O equívoco de Ceuta reside no facto de se estar a observar o fenómeno migrante como uma “crise migratória” quando de facto se está a observar o que pode ser um “relatório do futuro”.

Ceuta parece uma cidade ocupada. Ceuta parece uma cidade libertada. Os migrantes deslocam-se pela cidade percorrendo o circuito humanitário, escondem-se no cemitério muçulmano, fogem para a selva de ninguém que rodeia a cidade. O exército ocupa as ruas da realidade de uma guerra que ainda não terminou. A polícia dirige o tráfego no intervalo do tráfico humano. O equívoco de Ceuta reside no facto de se estar a observar o fenómeno migrante como uma “crise migratória” quando de facto se está a observar o que pode ser um “relatório do futuro”.

As imagens são o retrato de um colapso da ordem pública e a imposição da lei do mais fraco contra o monopólio do mais forte. Os migrantes nas praias fazem lembrar um corpo expedicionário em movimento para o Continente. Pode o governo de Espanha dizer o que entender sobre a situação, mas a crise de Ceuta está longe de estar resolvida. Pode a Europa fazer o que entender, mas a crise de Ceuta é um manifesto político sobre as fronteiras externas da Europa – As fronteiras externas da Europa são insustentáveis.

Sem as fronteiras externas controladas, o espaço Schengen é uma ficção política perdida num tratado escrito para a realidade de um mundo que não existe. Não se pode construir um projecto económico e político como a União Europeia baseado numa política de migração assente exclusivamente na generosidade humanitária. A miséria económica e a “guerra infinita” que governam tantos estados falhados que rodeiam a Europa não concebem sequer a hipótese humanitária. Para esses países, a política humanitária europeia é sinal de fraqueza política e de impotência política para exercer a força da soberania. E sem a força da soberania nenhuma fronteira pode existir. O que se observa em Ceuta é um processo de instrumentalização política de seres humanos transformados num exército de miseráveis que ameaçam o Continente rico das oportunidades e do direito humanitário.

Nos estados falhados não existe pressupostos humanitários, apenas a força descarnada do poder. E o que se pode ver em Ceuta é o colapso de um poder democrático europeu vencido pelo poder autocrático dos estados falhados. A Espanha de Ceuta está neste momento num estado de emergência que mais parece um regresso ao “estado natureza” prévio à definição de um estado civil. Os cidadãos excedentários dos estados falhados são protegidos pela visão e pelo direito comunitário como se a Europa fosse um estado universal. Só que a Europa não é internamente um estado unitário, tal como não é externamente um estado universal. De certa forma, Ceuta funciona como uma metáfora da Europa inteira – Ceuta é uma cidade fortaleza que representa um posto avançado de uma Europa fortaleza.

Pode discutir-se se a manutenção de Ceuta como cidade fortaleza é a marca de uma identidade histórica ou a marca de um passado colonial. Mas os migrantes não querem a libertação da colónia Ceuta porque procuram a integração na Ceuta que pertence à Europa. Neste sentido, os migrantes procuram um oásis do deserto em que estão transformados os seus países. A Europa continua a ser o referencial de progresso e de prosperidade mesmo quando deixa de conseguir impor a sua vontade e o seu poder ao resto do mundo.

As fronteiras externas da Europa são linhas traçadas no mapa. As fronteiras externas da Europa são ficções políticas. As fronteiras externas da Europa são a negação da geografia da miséria. O desespero do sul global não se convence com as linhas políticas assinaladas nos tratados e na história. Este movimento global de migração em massa ameaça a Europa como projecto político e transporta no seu desespero a destruição da Europa como último refúgio dos deserdados do mundo.

Na Europa, a esquerda desiste de qualquer resistência a esta migração global. Os preconceitos ideológicos progressistas predominam sobre o mínimo equilíbrio ou racionalidade. Na Europa, a direita investe numa guerra civilizacional de resistência a esta migração global. Os preconceitos ideológicos nacionalistas predominam sobre o mínimo equilíbrio ou racionalidade. A Europa política só conhece a solução dos extremos. A direita e a esquerda na identidade comum dos extremos acabam no final por colocar em causa a própria identidade e cultura da Europa.

A Europa não será conquistada. Mas uma ideia de Europa alicerçada nas linhas azuis de uma cartografia política representa apenas uma fronteira frágil com um enorme vazio no meio que é todo o Continente. A pressão do exterior das fronteiras é um sinal que a Europa pode colapsar sobre a inércia do seu próprio vazio político.

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Iceberg Ceuta

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