Passos na estação Montenegro
Os portugueses confiam mais num homem com carisma político do que num partido inteiro sem pingo de carisma.
Passos Coelho é um enigma na política portuguesa. Fala em nome pessoal quando na realidade pretende representar uma parte fundamental do país – O Portugal do progresso reformista. Não funda um novo partido, não cria uma fundação, não inventa um movimento cívico. Passos permanece militante de base do PSD, sem cargos ou distinções, para além de um capital político próprio que lhe confere uma autoridade rara nos dias de hoje e uma atenção que apenas os estadistas recebem. Passos é uma espécie de Primeiro-Ministro virtual que ensombra o actual Primeiro-Ministro. É óbvio e evidente que o Primeiro-Ministro no poder se sente incomodado e pressionado pelo antigo Primeiro-Ministro fora do poder. A menorização de Montenegro é fruto da ascensão de um Passos Coelho que aos olhos de uma direita desiludida surge como a primeira e a última esperança para um novo projecto reformista.
Ao contrário do que pensa, o Primeiro-Ministro é prisioneiro dos seus silêncios e refém de uma estratégia de comunicação feita para uma campanha eleitoral e não para um governo constitucional. Montenegro é o símbolo da táctica política e a negação da estratégia política. A actual governação é leve e lenta, para além de ser uma obra política de fachada num país a precisar de uma reconstrução política estrutural. A cada sorriso do Primeiro-Ministro fica a dúvida se o líder do governo sorri ao futuro do país ou se sorri de um país bloqueado. O Primeiro-Ministro está enganado quando pensa que a simpatia de um sorriso quase cínico lhe confere alguma autoridade política. O Primeiro-Ministro está enganado quando pensa que a completa ausência de um discurso político fluido e articulado o aproxima dos portugueses. Montenegro parece pensar que o país é um comício do PSD e que os portugueses só entendem 80 palavras em tom paternalista. Montenegro parece um Primeiro-Ministro que ocupa o cargo, mas que não tem poder.
Como em política não existem vazios, Passos surge na vida política para ocupar exactamente o espaço reformista abandonado pelo governo e pela oposição. O líder do PS como candidato a Primeiro-Ministro é um desastre político embrulhado em moralismos discursivos. O líder do Chega é um sucesso político embrulhado na destruição discursiva. Se o PS é só a moral e o passado, o Chega é só a vulgaridade e o presente. O PS não tem projecto político para um país a 20 anos. O Chega não tem projecto político para um país a 20 dias. O que sobra para os portugueses que ainda se incomodam com o futuro deste lugar em forma de país? – Um Primeiro-Ministro politicamente indolente? Um líder do PS politicamente prudente? Um líder do Chega politicamente incontinente? Portugal é hoje a convergência política da indecisão do governo e do adiamento do PS, tudo devidamente iluminado pela hiperpotência dos projectores inflamados de um Chega que se julga o sol da nação. Este facto explica o domínio da agenda política por um deputado Ventura que se faz passar pelos amanhãs que cantam.
Neste cenário, Passos Coelho aparece como um referencial de seriedade, Passos surge sobretudo como a reserva da nação. Num país sem referências políticas, Passos é o único representante de uma linhagem de políticos que assumem uma responsabilidade pública para além dos interesses circunstanciais. Podem existir “prostitutos políticos”, podem existir “políticos de plástico”, podem existir “políticos com máscara”, mas Passos apresenta-se aos portugueses com a coragem e com a frontalidade que é a matriz da política que faz a diferença. O tempo do “simulacro das reformas” está a esgotar-se e começa a chegar o momento da verdade. Há medida que o tempo da troika regride na memória, o peso de Passos cresce na vida política portuguesa.
Se existe um projecto político alternativo ao establishment corrente, este não está a surgir no interior dos partidos nem das instituições. Neste sentido, o verdadeiro líder da oposição ao governo é o projecto político de Passos Coelho. A ironia consiste no facto de Passos ser a mais temida oposição ao PSD. É uma característica secular da política portuguesa, os portugueses confiam mais num homem com carisma político do que num partido inteiro sem pingo de carisma.
As reformas estão a ser pensadas, estudadas, discutidas, debatidas, para se transformarem em políticas públicas para o país que Portugal quer ser. Passos Coelho irá entregar o documento para mudar o país ao Primeiro-Ministro e ao Presidente da República. Alguém acredita que Passos Coelho será um espectador passivo e não executivo na concretização do Portugal do futuro? A política portuguesa que se prepare para novos tempos.
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