O PSD parece que governa o país em nome da direita para preencher apenas um intervalo entre governações à esquerda.

De tanto se falar da direita em Portugal, a direita em Portugal só pode estar em crise. E de facto a crise existe, embora uma crise algo esotérica e exótica. Subitamente o sucesso da direita não é um sintoma de superioridade política face ao esgotamento da esquerda. A superioridade eleitoral da direita parece servir apenas para uma espécie de processo destrutivo público em frente ao espelho. Os olhos da direita olham em frente e observam um potencial eleitoral dividido, fragmentado, apontando em muitas direcções, mas não na direcção do país. O país é o acessório com que a direita se distrai daquilo que é a sua real crise de identidade.

O país olha os partidos da direita e lembra-se dos conflitos que surgem nas partilhas de uma herança – Todos os herdeiros se sentem donos do património e todos acabam numa disputa judicial que se arrasta por anos sem acordo nem sentença. Extraordinário é que ninguém conhece verdadeiramente qual o património ideológico desta direita desvairada para além de uma vontade incontornável de governar. A julgar por esta falta de maturidade política e inteligência estratégica, a direita é mais um fenómeno à superfície da política do que uma solução para os problemas profundos do país. Numa análise mais fina pode afirmar-se que a direita não acredita na sua legitimidade e que está surpreendida com o sucesso. A direita em Portugal sofre da síndrome do impostor.

Fala-se de um novo partido à direita com uma sigla que completa as iniciais de um antigo Primeiro-Ministro: Partido Popular Conservador. Estes jogos de palavras são tão encantadores quanto politicamente a face mais fútil de um culto da personalidade. O antigo Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho lança palavras violentas contra um qualquer inimigo imaginário. Essas palavras entram na circulação do comentário e transformam a apresentação de um livro num acto de proclamação política. É o mito de uma direita premium contra a fraude de uma direita sfot. André Ventura observa o discurso sentado no lugar do morto e exulta em gestos de contentamento e veneração. A direita premium observa naquela primeira fila no lançamento de um livro as figuras do Primeiro-Ministro e do Vice-Primeiro-Ministro de que o país verdadeiramente necessita. À margem de todos os ruídos anárquicos que tanto perturbam a governação de Montenegro, o que o país não necessita é de uma direita distribuída em fascículos semanais para preencher o vazio em que a direita portuguesa mergulha.

Pode concluir-se que não há uma direita em Portugal porque existem várias direitas em Portugal. A conclusão é tão óbvia e tão banal que nem devia ter de ser escrita. Existe uma maioria sociológica à direita que se divide por muitas famílias e visões políticas que se dizem de direita. Os portugueses não votam num partido de direita. Os portugueses votam em vários partidos à direita.

Na ausência de uma maioria absoluta é da responsabilidade dos partidos mais votados encontrar uma plataforma de estabilidade para o Governo do país. Só que em Portugal não existe uma cultura política de negociação e de coligação. Logo a situação actual em que o país vive – Um Governo minoritário de direita que se considera ao “centro”, mas que pretende federar o PS hoje e o Chega amanhã. Neste cruzamento descruzado adicione-se as “cercas sanitárias” e as “linhas vermelhas” e só podemos ter uma direita que não se reconhece e uma direita que só se enraivece. Restam os maneirismos de um país parado.

A direita do PSD é tímida, imóvel, calculista. Nas eleições internas, o líder do partido e Primeiro-Ministro de Portugal foi eleito em sufrágio nacional, em lista única, com 95% dos votos expressos e com uma abstenção de 73%. Um partido que não se mobiliza, que não debate, que não discute, que não entra em ebulição com soluções para o país, não consegue acelerar o país. Dirão os resignados que o partido está no Governo. Certamente que o PSD está no Governo, só que governa Portugal ao ritmo do debate interno que é nenhum. O PSD parece que governa o país em nome da direita para preencher apenas um intervalo entre governações à esquerda.

É este “nem, nem” disfarçado de rigor e prudência que provoca a agitação e a inquietação que gera a crise das direitas em Portugal. O medo de acordarem um dia com um Governo de esquerda e com a revolta de terem perdido a oportunidade política de uma geração.

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Direita no divã

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