As duas CGTP e um Presidente que faz outsourcing da opinião
Se à partida a reforma laboral já não era muito ambiciosa ou transformadora, entraremos no Verão com a proposta completamente desfigurada e impotente
O sindicalismo está em estado comatoso, não há como fugir. Hoje, as duas grandes centrais sindicais são pouco representativas e, no setor privado, a taxa de sindicalização, em 2022, já não ia além dos 7%. Os incentivos dos sindicatos são claros: defender os seus associados, logo, os trabalhadores tendencialmente mais velhos. Assim, promove-se um sistema rígido que lhes dê vantagem, para que os sindicatos possam beneficiar dessas rendas. No fim, pagam a fava os mais jovens, com taxas de desemprego absurdas, e aqueles que permanecem no escape do sistema, ou seja, sujeitos à precariedade dos contratos a curto prazo.
Se da CGTP já todos sabemos o que esperar, o que temos visto da UGT é desolador. Da CGTP já conhecemos a cega obediência aos interesses do Comité Central, o seu reacionarismo, a sua total incapacidade de acordar ou ceder posições. O mais triste dos últimos meses é mesmo constatar que a UGT segue pelo mesmo caminho.
Nos últimos meses, os incentivos da UGT foram nítidos: quis começar pela greve. Aliás, quis ser mais papista que o Papa e propôs o segundo dia de greve geral. Nas negociações, tem-se mostrado irredutível nas exigências e na sua plataforma reivindicativa. Na votação no Secretariado Nacional, mostrou, no mínimo, má-fé ao votar uma proposta desatualizada. E, para finalizar, como astutamente apontou nestes dias Anselmo Crespo, algumas das inegociáveis linhas vermelhas já foram aprovadas no passado pela UGT. Acho que isto nos diz tudo o que precisávamos de saber.
A cada ronda negocial que passa, torna-se mais evidente que a UGT quer impedir qualquer mudança. É justo perguntarmos: quem lhe deu esse poder? O Presidente Seguro. A partir do momento em que sinaliza que não promulgará a lei sem a Concertação Social, está, na prática, a passar um cheque em branco aos dirigentes da UGT. Sem a sua aprovação, a maioria política que os portugueses espelharam no Parlamento vale zero. E, pior, com isto, escusa-se de formar uma convicção. Temos um presidente que faz outsourcing da opinião.
Um país com uma maioria política expressiva continua refém dos desvarios das centrais sindicais. A cada ano que passa, a demografia trata de garantir que perdem sucessivamente poder nas ruas e capacidade de representação. Apesar disto, essa perda não tem equivalente no mediatismo, nem no poder negocial. Os equilíbrios perderam-se há muito.
Se é evidente que o PS não se mexerá sem a aprovação da UGT, devemos perguntar se o Chega é, verdadeiramente, uma alternativa. Ventura tem mantido um discurso digno de Miss Mundo. Agora, está preocupado que uma das leis laborais mais rígidas do mundo seja “selvagem”. Sejamos sérios. Reformar tem custos políticos, porque implica a existência de vencedores e perdedores. O populismo, o sanchismo vertebral do Chega, nunca permitirá que tomem uma posição que possa custar-lhes votos. Os ziguezagues são constantes e os ideais e o longo prazo são sempre as últimas das preocupações.
Se à partida a reforma já não era muito ambiciosa ou transformadora, entraremos no Verão com a proposta completamente desfigurada e impotente. Entre o imobilismo das centrais sindicais, a desorientação do PS e o socialismo funcional do Chega, no fim, tudo fica como estava. Talvez até seja isso que o país quer. Contudo, se aquilo que está no cerne desta crónica se vier a repetir nos próximos anos, apenas mudando o tema, competirá a quem governa perguntar ao país – ‘Afinal, que rumo querem seguir?’.
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