Dignidade a dez cêntimos

O sistema “Volta” é a mercearia do bairro que não existe para orgulho de uma economia verde e para vergonha de uma economia de rosto humano.

Parece que o país inventou um novo sistema europeu de recolha de garrafas de plástico. Se não é novo serve pelo menos para afirmar a modernidade do país na vanguarda de uma Europa em velocidade acelerada para a transição verde. Portugal falhou todas as grandes transições industriais na Europa nos últimos três séculos.

Na transição verde, o país quer recolher plásticos e gerar electricidade com o mesmo Sol que cativa os turistas e castiga os nativos. O prazer do Sol e o desprazer do Sol são um indicador do desenvolvimento económico pois estabelecem a noção de “pobreza energética” – Os “pobres energéticos” não têm recursos económicos para manter as habitações com temperaturas civilizadas.

As casas em Portugal são estufas urbanas onde vegetam portugueses. Daqui terá surgido a ideia de uma “agricultura intensiva” em modo de estufa para produção de frutos tropicais e importação de mão-de-obra a condizer. A mão-de-obra a condizer é o exército de imigrantes que dominam os campos deste país. A imigração continua a infectar o debate político com posições moralistas, humanistas, patrióticas, mas com o sinistro esplendor de quem não faz a mínima ideia como resolver o problema.

Enquanto o país político delibera nos seus preconceitos ideológicos, o turismo do qual depende a economia portuguesa prospera em ambiente climatizado com fortes sinais de “riqueza energética”.

O sistema de recolha de garrafas de plástico não é uma iniciativa ecológica e verde ao serviço das próximas gerações. Convém esclarecer os portugueses que o país não cumpre uma directiva europeia que obriga os estados-membros a reciclar embalagens de plástico. Em função deste desleixo colectivo e institucional, Portugal paga 200 milhões de euros por ano para o orçamento da Europa. O português vai pagar mais dez cêntimos por embalagem cheia e receber dez cêntimos por embalagem vazia devolvida ao sistema “Volta”.

Logo o grande incentivo para esta campanha reside na compensação económica que o país tem de pagar a Bruxelas para manter a cidade e o campo sujos e poluídos. É extraordinário um país pagar para ser sujo. Não existe pois qualquer orgulho nacional ou vanguarda tecnológica que esteja na origem do novo sistema. Com o défice sempre a espreitar em todos os excedentes acidentais, a dignidade internacional do país é reconhecida pela capacidade de recolher lixo nas ruas, lixo que foge sistematicamente aos contentores europeus de reciclagem coloridos e meticulosamente germânicos. A eficiência germânica não convence o sul da Europa e muito menos os portugueses que não são dados a exercícios de valor acrescentado nulo, civicamente civilizados, politicamente correctos.

O sistema “Volta” tem no entanto um efeito não intencional que nenhum político jamais poderia imaginar. No primeiro contacto com um ponto de recolha numa superfície comercial em plena Baixa lisboeta foi possível observar um fenómeno fantástico. Não se via um único cidadão português no exercício cívico e moderno de reciclar. A fila para a máquina estava no interior do supermercado e prolongava-se para fora da loja debaixo de uma agressiva supervisão de dois seguranças. Dois seguranças negros e de envergadura física considerável. A fila indisciplinada e nervosa era composta por cidadãos sem-abrigo, imigrantes de vários origens e denominações, todos com sacos pretos de grande volume a transbordar com embalagens de plástico. Junto à máquina uma funcionária controlava o acesso e tentava pôr ordem numa situação absurdamente indigna e quase caótica. Os imigrantes limpam o lixo da cidade por dez cêntimos a peça.

Cada ponto de recolha do sistema “Volta” pode ser utilizado como uma extensão dos Serviços Sociais. Os dez cêntimos a peça são um subsídio social de inserção completamente não contributivo, acidentalmente informal, absurdamente revelador de uma sociedade pobre e miserável que insiste em ignorar a pobreza e a miséria seja em regime contributivo seja em regime não contributivo. O debate sobre a PSU passou subitamente em pano de fundo sobretudo quando a funcionária em desespero de causa proclamou alto e bom som – “Mas vocês julgam que isto é o Rendimento Mínimo?”

O sistema “Volta” é a última linha dos excluídos na margem do desespero. Os pobres em Portugal já venderam cartão ao quilo. Os pobres em Portugal já vasculharam nos caixotes do lixo à procura de garrafas para ir à mercearia recolher o vasilhame. O sistema “Volta” é a mercearia do bairro que não existe para orgulho de uma economia verde e para vergonha de uma economia de rosto humano.

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