Quando a economia se transforma em ideologia
O verdadeiro debate económico do século XXI não é entre crescer ou não crescer. É escolher entre não crescer (utopia), entre crescimento estúpido (populista) e o crescimento inteligente.
O debate económico contemporâneo parece cada vez mais aprisionado entre dois extremos ideológicos igualmente redutores. De um lado, o decrescimento, promovido por autores como Kohei Sato, que identifica no crescimento económico a origem estrutural da crise ambiental, das desigualdades e da instabilidade social. Do outro, uma visão rudimentar de crescimento a qualquer custo, hoje bem espelhada no trumpismo económico: Mais petróleo, menos vento; mais tarifas, menos comércio; mais dívida pública, menos regras; mais intervenção discricionária, menos liberdade económica. Apesar de se apresentarem como opostos, ambos partilham o mesmo erro de base: transformam o crescimento numa questão ideológica e ignoram a complexidade funcional das economias modernas.
A proposta do decrescimento parte de um diagnóstico parcialmente correto. Os modelos produtivos intensivos em carbono, energia barata e exploração extensiva de recursos naturais não são sustentáveis no longo prazo. No entanto, Sato dá um salto conceptual injustificado ao concluir que a solução passa por abandonar o crescimento enquanto objetivo político e económico. Ao fazê-lo, transforma um instrumento, o crescimento económico, num inimigo moral, como se fosse possível manter coesão social, financiar serviços públicos e realizar a transição climática numa economia que escolhe deliberadamente produzir menos riqueza.
Esta visão ignora uma evidência empírica central: São as economias mais ricas, mais produtivas e institucionalmente sólidas que dispõem de maior capacidade para investir em inovação verde, tecnologia limpa, eficiência energética e adaptação climática. O decrescimento não elimina conflitos distributivos; amplifica-os. Redistribuir abundância é politicamente difícil. Redistribuir escassez é socialmente explosivo.
No extremo oposto do espectro ideológico, Donald Trump representa uma visão igualmente simplista, mas invertida, do crescimento económico. Aqui, crescer significa extrair mais, regular de forma desestruturada e sem base económica, proteger setores tradicionais e subordinar instituições independentes à lógica política de curto prazo. O crescimento deixa de ser o resultado de produtividade, inovação e confiança institucional para se tornar um slogan eleitoral. “Drill, baby, drill” pode gerar atividade imediata, mas destrói valor no longo prazo, agrava riscos ambientais, penaliza consumidores via inflação e menos capacidade de escolha e, não menos relevante, enfraquece a credibilidade macroeconómica.
O recurso sistemático a tarifas, o ataque à independência dos bancos centrais, a pressão política sobre as taxas de juro do crédito e a interferência no mercado imobiliário são exemplos claros de crescimento forçado, não sustentado. O resultado é conhecido, mais dívida pública, mais incerteza regulatória, menor investimento privado e menor crescimento potencial. A promessa de prosperidade rápida acaba invariavelmente em menor liberdade económica e maior fragilidade estrutural.
Ambas as visões falham no essencial porque confundem crescimento com quantidade e ignoram a sua qualidade. O decrescimento assume que é possível reduzir produção e consumo sem afetar investimento, emprego e receitas públicas. O trumpismo económico acredita que é possível impor crescimento ignorando preços, restrições orçamentais e equilíbrios institucionais. Um promete virtude através da austeridade permanente; o outro promete prosperidade através do voluntarismo político. Ambos acabam por produzir economias mais frágeis e sociedades mais divididas.
É neste ponto que a Europa, e Portugal em particular, enfrentam uma escolha estratégica decisiva. Economias abertas, envelhecidas, com Estados sociais exigentes e forte dependência do comércio externo não podem dar-se ao luxo nem da estagnação moralizada do decrescimento, nem do protecionismo ruidoso e intervencionista. Para Portugal, sem escala, sem autonomia monetária e com necessidades estruturais de investimento, abdicar do crescimento seria um erro histórico; persegui-lo cegamente, outro. A única via racional é a do crescimento inteligente: mais produtividade, mais inovação, mais investimento privado, preços que incorporem custos ambientais e instituições que garantam previsibilidade, concorrência e liberdade económica.
Logo, o verdadeiro debate económico do século XXI não é entre crescer ou não crescer. É escolher entre não crescer (utopia), entre crescimento estúpido (populista) e o crescimento inteligente. O decrescimento erra por abdicar do crescimento enquanto condição para financiar a transição ambiental e a coesão social. O trumpismo económico erra por o instrumentalizar politicamente, corroendo instituições, mercados e confiança. A Europa tem ainda a oportunidade, talvez única, de liderar um terceiro modelo: apostar num crescimento sustentável, aberto, tecnologicamente avançado e institucionalmente sólido. Um modelo capaz de gerar riqueza no longo prazo, financiar a transição climática e preservar a liberdade económica. Não é um caminho fácil. Mas é o único que oferece prosperidade duradoura para todos.
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