Produção e consumo dentro dos limites do planeta

  • Daniela Lima
  • 23 Dezembro 2025

As empresas ligadas aos setores que mais beneficiam do pico de atividade desta época têm margem de atuação significativa.

O final de ano – Blackfriday, Cybermonday, Natal – evidencia com particular clareza um traço incontornável dos modelos de negócio que prevalecem na nossa economia: a aposta na produção acelerada e no consumo intensivo, como mecanismos centrais de geração e aumento de receita. Expõe também uma enorme vulnerabilidade: a prioridade que se dá ao lucro imediato, que fragiliza os sistemas ambientais e sociais dos quais a própria atividade económica depende, comprometendo a resiliência económica a longo prazo. Este é um “custo oculto”, que, apesar de não ser contabilizado no fecho de contas do final de dezembro, terá na mesma de ser suportado, mais tarde ou mais cedo.

Para tornar a produção e o consumo verdadeiramente sustentáveis, de forma que estes possam funcionar dentro dos limites do planeta, temos de transitar para uma economia circular e regenerativa, isto é, uma economia que reduz a extração de recursos, mantém materiais em circulação pelo maior tempo possível e contribui ativamente para restaurar os ecossistemas que suportam a atividade humana e económica. Nesta transição, tanto as empresas como os consumidores têm um papel fundamental a desempenhar.

As empresas ligadas aos setores que mais beneficiam do pico de atividade desta época têm margem de atuação significativa.

No retalho, têm ganho tração modelos que prolongam a vida útil dos produtos, como programas de retoma, reparação, recondicionamento ou revenda de artigos devolvidos. Surgem também novas abordagens tais como plataformas de partilha, em que várias empresas disponibilizam produtos sob modelos de utilização temporária, por exemplo. Estes modelos reduzem custos operacionais, diminuem a pressão sobre matérias-primas escassas e oferecem novas propostas de valor ao cliente.

No setor dos brinquedos e eletrónica, algumas marcas começam já a conceber produtos modulares com componentes substituíveis e atualizáveis, evitando descartes totais e reduzindo a necessidade de produção adicional.

Na distribuição, investimento em embalagens reutilizáveis ou produzidas com materiais reciclados e recicláveis, bem como sistemas logísticos mais eficientes, estão a reduzir resíduos e a otimizar custos. A inovação tem, ainda, permitido soluções como embalagens concebidas para serem reparadas, recarregadas ou compostáveis em ciclos locais.

No segmento alimentar, a prevenção do desperdício e a integração de ingredientes provenientes de sistemas regenerativos demonstra que a sustentabilidade pode reforçar a eficiência e reduzir a exposição à volatilidade das matérias-primas.

Os consumidores desempenham um papel complementar e igualmente decisivo ao orientar a procura para as opções que valorizam o impacto positivo e a prevenção e mitigação dos impactos negativos.

Em primeiro lugar, exigindo transparência e acesso a informação sobre a origem dos produtos e processos produtivos, bem como sobre os compromissos empresariais ambientais, sociais e de governança, e progresso sobre os mesmos.

Para além disso, preferindo produtos locais e sazonais, quando possível, o que ajuda a reduzir a pegada ambiental associada, a reforçar economias regionais e a incentivar práticas produtivas alinhadas com os ciclos naturais.

Por fim, adotando comportamentos de consumo mais ponderados – compras planeadas, valorização do essencial, interesse por soluções de baixo consumo material (ex: experiências, serviços, etc.) – o que contribui para atenuar a pressão sobre sistemas que já evidenciam sinais de um possível colapso.

Embora exista um longo caminho a percorrer, esta mudança de paradigma está em curso e demonstra que é possível – e, aliás essencial! – alinhar a competitividade e o crescimento económico com os limites planetários. Quando empresas e consumidores convergem para escolhas que preservam recursos, prolongam o valor dos materiais e devolvem capacidade aos ecossistemas, a atividade económica deixa de caminhar à margem dos limites do planeta e começa a integrar esses limites como condição de continuidade. Essa mudança permite-nos imaginar uma realidade próxima onde a prosperidade já não depende da velocidade a que consumimos, mas sim da capacidade dos sistemas naturais e sociais para sustentar a atividade económica e humana para a nossa geração e para as futuras.

  • Daniela Lima
  • Gestora de Conhecimento e Formação do BCSD Portugal

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