Afinal, o que quer Pedro Passos Coelho?
A entrevista que deu ao ECO caiu como uma bomba no meio político nacional, sobretudo à direita. Se o antigo primeiro-ministro não quer ser candidato a nada, o que quer então?
A 28 de julho de 2015, na Gare Marítima de Alcântara, apresentava-se formalmente a coligação Portugal à Frente, que juntava PSD e CDS na tentativa de buscar a reeleição nas legislativas de uns meses mais tarde. Na sala Almada Negreiros, que tinha sido palco – cinco anos antes – da apresentação do livro de Pedro Passos Coelho, a acelerar para chegar ao poder, o ambiente era marcado pelo alívio do fim do período da troika e de excitação pelo que aí viria.
Primeiro falou Paulo Portas, e depois Passos Coelho, e ambos foram iguais a si próprios. Portas disse que diria apenas uma frase acerca do passado, e usou o resto do tempo para falar do que faria agora a coligação, finalmente livre do período de emergência. Foi um discurso positivo, comercial, eleitoralmente eficaz. E depois o primeiro-ministro e recandidato subiu ao palco.
Falou do futuro, sim, mas falou muito do passado. Passou o tempo a justificar a atuação do seu Executivo, que tomou medidas muito duras na tentativa de reequilíbrio das contas públicas. Atacou duramente o PS por nunca ter assumido a sua responsabilidade na bancarrota e na chegada da troika. E depois, quando olhou para a frente, prometeu naturalmente mais prosperidade, mas tornando sempre claro que não vendia facilidades e que o caminho ainda ia ser duro.
Sentado na primeira fila, Portas demonstrava impaciência. Sabia que era preciso, emocionalmente, virar a página, que o País estava cansado da dura verdade que lhes comia as contas e que precisava de ânimo, de esperança, de que lhe vendessem algum sonho. De certa forma, apesar de todos os problemas até pessoais, Passos e Portas eram a dupla perfeita, um Jekyll de faro político e um Hyde de pragmatismo e ação.
Mesmo depois da troika, a coligação Portugal à Frente venceu as legislativas seguintes, e acabou por não governar porque António Costa inventou a geringonça. Seguiram-se nove anos de governos PS, e mais de dez até ouvirmos Pedro Passos Coelho, convictamente, a explicar o que é este seu regresso à participação política.
A marcante entrevista que deu ao ECO, a primeira de fôlego em quase oito anos, é todo um tratado, e tem sobretudo o mérito de mostrar um Pedro Passos Coelho a falar claro, sem medo e sem tabus, acerca de todas aquelas coisas que têm sido alvo de especulação. Em vez de adivinharmos o que quer ele dizer com qualquer frase ou qualquer aparição, podemos agora ler as suas palavras. Goste-se mais ou menos, mas sem ambiguidades.
O grande alvo desta entrevista é, sem dúvida alguma, Luís Montenegro. A mensagem central é clara: o Governo está a arrastar os pés nas reformas de que o País precisa e, como tal, não é o governo de que o País precisa. É claro que o contexto parlamentar não é o ideal para o bloco PSD/CDS avançar de forma independente, mas até para isso Passos Coelho tem resposta: o contexto minoritário é difícil mas não foi contrariado por Luís Montenegro, que o devia ter feito através de um entendimento alargado à direita.
Fica claro que Passos acha que faria (muito) melhor do que Montenegro, mas está perante uma realidade que não lhe dá margem. Poderia ter sido mais telegráfico e mais neutro na apreciação do seu antigo líder parlamentar, mas fica realmente cristalino o que o antigo Primeiro-ministro pensa do atual, e não é grande coisa.
Fica claro que Passos acha que faria (muito) melhor do que Montenegro, mas está perante uma realidade que não lhe dá margem. Montenegro lidera o partido, lidera o Governo, e não lhe vai simplesmente dar o lugar (que Passos diz que não quer, para já). Poderia ter sido mais telegráfico e mais neutro na apreciação do seu antigo líder parlamentar, mas fica realmente cristalino o que o antigo Primeiro-ministro pensa do atual, e não é grande coisa.
Se este ataque pode ter doído (certamente doeu), a reação da máquina laranja foi desajustada, começando pelo erro de esta ter sido veiculada por Hugo Soares e não por um qualquer “senador” do partido. Hugo Soares tem um perfil mais agressivo e mais dedicado à pequena guerrilha, mas é atualmente o Secretário-Geral do PSD, algo que reforça ainda mais o contraste que o próprio Passos quis deixar claro, entre a sua figura e os quadros de topo do atual PSD.
Já o Chega e a Iniciativa Liberal terão recebido esta entrevista com agrado. No caso da IL, a vontade de ser parte da solução governativa estava clara, não teve foi votos para fazer a diferença e acabou numa posição de alguma irrelevância parlamentar.
Para o Chega e para André Ventura, será uma sensação agridoce. No curto prazo, para Ventura é uma ferramenta de arremesso poderosa contra Luís Montenegro. Ventura, que fala de Passos quase com a mesma reverência mística com que fala de Sá Carneiro, vai martelar incessantemente o Governo com este raciocínio, que partilha com Passos: há uma maioria de direita no País e esta maioria deve estar junta numa solução de governo, para garantir estabilidade governativa.
Luís Montenegro não o quis, sendo fiel à sua versão mais simplista do “Não é não!” (que depois vai sendo diluída aqui e ali). É mais uma arma para desgastar o Governo, sobretudo sabendo que esta pressão de Passos é necessariamente um tema sensível (basta olhar para o elenco governativo e ver quantos quadros já estiveram com Passos lá atrás).
Até pode ajudar o Chega a fazer parte de uma solução governativa, mas em última análise não é isso que André Ventura quer. Toda a gente sabe que Ventura é impaciente e só se satisfaz com uma coisa, mandar no País.
Mas se isto é recebido com agrado no curto prazo, no médio e no longo prazo é um pesadelo para Ventura. O regresso de Passos, em quaisquer circunstâncias, é uma má notícia para o Chega e sobretudo para o seu líder. Por um lado, um PSD liderado por Passos tenderá a erodir a base eleitoral do Chega.
Por outro, até pode ajudar o Chega a fazer parte de uma solução governativa, mas em última análise não é isso que André Ventura quer. Toda a gente sabe que Ventura é impaciente e só se satisfaz com uma coisa, mandar no País. Tudo o que suceder no caminho é um degrau, um meio, para atingir esse fim. E Ventura sabe que, com Passos à frente do PSD, dificilmente tem margem para continuar a fazer crescer a votação do seu partido.
A entrevista de Passos Coelho é uma excelente notícia para Ventura, no curto prazo, e uma grande dor de cabeça se esse regresso um dia se concretizar, ainda que pareça uma oportunidade.
Quanto ao PS, é curiosa a pouquíssima atenção que é dedicada por Passos. Quando fala dos socialistas, é sempre numa ótica de passado, dos erros da governação de António Costa. Sobretudo, nunca fala do PS como uma possível parte da solução para o tal ímpeto transformador que, no entender de Passos, o País precisa.
No capítulo presidencial, Marcelo é alvo de críticas razoavelmente subtis e Seguro é razoavelmente ignorado, como se o entrevistado não esperasse dali nada de relevante. Então, o que fica desta tão direta entrevista? Afinal, o que quer Passos Coelho?
Eu tendo a “comprar” a versão de que não há um plano maquiavélico desenhado para correr com Luís Montenegro e tomar as rédeas do País. O que há é um desejo de alimentar o sempre exigente bichinho da política e uma grande insatisfação em ver que o País, no seu entender, continua a perder tempo e a não fazer o que tem de ser feito e que, considera o entrevistado, ele seria capaz de fazer.
Passos vai acenando algum esboço de humildade mas tem uma personalidade messiânica, algo que cresceu com a sua passagem pelo poder nas circunstâncias marcantes na altura e que foi crescendo com os anos de silêncio, sobretudo por obra daqueles que ficaram “órfãos” com a sua ausência da cena política.
Uma coisa é certa, Passos saiu definitivamente do armário, vai andar por aí e está disposto a ser incómodo para quem quer que seja.
Se isto vai ter alguma concretização prática, não sabemos. Existe à direita o mito de que o País suspira pelo regresso sebastiânico de Passos Coelho, da mesma forma que à esquerda reina o mito de que o País odeia Passos Coelho e nunca permitirá o seu regresso ao poder. Há certamente exagero e demasiado simplismo em qualquer uma destas visões.
Mas acho que é útil contarmos, na nossa vida pública, com uma voz experiente, com autoridade e exigência sobre os poderes públicos.
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