Restaurar a natureza é restaurar o nosso equilíbrio
Nunca falámos tanto sobre natureza e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão desligados dela.
Nos últimos 25 anos, as questões ambientais deixaram de ser um tema de nicho, associado a elites académicas, ambientalistas ou círculos políticos restritos. Tornaram-se parte do quotidiano, da economia, dos discursos políticos, da saúde pública e da segurança coletiva. A sustentabilidade democratizou-se. Hoje, praticamente todas as pessoas reconhecem palavras como alterações climáticas, crise da biodiversidade ou transição energética. Mas esta consciência crescente traz uma contradição inquietante: nunca falámos tanto sobre natureza e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão desligados dela.
Portugal acompanhou esta transformação. Houve avanços importantes: mais energias renováveis, melhor gestão da água, maior proteção de áreas naturais e uma crescente integração das preocupações ambientais nas políticas públicas e nas empresas. Mas houve também uma mudança silenciosa e profunda no modo como vivemos. Tornámo-nos um país mais urbano, mais digital, mais acelerado. Passamos mais tempo diante de ecrãs do que em contacto com rios, florestas, solos ou mar. A natureza deixou de ser experiência vivida para passar a ser cenário, conceito ou conteúdo.
E talvez este seja o maior desafio dos próximos 25 anos.
O ser humano é a única espécie capaz de alterar o planeta à escala global, e simultaneamente a única capaz de compreender as consequências da sua destruição. Temos um poder sem precedentes, mas usamos esse poder para degradar precisamente os sistemas naturais que nos mantém vivos, equilibrados e mentalmente saudáveis. Estamos a romper a ligação com aquilo que nos sustenta.
As alterações climáticas são apenas o sintoma mais visível de uma crise mais profunda: uma crise de relação e de responsabilidade emocional com a Natureza. Com o território. Com os ritmos naturais. Com os limites ecológicos. E até connosco próprios.
É aqui que o restauro ecológico ganha um significado. Restaurar rios, florestas, oceanos ou solos não é apenas proteger espécies. É reconstruir equilíbrio. É devolver resiliência às paisagens e às comunidades. É recuperar a capacidade da natureza regular água, clima, alimento e bem-estar humano. É evolução enquanto espécie. Enquanto indivíduos, comunidades e sociedade.
O horizonte de 2050 exige mais do que neutralidade carbónica ou crescimento verde. Exige regeneração. Exige restauro. Exige reconexão emocional com a Natureza. Exige ação em prol da sua defesa. Precisamos de restaurar ecossistemas degradados, mas também a nossa relação emocional, cultural e ética com a natureza.
Porque nenhuma tecnologia substituirá os serviços invisíveis que os ecossistemas oferecem diariamente. Nenhuma inteligência artificial produzirá água limpa, solos férteis ou oceanos vivos. Nada substituirá a simplicidade, a autenticidade da Natureza e nada nos equilibrará tanto como esta conexão ao mundo natural.
Os próximos 25 anos decidirão se continuaremos a aprofundar esta desconexão ou se teremos coragem de restaurar a nossa ligação à natureza, de restaurar aquilo que nos mantém humanos, porque a verdadeira fronteira do século XXI já não é tecnológica, é ecológica.
Nota: Esta é uma coluna sobre os últimos e os próximos 25 anos da sustentabilidade, no âmbito do 25.º aniversário do BCSD Portugal e que pretende trazer conteúdos ligados a esta temática por personalidades de reconhecida influência empresarial ou académica.
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