Portugal tem medo de mudar

Passos soube perceber quando tinha passado o seu tempo e, bem, sabe também que hoje é uma voz que precisamos de ouvir.

Reformas estruturais são aquele chavão que a direita chama para si e acusa a esquerda de recear. Na verdade, Costa enquanto Primeiro-Ministro fugiu delas como um gato foge da água e, por isso, hoje este lugar-comum tem ainda mais significado. A responsabilidade da direita tem de ser dar identidade a este estribilho, tem de ser mostrar o porquê de precisarmos de reformas e quais são as alterações estruturais ao modelo de funcionamento do país que tem a apresentar.

O país tem crescido, é verdade, mas à base de quê? Não sabemos sequer quanto do crescimento resulta apenas do aumento da força de trabalho. Quando me perguntam por que precisamos de reformas, há sempre tanto por onde pegar. O desemprego jovem é de quase 20%. A produtividade pouco convergiu nos últimos 30 anos. Em 2050, a taxa de substituição das pensões deverá ser de menos de 40%, segundo o Ageing Report. O sistema de saúde parece em rutura, na educação há falta de professores e os resultados PISA estão em queda e na justiça acumulam-se processos que não conseguimos julgar. Na habitação, fomos o país da UE onde os preços mais subiram desde 2020. Ao mesmo tempo, temos o sexto mais baixo poder de compra. Neste marasmo, incongruente é concluir que pode ficar tudo na mesma.

É evidente que politicamente não tem sido fácil. Não há maioria, ninguém quer eleições e é fácil chumbar as propostas mais disruptivas. Ainda assim, o governo diz que quer ser reformista. Já vimos a proposta de reforma laboral. Espera-se o mesmo na educação e na prometida reforma do Estado. Espero que não fique por aqui.

O país precisa, mas não podemos ser inconsequentes. Se há forças que insistem em contrariar este impulso, se o parlamento permanece intransponível, então o governo pode levar a sua vontade ao povo, procurando relegitimação. Passos Coelho tem razão. Compete ao governo criar estes projetos e convencer o país de que precisa deles para convergir e para alcançar o rendimento que ambicionamos. Se há entraves políticos a isso, só os portugueses os podem clarificar.

Passos tem lastro, conhece o país e os seus entraves estruturais. Se é certo que governou o país com uma maioria capaz de realizar parte das reformas de que precisamos, os tempos não foram de bonança nem de facilidade. Pelo desapego, pela responsabilidade, pelo amor à causa pública que sempre demonstrou devemos-lhe respeito político.

É neste sentido que toda a gente que aponta este caminho de mudança e de ambição tem de ser bem-vinda, porque todos são precisos. Por isto e por todas as outras considerações políticas possíveis a reação do PSD aos avisos do seu ex-líder é inqualificável e, em tudo, incompreensível. Devemos sempre ouvir as nossas reservas morais e políticas, percebendo, a cada momento, o que estão disponíveis a dar ao país. As exortações de Passos são importantes conselhos à governação, porque não deixa de ter razão quando diz que se voltar ‘não será pelas melhores razões’.

Estamos habituados a viver do sebastianismo que nos caracteriza. Passos soube perceber quando tinha passado o seu tempo e, bem, sabe também que hoje é uma voz que precisamos de ouvir. Esta lucidez que o tem caracterizado deve servir-nos de alerta: os desafios estão à nossa frente. Há sempre quem defenda que os ignoremos: a curto prazo é o melhor. Contudo, os líderes vão querer encará-los, defrontar a oposição e mostrar um caminho. Quem são os líderes, pouco importa; o país precisa que se cheguem à frente.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Portugal tem medo de mudar

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião