Ilusão de Proteção

  • Nuno Oliveira Matos
  • 27 Setembro 2026

Nuno Oliveira Matos alerta para o infrasseguro. Pensarmos que estamos financeiramente protegidos de um mundo mais hostil e afinal não estamos. À atenção de Estados, empresas e famílias.

Vivemos numa era de uma extraordinária ilusão coletiva.

Nunca tivemos acesso a tantos dados, tanta capacidade de cálculo, tantos instrumentos de previsão e tanta tecnologia para compreender o futuro. E, no entanto, o mundo nunca esteve tão vulnerável aos riscos que diz compreender.

O mundo está perigosamente infrassegurado. Mas talvez “infrassegurado” nem seja a expressão correta. Afinal, quem não tem qualquer proteção sabe que não está exposto.

O verdadeiro problema reside nos milhões de pessoas, empresas e até governos que acreditam estarem protegidos quando, na realidade, estão apenas a descobrir formas mais sofisticadas de ignorar o risco.

Conseguimos prever a trajetória de tempestades com uma precisão sem precedentes, mas continuamos a reconstruir nas mesmas zonas vulneráveis.

Conhecemos o impacto do envelhecimento demográfico há décadas, mas continuamos a adiar as decisões necessárias.

Dispomos de tecnologia capaz de identificar ameaças emergentes em tempo real, mas persistimos em preparar-nos para o mundo de ontem.

Talvez o desafio não seja a falta de informação. Talvez seja o excesso de confiança.

As chamadas “tempestades centenárias” estão a tornar-se cada vez mais frequentes. As alterações climáticas deixaram de ser uma hipótese científica para se transformarem numa realidade económica. O risco climático já não é uma preocupação para as gerações futuras. Está inscrito nos balanços das empresas, nos orçamentos dos Estados e no património das famílias. E, ainda assim, continuamos a comportar-nos como se os acontecimentos extremos fossem exceções.

Quando uma inundação destrói milhares de habitações, quando um incêndio paralisa regiões inteiras ou quando uma tempestade provoca perdas de milhares de milhões de euros, o problema raramente é apenas a catástrofe. O problema é descobrirmos que uma parte significativa dessas perdas nunca esteve protegida.

Durante demasiado tempo, encarou-se o seguro como uma despesa. Uma opção. Um produto financeiro entre muitos outros. Mas num mundo de riscos crescentes, o seguro não é um custo. É infraestrutura económica.

Sem proteção adequada, cada desastre natural transforma-se numa crise financeira. Cada perda não segurada transforma-se em dívida, redução de investimento e destruição de riqueza.

O custo não desaparece. Apenas muda de mãos. Passa do segurado para o contribuinte. Passa do setor privado para o orçamento do Estado. Passa da prevenção para a gestão da crise.

A pergunta mais importante não é quanto custam os sinistros. É quanto custa não estar preparado para eles.

Mas existe uma ameaça ainda mais silenciosa.

Ao contrário das catástrofes naturais, que ocupam as manchetes durante dias ou semanas, o infrasseguro no ramo Vida desenvolve-se lentamente, quase sem fazer ruído. Como todas as crises verdadeiramente sistémicas, cresce durante décadas antes de se tornar evidente.

Portugal enfrenta um défice de rendimento na reforma próximo dos 40%. Em termos simples, milhões de pessoas poderão descobrir que a reforma que idealizaram e a reforma que efetivamente terão são duas realidades completamente diferentes.

Esta é uma das maiores contradições das sociedades modernas. Nunca vivemos tanto tempo. Nunca fomos tão saudáveis em idades avançadas. Mas nunca o financiamento dessa longevidade foi tão incerto.

Durante décadas, construímos sistemas assentes na promessa de trabalhar hoje para viver com segurança amanhã. A questão é saber se o amanhã conseguirá cumprir a promessa feita ontem.

O desconforto desta discussão explica por que motivo ela é tantas vezes evitada. As alterações climáticas preocupam-nos. A inteligência artificial preocupa-nos. A geopolítica preocupa-nos.

Mas poucas pessoas gostam de confrontar a possibilidade de não terem recursos suficientes para financiar os últimos trinta anos das suas vidas.

Contudo, ignorar o problema não o resolve. Apenas o torna mais caro.

É aqui que o papel da indústria seguradora pode sofrer a maior transformação da sua história.

Durante décadas, o setor especializou-se em avaliar riscos, atribuir-lhes um preço e indemnizar perdas. Essa função continuará a ser essencial. Mas já não será suficiente.

O seguro do futuro terá de fazer muito mais do que reparar danos. Terá de ajudar a evitá-los.

Terá de usar inteligência artificial, análise avançada de dados e novas fontes de informação para antecipar eventos antes de estes ocorrerem. Terá de chegar a populações que continuam excluídas dos mecanismos de proteção tradicionais. Terá de transformar proteção financeira numa ferramenta de inclusão económica.

Porque o verdadeiro teste não será a capacidade de vender mais produtos. Será a capacidade de tornar mais pessoas resilientes.

Ao longo da história, as economias mais prósperas nunca foram aquelas que eliminaram o risco. Foram aquelas que aprenderam a geri-lo melhor do que as outras.

O seguro sempre foi, na sua essência, um instrumento de confiança. Permite investir, empreender, inovar e construir riqueza porque cria uma rede de segurança quando tudo corre mal.

Por isso, o infrasseguro não é apenas um problema do setor segurador. É um problema de competitividade económica. É um problema de estabilidade social. É um problema de prosperidade coletiva. E, em Portugal, talvez seja também um problema cultural e de iliteracia.

Talvez tenhamos começado a acreditar que o progresso nos tornaria imunes às consequências do risco. Que a tecnologia substituiria a prudência. Que os governos resolveriam inevitavelmente as falhas de preparação. Que os acontecimentos extremos aconteceriam sempre a alguém, mas nunca a nós. A história raramente recompensa esse tipo de confiança.

A verdadeira questão não é se os riscos vão aumentar. Já aumentaram. A verdadeira questão é se teremos a coragem de reconhecer que muitas das proteções em que confiamos foram desenhadas para um mundo que já não existe.

Porque o maior perigo para as sociedades modernas não é a próxima inundação, o próximo incêndio ou a próxima disrupção tecnológica.

O maior perigo é descobrirmos, demasiado tarde, que aquilo que considerávamos segurança era apenas uma confortável ficção. E que o maior risco de todos não era a falta de proteção, mas a convicção errada de que estávamos protegidos.

  • Nuno Oliveira Matos
  • Founder & Managing Director, Fortior Advisory

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