América Latina

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 1 Junho 2017

Ficou claro que a frente atlântica sul-americana optou por estratégias económicas mais isolacionistas, fruto da protecção à própria indústria, da dimensão do mercado ou de graves crises.

Durante muito tempo, os países da América Latina, com as naturais excepções do Brasil e da Venezuela, foram praticamente ignorados pelos portugueses. Antes do 25 de Abril, a política externa nacional assentava, sobretudo, na questão colonial e no alinhamento crítico com os Estados Unidos. Com a democratização, os diferentes governos centraram a sua acção em três eixos: integração europeia, cooperação transatlântica e reinvenção da relação com as antigas colónias. A União Europeia, a NATO e a CPLP acabam por ser o expoente institucional destas prioridades. A América Latina, pela distância, pelo menor grau de desenvolvimento e pela enorme influência que Espanha mantém na região nunca foi, assim, uma prioridade.

A globalização e a integração da região nas grandes rotas comerciais tornou evidente que a proximidade linguística e cultural do espaço latino-americano não tem um correspondente político e económico. Por um lado, o grande projecto de integração regional, o Mercosul, nunca conseguiu alcançar os propósitos inicialmente estabelecidos, como ficou visível com a sua instrumentalização política em função dos alinhamentos ideológicos de cada momento. Por outro lado, novos modelos regionais emergiram, deixando a nu a coexistência de diferentes paradigmas económicos e comerciais.

Nos últimos anos, ficou claro que a frente atlântica sul-americana optou por estratégias económicas mais isolacionistas, fruto da protecção à própria indústria e da dimensão do mercado (Brasil) ou de graves crises económica e políticas (Argentina); e que a frente pacífica seguiu uma via de maior abertura comercial, materializada na Aliança do Pacífico e nos acordos de livre-comércio que países como o Chile, a Colômbia, o Peru e até o Equador mantêm com a União Europeia. Não é, assim, de estranhar que esta abertura tenha impulsionado uma mudança na forma como os portugueses olham para a região. A Colômbia, por exemplo, é hoje um país que conta com importantes investimentos de empresas portuguesas e, juntamente com o Peru e com o Chile, transformou-se num mercado muito interessante para as exportações nacionais, sobretudo num momento em que clientes tradicionais como o Brasil e Angola passam por grandes dificuldades.

Com a chegada de Mauricio Macri à presidência, a Argentina também começou a fazer um esforço para reverter o seu posicionamento económico e comercial e para voltar a inserir-se nos mercados internacionais, abrindo a economia ao investimento estrangeiro e ao comércio exterior. Com uma dívida pública muito baixa (inferior a 30% do PIB), o governo lançou um arrojado plano de modernização de infraestruturas (superior a 100.000 milhões de dólares) que abrangerá vias de comunicação, produção de energia e tecnologias de informação. Buenos Aires regressou às rotas do investimento, tendo sido organizadas várias iniciativas com a participação de governos estrangeiros e multinacionais.

O caos em que o Brasil se encontra produziu um vazio de poder regional. Evidentemente, um país com a sua dimensão humana, geográfica e económica não pode ser nem será ignorado. No entanto, o capital desbaratado pelo gigante sul-americano poderá abrir espaço para uma partilha de protagonismo e de liderança na região. Caso os resultados económicos comecem a surgir e as eleições legislativas de Outubro sejam favoráveis a Macri, as comparações entre o Brasil e a Argentina, pela primeira vez em muitos anos, poderão ser favoráveis aos argentinos.

Nota: Por decisão pessoal, o autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Professor na UAL e ISCTE

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