O vencedor (provável) das presidenciais
A vitória de Seguro é sua, não é do PS, que se juntou tarde e a más horas ao candidato quando percebeu que tinha uma oportunidade para ter tempo para uma reconstrução com a ajuda de Belém.
A hecatombe, a humilhação, do PSD e do Governo na noite eleitoral das presidenciais é de tal ordem, e ainda com consequências por determinar, que a notícia foi o perdedor que não foi a votos, Luís Montenegro. Falou-se pouco do principal vencedor desta primeira volta, António José Seguro, sobretudo porque todas as probabilidades apontam para uma vitória do antigo secretário-geral do PS e, agora, transformado em candidato suprapartidário (e fora de “gavetas”, como o próprio repete à exaustão).
Em primeiro lugar, a vitória de António José Seguro é sua, não é do PS, que se juntou tarde e a más horas ao candidato quando percebeu que tinha uma oportunidade para ter tempo para uma reconstrução com a ajuda de Belém. Menos ainda daqueles ‘costistas’ que consideravam, ainda há poucas semanas, que Seguro não cumpria os “mínimos” para ser o candidato apoiado pelo PS. A primeira vitória de Seguro foi contra eles, e não era óbvia.
Qual é a primeira característica apontada a Seguro, condição que fará dele, para tantos eleitores à direita, uma escolha confortável para Belém? A decência e a honestidade. Não é a visão, a capacidade reformista, o poder da mobilização ou uma efetiva ambição de mudança. Diz muito do estado e da reputação dos políticos que temos hoje, como se essas condições morais não fossem elementares e primárias quando está em causa a votação no titular do mais importante cargo politico do Estado.
António José Seguro fez uma campanha genuína, não precisou de inventar uma personagem ou de desenhar uma qualquer estratégia à medida desta campanha. E isso é um mérito. Não inventou, não tentou ser aquilo que não é. Quando não assumia posições definitivas, quando arredondava respostas, quando insistia em pactos ou quando recusa entrar nos ataques pessoais, Seguro mostrou que mudou pouco ou nada relativamente ao que nos lembrávamos dele em 2014.
No bom e no mau, quando esteve disponível para fazer um acordo com Pedro Passos Coelho no IRC ou quando foi incapaz de dizer ‘não’ a Mário Soares e rejeitou a possibilidade de ter eleições antecipadas logo em 2014, depois do fim do programa da troika. Saiu, depois, como se sabe de forma inglória da liderança do PS, ‘expulso’ por António Costa.
António José Seguro beneficiou do deserto à sua esquerda e da fragmentação à sua direita. Aproveitou a oportunidade, e está agora no sítio certo no momento certo. Isso não faz de Seguro, por magia, o Presidente de que o país precisa, faz de Seguro a melhor alternativa disponível para os eleitores moderados.
A política é sempre uma escolha, e na esmagadora maioria dos casos, a da menos má num contexto concreto. O dos portugueses é agora, em fevereiro de 2026, entre Seguro e Ventura, para as presidenciais, não é para a liderança executiva do Governo. Não é uma crítica, é uma constatação, como se vê aliás pela sucessão de personalidades do PSD, IL e CDS que já assumiram votar em Seguro no dia 8 de fevereiro.
António José Seguro é um social-democrata, previsível, institucional, tem noção exata dos poderes presidenciais e não fomentará guerras político-partidárias a partir de Belém (e nem isso será necessário, Montenegro encarregou-se, ele próprio, de criar as condições para esse novo ciclo arrancar nos próximos meses).
Se for eleito, António José Seguro saberá ser um Presidente da República para uma mudança na continuidade, não vai travar nem mudar o curso da refundação do sistema político-partidário que se adivinha há anos, primeiro com a crise profunda do PS que estas eleições servem para disfarçar e agora com a evidente contaminação ao PSD por causa do taticismo de Montenegro quando escolheu Marques Mendes. Mas vai dar tempo… que dificilmente os partidos do sistema saberão aproveitar como deveriam, mas isso já não será da sua responsabilidade.
PS: O dramatismo a que se assistiu nas últimas 24 horas com a discussão sobre o regresso do fascismo com Ventura, outro dos vencedores da noite, chega a ser infantil, mas sobretudo contraproducente. Há muito por onde criticar Ventura nas políticas, na sua inconsistência e nas suas contradições, no socialismo encapotado numa agenda económica protecionista. Não é necessário cavar ainda mais a polarização do país, estigmatizando todos os que decidam, em liberdade, votar em Ventura ou, no dia 9, ainda vamos descobrir uma verdade inconveniente, a de que o país não saiu verdadeiramente do Estado Novo e do salazarismo. Seria a vitória cultural de Ventura, mesmo perdendo nas urnas.
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