A máquina que sustenta o dólar

O dólar prevalece porque está apoiado pelo ecossistema que melhor transforma conhecimento em valor económico.

Li esta semana, na revista Fortune, um artigo sobre Knut Wicksell, economista sueco cuja teoria da taxa natural de juro, de 1898, ajuda a explicar um dos grandes paradoxos do nosso tempo. O texto, baseado num research paper do CIO do Deutsche Bank, coloca a questão: Por que razão os investidores continuam a financiar uma dívida pública norte-americana próxima dos 40 biliões de dólares, quando o seu serviço já ronda os 24 mil milhões por semana?

A resposta é a de que tal não está associado apenas à credibilidade da Reserva Federal ou ao estatuto internacional do dólar. Está, sobretudo, na capacidade de a economia dos Estados Unidos transformarem investigação em inovação e inovação em empresas com retornos capazes de atrair o capital mundial.

E é aqui que a teoria de Wicksell encaixa, este distinguia a taxa de juro de mercado da taxa natural de juro: aquela que equilibra poupança e investimento e reflete a rentabilidade do capital produtivo. Quando a taxa de mercado fica abaixo da natural, o financiamento torna-se barato, estimulando o crédito e o investimento.

Desta distinção nasce a leitura do research paper do Deutsche Bank. Durante décadas, o papel central dos Estados Unidos no sistema financeiro internacional permitiu ao país financiar-se a taxas de mercado inferiores à sua taxa natural, um diferencial a que o banco chama “Wicksell spread”. Esse diferencial tem vindo a estreitar-se. Mas a comparação mais relevante talvez seja hoje outra: menos entre a taxa de mercado e a taxa natural e mais entre esta última e a rentabilidade do capital próprio das empresas americanas, sobretudo tecnológicas, cujos retornos continuam a atrair capital global.

A mudança é fundamental. O mundo já não financia os Estados Unidos apenas porque precisa de dólares ou de títulos do Tesouro. Financia-os porque quer participar nos retornos das suas empresas. É essa combinação de moeda de reserva, profundidade dos mercados financeiros e capacidade empresarial de gerar retornos elevados que torna os ativos americanos difíceis de substituir e mantém financiáveis os défices do país.

Há décadas que se anuncia o fim da hegemonia do dólar, primeiro face ao iene, depois ao euro, e mais recentemente face ao renminbi. Mas o “privilégio exorbitante” do USD não assenta apenas na história ou no poder militar. Assenta sim na liquidez dos títulos do Tesouro e na expectativa de que a economia americana continuará a produzir empresas com retornos bem acima dos obtidos noutras economias. A moeda de reserva não é, deste modo, um estatuto herdado; é antes um prémio que tem de ser renovado, numa base diária diria, pela produtividade, pela inovação e pela confiança institucional na economia norte-americana.

Temos, pois, uma lição incómoda para a Europa. Os Estados Unidos não têm o monopólio da ciência e da inovação. A Europa dispõe também de universidades excelentes e de investigadores de primeira linha. Mas nenhum outro espaço económico para além do americano fecha, à mesma escala, o circuito que liga investigação fundamental, capital de risco, talento, compras públicas, crescimento empresarial e mercados bolsistas.

Portugal conhece bem este percurso. A Sword Health desenvolveu cá parte essencial da sua tecnologia, mas encontrou nos Estados Unidos a escala para se tornar global. A Talkdesk nasceu do talento de Tiago Paiva e Cristina Fonseca, mas construiu a expansão a partir da Califórnia. OutSystems e Feedzai mantêm equipas e forte identidade portuguesa, mas fizeram da presença nos Estados Unidos o eixo do seu crescimento. Não é uma fuga: é algo mais desconfortável. Formamos talento e criamos empresas, mas continuamos a precisar do outro lado do Atlântico para lhes dar profundidade financeira, grandes clientes e trajetória global. A investigação pode nascer em Lisboa, no Porto ou em Coimbra; a capitalização acontece, demasiadas vezes, em Boston ou na Califórnia.

Na Europa, tratamos investigação, política industrial, financiamento e regulação como compartimentos separados. Nos Estados Unidos, universidades, capital de risco, grandes empresas, agências federais e bolsa são peças da mesma máquina. O Estado financia ciência e atua como primeiro comprador de tecnologias emergentes; o capital privado seleciona e internacionaliza; o mercado bolsista dá escala. A Europa inventa; a América capitaliza. A frase é injusta para muitas empresas europeias, mas descreve uma tendência persistente.

Em conclusão, a confiança na dívida americana depende, em parte, da convicção de que o país continuará a dominar as próximas vagas tecnológicas. Mas seria um erro estratégico para a Europa ficar à espera de uma eventual perda de liderança americana. O nosso problema resolve-se de forma sustentada criando uma verdadeira união dos mercados de capitais, mobilizando a poupança europeia para financiar empresas europeias e reconhecendo que inovação sem escala comercial é apenas uma promessa incompleta. Acima de tudo, a Europa tem de deixar de tratar o risco como algo a eliminar e passar a encará-lo como uma condição necessária do crescimento: sem mais capital disposto a arriscar, sem maior tolerância ao fracasso e sem apostas ambiciosas em empresas capazes de atingir escala global, continuaremos a proteger o presente à custa do futuro.

Wicksell ajuda a explicar por que razão o mundo continua a financiar os Estados Unidos. O dólar prevalece porque está apoiado pelo ecossistema que melhor transforma conhecimento em valor económico. Enquanto a Europa não completar esse circuito, continuará a produzir excelência científica e a vê-la transformar-se em negócio do outro lado do Atlântico.

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

A máquina que sustenta o dólar

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião