientemente inclusivo nem ambientalmente sustentável.

É precisamente por isso que os próximos 25 anos exigem uma ambição maior.

Em primeiro lugar, devemos exigir e contribuir para uma aceleração decisiva na transição climática. Mais do que assumir compromissos, será necessário demonstrar capacidade de execução, traduzindo metas em planos concretos, investimentos, inovação e transformação dos modelos de negócio. Isto implica acelerar a descarbonização dos sistemas energéticos, dos processos industriais e das cadeias de valor, reconhecendo simultaneamente a complexidade e os desafios associados a esta transição.

Para as empresas, significa continuar a investir em soluções de baixo carbono, reforçar a eficiência e a resiliência das operações e contribuir para uma economia cada vez mais descarbonizada.

Em segundo lugar, a preservação e regeneração dos ecossistemas terá de passar do discurso à ação concreta. As florestas de sobreiro, que sustentamos e valorizamos há mais de um século e meio, serão ainda mais centrais neste contexto: pela sua contribuição para a mitigação das alterações climáticas, pela sua riqueza em biodiversidade e como exemplo de equilíbrio entre atividade económica e conservação ambiental. Exige-se não apenas proteger, mas regenerar e expandir estes modelos.

Em terceiro lugar, a responsabilidade social assumirá um papel igualmente crítico. A transição para uma economia mais verde terá de ser também justa, garantindo oportunidades, inclusão e qualidade de vida. As empresas serão cada vez mais chamadas assumir um papel ativo na valorização das pessoas, na promoção da diversidade e na criação de condições de trabalho que favoreçam o bem-estar e a conciliação entre vida profissional e pessoal, temas que, de forma crescente, definem a atratividade e a reputação das organizações.

Por fim, a governação terá de evoluir no sentido de maior transparência, responsabilidade e visão de longo prazo. Os stakeholders (investidores, clientes, colaboradores e colaboradoras e sociedade em geral), exigirão cada vez mais coerência entre discurso e prática.

A sustentabilidade deixará de ser um fator de diferenciação para se tornar um requisito básico de competitividade.

Acredito que os próximos 25 anos serão marcados por uma mudança de paradigma: da mitigação de impactos para uma ação crescente visando gerar valor ambiental e social, alinhando propósito, inovação e performance.

Por isso, temos a responsabilidade, e a oportunidade, de continuar a demonstrar que é possível crescer respeitando os limites do planeta e contribuindo para uma sociedade mais equilibrada.

Se os últimos 25 anos foram de consciencialização e integração, os próximos 25 terão de ser sobretudo de execução e de transformação. E 2050 não é apenas um horizonte temporal, é um compromisso com as gerações futuras.

Nota: esta é uma coluna sobre os últimos e os próximos 25 anos da sustentabilidade, no âmbito do 25.º aniversário do BCSD Portugal e que pretende trazer conteúdos ligados a esta temática por personalidades de reconhecida influência empresarial ou académica.

  • Cristina Amorim
  • Administradora e CFO do Grupo Corticeira Amorim

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