Desta vez, Montenegro foi responsável

A democracia não se perde num domingo, perde-se na preguiça de repetir as mesmas fórmulas para arregimentar as bases através do medo.

Sobre os resultados das eleições do passado domingo já muita tinta correu. Os verdadeiros vencedores são óbvios e os derrotados são por demais evidentes. Porém, uma segunda volta aproxima-se e vejo o espaço mediático quase em uníssono, contribuindo para a moralização ou sacralização da eleição. Se há algo que aprendemos durante os últimos seis anos com Ventura é que, para ele, essa estratégia é ouro e voltar a cair na esparrela é quase sinal de demência coletiva.

A posição paupérrima em que Montenegro e o PSD se colocaram é da sua única e inteira responsabilidade. Nem Marques Mendes era inevitável, nem o Primeiro-Ministro e o Governo se tinham de envolver tanto nesta campanha. Depois de o fazerem, a extrapolação política é justa e natural. Não basta a Montenegro dizer que tudo se mantém na mesma, porque não se mantém.

Não digo que o Primeiro-Ministro tenha assinado a sua sentença, mas, no mínimo, deu um passo em falso. Passo esse que não é de fácil recuperação. Nas últimas legislativas, Montenegro teve sensivelmente dois milhões de votos. Nesta segunda volta, André Ventura sabe que pode ultrapassar essa marca, proclamando-se o líder da direita e ganhando margem para tentar provocar a queda do Governo. Nesta segunda volta joga-se a primeira volta das próximas legislativas.

Neste sentido, muitos se têm insurgido contra o não apoio a Seguro por parte de Montenegro ou Cotrim de Figueiredo. Em primeiro lugar, acusá-los de terem um compromisso democrático duvidoso ou de apoiarem indiretamente Ventura é, no mínimo, de alguma desonestidade política. Em segundo lugar, querer que o Primeiro-Ministro e líder do maior partido no parlamento apoiasse Seguro sem pesar as consequências políticas só pode assentar em três pressupostos: ou é uma forma de irresponsabilidade, ou é fruto de uma agenda político-partidária, ou assenta na crença infundada de que isso teria algum peso eleitoral.

Depois do erro cometido, Montenegro não tinha outra hipótese. Apoiar Seguro seria oferecer a Ventura a liderança da direita. Os sinais de alerta são evidentes e a vitória de Ventura em alguns concelhos de Trás-os-Montes e na Madeira é profundamente sintomática. O eleitorado laranja pode votar em Ventura, aliás, algum já votou. Ter todos os partidos à esquerda do Chega a apoiar Seguro e ver Ventura com 35% ou 40% dos votos seria não só humilhante, como significaria que Ventura teria arrecadado esses votos contra o Governo. A posição do Primeiro-Ministro é, por isso, responsável. Isso não invalida que todos saibamos onde as elites do PSD e da IL vão votar, tendo até alguns barões ou dirigentes já declarado apoios explícitos.

O meu voto será também tranquilo, confortável e inequivocamente para António José Seguro. Reconheço-lhe integridade, independência e um forte institucionalismo. Se vai conseguir lidar com os desafios de um sistema político estilhaçado, tenho mais dúvidas, mas estou certo de que, dentro das alternativas disponíveis, é o melhor candidato.

Creio que, para Seguro, a eleição está ganha, mas os desafios estão aí e não será um passeio no parque. Nestas semanas, vai ter mesmo de afastar o PS de si, enquanto convence todos os seus eleitores de dia 18 a voltarem a ir votar em si. Contando voltar a este tema ainda antes de 8 de fevereiro, se cair no erro da narrativa maniqueísta e demagógica dos democratas contra o perigo para as liberdades vai pagar caro a fatura.

A democracia não se perde num domingo, perde-se na preguiça de repetir as mesmas fórmulas para arregimentar as bases através do medo. Transformar esta eleição numa batalha de santos contra pecadores, de virtuosos contra degenerados, está, na prática, a escrever o guião do adversário.

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