Pacto Presidencial

No silêncio dos Presidentes ainda há espaço para mais candidatos? Claro que há espaço para mais candidatos na expansão infinita da democracia.

Passou a fase de um Presidente de todos os portugueses. Estamos no tempo de um Presidente para cada português. Está mais de acordo com a pulverização da política tradicional. E pulverização significa a diluição infinita do conteúdo político – Uma ideia e duas frases feitas e temos uma candidatura a Belém a circular pelo debate público. Mais ainda. Os candidatos funcionam numa lógica de fixação das votações dos partidos em legislativas.

A lógica desta atitude política é contra o espírito de um Presidente uno e indivisível, símbolo do Regime e projecção da República. Em certo sentido é como se o Presidente fosse escolhido por um directório partidário, mas apresentado aos portugueses como um candidato individual inspirado pelo impulso ético da República. Maior que a fantasia do teatro político é a hipocrisia da realidade política. O excesso de oferta diminui a função do Presidente transformada pela banalização das personalidades inflamadas que se julgam caudillos de Portugal.

Percorrem os candidatos os caminhos de Portugal com a mesma leveza com que enchem os estúdios de televisão com declarações, entrevistas, comentários, opiniões, impressões em directo e outras originalidades. Falam do país com pompa e circunstância com discursos em tom radiofónico dos anos 50 do século XX.

Apocalípticos ou integrados, os candidatos comportam-se como caricaturas de um Presidente que julgam existir no imaginário dos portugueses. E uma caricatura serve sempre para enfatizar as potencialidades de um género político desprovido de humor. Falam do país com a informalidade tecnocrática ou com o espírito partidário que transforma o pequeno país no enorme Portugal. ´

Depois, publicam livros para esclarecimento, entre a biografia e a reflexão, sobre o país natural que ignoram e o país ideal que imaginam. Os livros não são programas políticos nem reflexões políticas sobre o país que temos e o país que queremos. Os livros são ocasiões políticas, os livros são comícios de letras que ninguém vai ler, os livros são reuniões públicas de apoiantes com muitas ambições e com muito passado. Em política chama-se ao passado experiência. Alguns candidatos não têm passado nem experiência logo o foco voa para o futuro que surge politicamente como uma reinvenção do presente sem espírito e sem visão. O país tem um elenco de candidatos a um centro de emprego, mas não tem candidatos que observem os portugueses como uma comunidade de destino que se designa por Portugal. Este é o patriotismo cívico da República.

No país dos médicos tarefeiros, dos advogados oficiosos, dos professores funcionários, dos engenheiros burocratas, no país da proletarização das profissões liberais, os candidatos a Presidente da República escolhem ser funcionários de um partido e tarefeiros da República. A orquestra presidencial é um mergulho no marasmo e uma lição de lugares-comuns. Falta alma onde sobra cálculo. Falta a capacidade de personalizar o espírito da República na óptica do poder moderador do Presidente que convém sublinhar é o mais alto Magistrado da Nação. Estranho é que os candidatos falem como se fossem em simultâneo pretendentes a uma Junta de Freguesia e aspirantes a Secretário-Geral das Nações Unidas. Se Lisboa não é Hollywood, é a política entre o fim da rua e o fim do mundo. O país dos portugueses parece ser apenas uma estação intermédia entre a política local e a política global.

Os candidatos têm ainda a pose de uma superioridade moral que o país deve reconhecer e aceitar. Nada do que existe politicamente debaixo do céu é indiferente aos candidatos. No entusiasmo da figura do Presidente da República, os candidatos desfilam propostas e soluções que pertencem às competências políticas de um Primeiro-Ministro. Só que a realidade do discurso dos candidatos é inquestionável e oscila entre duas dimensões distintas, mas indistintas – A política proposicional e a política prescritiva. A política proposicional conhece o porquê das coisas políticas. A política prescritiva conhece o como das coisas políticas. Todos os candidatos parece que dominam o porquê das coisas e o como das coisas, numa concentração de talento político que só pode significar o solução definitiva para um novo país no limiar do espanto de uma Europa inteira de problemas.

No silêncio dos Presidentes ainda há espaço para mais candidatos? Claro que há espaço para mais candidatos na expansão infinita da democracia. Não há candidatos monárquicos, o que seria interessante. Não há candidatos católicos, o que seria expectante. No entanto há portugueses monárquicos e portugueses católicos. Alguma candidatura pensou nestes votos? Nota-se a ausência de um candidato entre o comediante e o actor. Um candidato sério para não levar a sério. Slogan da candidatura – “Se ganhar desisto!”.

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