O país escolhe um Presidente da República normal com a maior votação de sempre registada numa eleição democrática.

Começa um novo ciclo político. E a cada ciclo político o país sonha encontrar a paz social, a prosperidade infinita, a democracia perfeita. A solenidade da posse é uma espécie de écran que tenta representar uma dignidade que a política não tem. O novo Presidente da República é a prova de que um cidadão comum também pode ambicionar ao lugar do mais alto Magistrado da Nação. É a ilusão democrática no alto do seu mais deslumbrante esplendor. O político retirado que se confundiu com o cidadão anónimo acaba com um percurso politicamente excepcional que o leva a Belém contra todas as sondagens, previsões, expectativas.

O Presidente da República é produto do impulso nacional, é consequência de um somatório de más escolhas, é a imagem de uma esperança desesperada onde já não existia ninguém. O Presidente da República acidental inicia assim uma nova etapa na vida de um país sem grande rumo, sem maior direcção, sem vislumbre de uma qualquer visão para além do imediato da política quotidiana. Com Seguro em Belém o país tem a garantia de que o olhar do Presidente é o olhar do português normal.

O novo ciclo político é iniciado sem homens de excepção. A ideia do político providencial é substituída pela realidade do político normal em circunstâncias excepcionais. Belém não será lugar de programas políticos alternativos nem de conspirações sofisticadas nem de oposições grandiosas. Nada de verdadeiramente inspirador inspira a figura do Presidente da República. A ideia da figura messiânica que vem redimir o país morreu no nevoeiro da normalidade democrática. O que fica da política é a comum evolução da estabilidade mais a veneração da juventude mais a coesão social mais a visão de um país em paridade territorial. É a grandeza das pequenas coisas.

O país já conheceu um Presidente da normalização democrática. O país já viveu a figura maior de um Presidente monarca. O país já viveu sob a influência de um Presidente que se afirmava como um homem bom. O país já elegeu um Presidente que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas. O país já escolheu um Presidente dos afectos que despenteou a Constituição. A sequência democrática dos Presidentes da República é o registo experimental de um país aos esses entre a autoridade e a liberdade. A sequência democrática dos Presidentes da República é a marca da identidade de um país indeciso entre o paternalismo e o individualismo. A grande novidade do Presidente Seguro é o país a optar pelo pacifismo previsível.

O novo Presidente da República e o actual Primeiro-Ministro são dois históricos do pacifismo previsível. A coabitação entre o pacifismo político e a previsibilidade institucional tanto podem ser a solução para o progresso como podem implodir no deserto da estagnação. Não existindo uma visão de país nem em Belém nem em São Bento, toda e qualquer cooperação estratégica serve apenas para manutenção de um establishment marcado pelos bloqueios de sempre e pela continuidade das incapacidades seculares que afligem o país eternamente adiado. Significativo é o facto de que o Presidente da República e o Primeiro-Ministro iniciarem o novo ciclo político com um propósito político comum – Garantir que nos próximos três anos o país não terá eleições. Os portugueses agradecem a felicidade nas tardes de domingo.

Mas o país político não está receptivo a discursos acomodados e a declarações de catequese. A política feita em paralelo ao infinito é um risco de geometria variável porque evita a realidade da política nacional. O país está dividido, o país respira uma desesperança e uma insegurança que incendeiam as perspectivas de uma direita populista cujo programa político se resume em duas palavras – instabilidade e caos. Três anos sem eleições para a direita populista são um cenário impensável e politicamente impossível. No PSD o nervosismo é visível nos movimentos dos Passos em volta. O PS perdeu o poder e anda à procura de uma função. O Parlamento não produz legislação, não debate a nação e está transformado num local de reputação política duvidosa e que coloca em risco a reputação da República. O Governo é a exibição de um musical sem música – Gestos de uma dança ao som de uma banda sonora que funciona no espectro da audição canina. A degradação do regime não é matéria jurídica, é matéria política de facto.

O país escolhe um Presidente da República normal com a maior votação de sempre registada numa eleição democrática. Os portugueses votaram não no Presidente da República, mas na ideia de um “Santo Subito!”. Um acto democrático que é um acto de fé. Agora que temos um Presidente-Santo, Portugal é a República da Esperança.

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O Presidente-Santo

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