Um comparador sem comparação

O comparador de comissões do Banco de Portugal tornou-se uma realidade. Mas rapidamente passou de uma mais-valia para um "mais-valia terem perdido um pouquinho mais de tempo a fazê-lo".

O Banco de Portugal tem sido incansável, nos últimos tempos, na sua missão de trazer o mundo financeiro para o dia-a-dia dos portugueses. Para evitar que sejam cometidos erros como os do passado, é ver o regulador a tentar munir os consumidores de ferramentas para tomarem decisões esclarecidas sobre as suas finanças.

É de louvar o esforço. Praticamente não há semana em que Carlos Costa não coloque online, seja na sua página oficial, seja nas redes sociais (é preciso chegar a todos os públicos, sendo os mais jovens uma clara prioridade), explicadores de tudo e mais alguma coisa. Desde as simples contas aos depósitos aos créditos.

Saber como funcionam os vários produtos da banca é de vital importância. Mas quase tão importante é saber quanto é que cada um desses produtos custa ao final do dia. Foi por isso com agrado que — depois de tanta antecipação — recebemos o comparador de comissões bancárias.

Era a ferramenta que faltava para que os portugueses pudessem com apenas alguns cliques perceber quantos cêntimos, euros ou dezenas e até centenas de euros se gasta com comissões que, atualmente, apanham quase todas as operações bancárias — salvam-se as que se realizam nas máquinas automáticas, por enquanto.

A ferramenta tornou-se realidade, mas rapidamente passou de uma mais-valia para um “mais-valia terem perdido um pouquinho mais de tempo a fazê-la”. Os bancos ainda quiseram adiar o lançamento, não para evitar falhas mas para protelarem a exposição dos elevados custos cobrados em algumas operações. Se não concordo com eles nessa parte — é preciso expor todos estes euros que misteriosamente desaparecem das contas dos portugueses –, concordo que até teria, potencialmente, permitido evitar que algo que poderia e deveria ser simples venha apenas baralhar as contas de quem utiliza esta ferramenta.

Para começar, o Banco de Portugal poderia ter antecipado que a procura pelo comparador seria imensa. Parece o site das Finanças quando abre a época de entrega da declaração de IRS. Vai tudo ao mesmo tempo. Resultado? Não se mexe. No caso do comparador, foram minutos e minutos a ver uma “rodinha” a pensar. Fosse em que browser fosse. “Crashar” não “crashou”, mas só com muita paciência se consegue passar efetivamente à comparação. E há muitas para se fazer. São 93 comissões em análise, mais precisamente.

Superado o primeiro obstáculo, vêm todos os outros. Desde um layout que não permite selecionar comissões, até às comissões em si… As mais básicas, como as associadas às contas, por exemplo, até se conseguem obter de forma relativamente simples. Mas e se quiser saber qual o banco que tem a “conta pacote” mais em conta? E o cartão de crédito mais barato? Aí é preciso puxar do manual.

Seja nas “contas pacote” ou nos cartões de crédito, fora outras comissões, o resultado não é qual o mais barato. É o custo do produto que cada banco mais comercializa. Ora, chegamos ao ridículo de ter a “conta pacote” de dezenas de euros por ano ao lado de outras que chegam às centenas, com a grande diferença de que o que oferecem está mundos à parte. Nos cartões de crédito, um Light chega a aparecer ao lado de um Gold.

Quem foi o génio que achou que este tipo de comparação serve para o que quer que seja? Quem assumiu que um qualquer cliente bancário, dos muito poucos que trocam de banco, consegue obter neste comparador uma resposta simples para contas que nem sempre são fáceis de fazer?

Se há algo que este comparador tinha a obrigação de fazer era a de ser claro na resposta à simples pergunta: “onde é que gasto menos para ter os serviços bancários que preciso?” Não era assim tão complicado, diria. Mas parece que é.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Um comparador sem comparação

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião