Uma primeira volta de segunda linha

Um dos resultados desta corrida de segundas linhas e segundas intenções é a volatilidade que as sondagens mostram, com os eleitores pouco convencidos pelos fracos candidatos e focados no mal menor.

Chegados ao dia final da campanha para a primeira volta das eleições presidenciais persistem muitas (e grandes) dúvidas – quem vai ganhar, quem vai passar em segundo lugar, como isso vai afetar o resultado final e, consequentemente, como o próximo ocupante do Palácio de Belém poderá impactar a estabilidade política, económica e social nos próximos cinco anos. Mas também há algumas certezas. Uma delas é que o excesso de quantidade não compensou o défice de qualidade, longe disso, até. Houve um número recorde de candidaturas, 11 foram aceites pelo Tribunal Constitucional, mas isso não trouxe necessariamente excelência no espetro das escolhas que temos disponíveis este domingo e depois a 8 de fevereiro.

Entre as principais candidaturas, muitas são de segunda linha. Surgiram porque outras mais desejadas nesse campo político não se concretizaram. Outras apareceram para aproveitamento político pragmático, sem pretensões realistas de vitória, mas a visar ganhos políticos na expansão do eleitorado ou na mera sobrevivência ao emitir um sinal de vida. Uma apareceu ainda como suposta alternativa ao sistema, trazendo um outsider para fazer de forma independente o que os outros não conseguem ou não querem.

Mas nenhuma conseguiu realmente passar a mensagem que queria. As máquinas de propaganda foram pouco eficazes, principalmente porque estavam a tentar passar mensagens com pouca substância e acabaram por salientar inconsistências e fraquezas. Vamos olhar para algumas. Henrique Gouveia e Melo, o outsider de que falava, era há menos de um ano dado por muitos como vencedor à partida – à primeira volta – e mesmo antes de ter anunciado a candidatura. Embalado pelo sucesso da vacinação contra a Covid-19, foi apresentado como um líder ‘não-político’, com “seriedade e competência”. No entanto, à medida que se foi mostrando ao eleitorado, o almirante foi descendo nas sondagens. À parte da óbvia limitação na capacidade comunicacional, ficou claro que o atributo da competência se limitava à área militar e também que salientar o não ser um político para tentar chegar a um cargo que é por natureza político não é necessariamente uma boa estratégia.

O principal sucesso de Gouveia e Melo na campanha foi o dano que conseguiu fazer à de Luís Marques Mendes. O ex-líder social democrata esteve durante anos a preparar a candidatura, tentando seguir o trilho marcado por Marcelo Rebelo de Sousa: de líder do PSD para comentador televisivo para Presidente da República. Não era o candidato consensual no partido – havia sempre a sombra de Pedro Passos Coelho, qual Dom Sebastião laranja – mas acabou por ser o escolhido, com larga expectativa de chegar à segunda volta. O problema é que no caminho profissional que escolheu nos últimos anos estavam outros passos mais polémicos. A campanha tentava vender “o valor da experiência” de Marques Mendes, mas o candidato geriu mal as respostas e deixou os adversários apontar que a experiência recente estava mais na advocacia de negócios do que na política ativa, permitindo acumular muito dinheiro a ajudar corporações.

No outro lado do ‘bloco central’, a corrida de António José Seguro foi centrada num trocadilho com o apelido, mas durante muito tempo faltou segurança à candidatura. Durante largos meses pairou no ar a ideia de Seguro não conseguir assegurar o apoio do PS, ou pelo menos de uma grande fatia do partido que liderou durante mais de três anos, mesmo depois de outros ‘desejados’ como António Vitorino se terem afastado de cena. Só quando começou a ficar claro que Seguro pode ter fortes probabilidades de chegar à segunda volta (e à vitória final) é que os socialistas começaram a emprestar o aparelho e alguns, como Pedro Nuno Santos, saíram da ‘toca’ para mostrar apoio. Pouco inspirador, Seguro terá a seu favor a imagem ‘limpa’ e de ser um contraponto ao atual Governo e à ameaça do Chega.

Da área liberal surgiu a campanha com a maior polémica. O impacto da denúncia de assédio sexual é difícil de calcular, mas tenderá a ser negativo, pois independentemente de quem tenha ou não razão, a suspeita nunca vai ser esclarecida antes da hora de os eleitores irem às urnas. João Cotrim de Figueiredo não se ajudou a si próprio, no entanto, com uma espécie de meltdown em direto nas televisões, a culpar a comunicação social por insistir no caso. Mas o momentum da campanha já tinha sido quebrado por outro fator, um erro de palmatória do candidato ao não afastar um eventual apoio a André Ventura na segunda volta. Nos momentos-chave faltou calma e rins políticos a Cotrim de Figueiredo, atributos que são bastante necessários em Belém.

André Ventura fez o que costuma fazer. Gritou contra o Bangladesh nos cartazes, contra os adversários nos debates, usando como bandeiras a luta contra a corrupção e a imigração para segurar o seu eleitorado e conseguir, muito provavelmente, chegar à segunda volta. Isso por si só já seria uma vitória para o líder do Chega, com um primeiro lugar a representar a cereja em cima do bolo eleitoral. Ventura nunca o admitiu, nem admitirá até 8 de fevereiro, mas o objetivo nunca foi de chegar à presidência. Primeiro, porque seria (será?) muito difícil ganhar uma segunda volta, independentemente de qual for o adversário. Segundo, e mais importante, porque o plano de Ventura não é esse, é de chegar à chefia do Governo, usando o púlpito oferecido pelas presidenciais para esse propósito.

Na esquerda radical, as candidaturas foram de sobrevivência. Após sucessivos desaires eleitorais, PCP e Bloco de Esquerda não podiam deixar de apresentar candidatos, senão corriam o risco de acentuar o deslizar para o esquecimento. Apresentaram candidatos experientes e sérios, embora com mensagens bastante vazias (o banal ‘Contigo’ do principal cartaz de Catarina Martins é ilustrativo) e focadas no ataque ao voto útil em Seguro. Esse voto útil acabou por ser motivo de confusão na fase final da campanha do Livre, com o miscast candidato Jorge Pinto a dizer uma coisa e o seu contrário na mesma tarde.

A campanha – e a pré-campanha com cerca de 30 debates – foram elucidativas apenas no sentido em que salientaram as fraquezas dos candidatos. Deixaram também claro que vários confundiram o cargo para o qual estão a concorrer, misturando responsabilidades executivas e presidenciais. Um dos resultados desta corrida de segundas linhas e segundas intenções é a indefinição e a volatilidade que as sondagens expressam, com os eleitores pouco convencidos pelos candidatos e a focarem-se na questão do mal menor.

Outro é que a segunda volta vai ser muito complexa em termos de gestão de apoios, especialmente se o candidato apoiado pelos partidos do Governo, PSD e CDS, não passar da primeira. Mas sobre isso falaremos depois de domingo.

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