Administração Interna silêncio plus

O Ministro da Administração Interna movimenta-se com uma liberdade e com um à-vontade próprio de quem manda na República porque se considera ainda o guardião último da República.

O país está suspenso no silêncio do Ministro da Administração Interna. Nada se passa, nada se faz, nada se concretiza politicamente em função da “terapia de confrontação extrema” entre o MAI, o Governo e o país. É lugar-comum afirmar que o estilo é o homem. O que dizer então do comportamento do Ministro? O titular da Administração Interna percorre Portugal com a arrogância de um Primeiro-Ministro e com a autoridade de um Director da Polícia Judiciária. O MAI não percebe que ao impor a sua agenda política de conveniência desautoriza o Primeiro-Ministro e confere à figura do Director da Polícia Judiciária a impunidade de um “arquitecto” sombra da República. O Ministro da Administração Interna movimenta-se com uma liberdade e com um à-vontade próprio de quem manda na República porque se considera ainda o guardião último da República. Impõe-se a pergunta clássica de toda a política – E quem guarda o guardião? Até há data ninguém. O MAI acaba por revelar a definição política de um país.

O Ministro que, na sua própria consideração, não é um político como os outros continua a pensar como um polícia. Não é possível observar no MAI qualquer vestígio de constrangimento, limitação, melodrama. Em cada aparição pública o Ministro exibe a autonomia de quem compreende a impotência do Estado para transformar a sociedade. Não sendo um político de carreira, este conhecimento não lhe causa qualquer embaraço. Pelo contrário, o MAI começa a sua carreira precisamente pelo topo depois de servir a República nos bastidores do Regime. Na realidade, o Ministro nem se entende verdadeiramente como um político, mas como um servidor do Estado cujo único propósito e destino manifesto é regenerar o país a partir da Administração Interna. Esta dissonância está a perturbar a política portuguesa – Temos um Ministro da Administração Interna que se julga Primeiro-Ministro e um Primeiro-Ministro que actua como um Director-Geral que aguarda pelo “inquérito dos serviços” para tomar uma decisão política.

Mas existe uma pergunta maior. Por que razão está o país sempre bloqueado pelo comportamento avulso e sistemático de Ministros e outros responsáveis políticos? Porque a política em Portugal está transformada na rotina dos interesses e na rotação dos cargos. A política em Portugal é apenas um ramo da Administração Pública – O que é essencial ao progresso da nação é muita administração e pouca política mais o entusiasmo pela governação tecnocrática. As ideias políticas só consomem os recursos dos Governos e não contribuem para a modernidade. Convém sublinhar que a modernidade é uma ideia política antes de se transformar na realidade de uma sociedade.

Uma democracia só existe quando há abundância de ideias políticas. Apenas quando as ideias são em número e em qualidade superiores aos problemas é que a verdadeira política é possível. É este excedente que permite o debate e as alternativas políticas. É este excedente que permite o progresso do país. Uma democracia é sempre a discussão entre propostas alternativas, uma espécie de comércio das ideias em direcção a uma sociedade melhor porque mais desenvolvida. A política vive deste excedente de ideias. A política não ocorre num contexto de escassez de ideias, de propostas, de visões. A escassez de ideias transforma a política numa variante da intriga, das teorias da conspiração e dos interesses pessoais e corporativos. Gerir a escassez de ideias políticas é o atributo dos ambiciosos, dos oportunistas e dos demagogos. Sem ideias e sem projectos, a política resume-se ao mecanismo formal e cerimonial das eleições de quatro em quatro anos. Por isso os portugueses estão descontentes com o Governo, mas recusam as eleições. A crise da política nacional é uma crise das ideias políticas. Está o país condenado à “desertificação do pensamento político”?

O silêncio simultâneo dos dois partidos do Regime, PS e PSD, acumula-se com a omissão do Governo e do Presidente da República em torno da situação de um Ministro da Administração Interna cercado por dúvidas políticas e incoerências processuais. Quando o silêncio é tão absoluto deixa de parecer “prudência institucional” para se aproximar de um “pacto tácito de auto-protecção”. É a política transformada num “thriller nos bastidores do Estado”. O silêncio e a omissão provocam a destruição das Instituições. E com a destruição das Instituições abre-se o espaço para a demagogia dos políticos Ventura no carrossel das Comissões de Inquérito Parlamentar.

O Ministro da Administração Interna está transformado num pequeno Napoleão. E Napoleão porque é desta figura maior a seguinte frase: “Um exército não pode parar. É o movimento que o mantém vivo”. O país tem um MAI que se limita a manter o movimento que o mantém vivo.

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