O país que tem de optar entre o candidato Seguro que leva a pátria a peito e o candidato Ventura transformado em santo capaz de salvar a pátria.

A segunda volta das presidenciais está transformada no confronto entre a resignação e a revolução. A resignação relativamente a uma certa continuidade democrática e a revolução pela afirmação de uma ruptura democrática. A questão absolutamente evidente é que a República entra numa nova e desconhecida fase política em que os velhos hábitos de meio século atingem o prazo de validade. Nada poderá ser feito pelos equilíbrios e procedimentos automáticos instalados na velha República. Nada terá o mesmo grau de previsibilidade porque a política mudou e porque os portugueses mudaram. A metamorfose da República ganhou a primeira volta das presidenciais.

Mais ainda. A segunda volta das presidenciais está transformada no choque ideológico entre a virtude e o vício. A virtude de Seguro e o vício de Ventura. O discurso político instalado reflecte uma dimensão moral muito para além da política. A moralização da República introduz no debate a dicotomia entre a natureza estática do Regime e a realidade dinâmica do voto na afirmação de um novo país em consolidação. Ventura é o retrato de um Portugal que perdeu a memória e o medo de votar na direita radical na miragem de um futuro alternativo. Seguro é o retrato de um Portugal que perdeu o desejo e a ambição de votar na solução de um futuro alternativo. Os portugueses não conseguem decidir via presidenciais entre a ilusão e a revelação de um futuro realista para o país. Esta indecisão secular dos portugueses explica a persistência de um Portugal adiado. A primeira volta das presidenciais escolhe dois candidatos que representam dois sentidos contrários para a nação moderna – O país das ilusões e o país das indecisões. Eis as duas faces opostas do país adiado.

Na circulação do voto para a segunda volta pesa um conjunto de argumentos políticos de circunstância. A evocação do “povo de esquerda” e a referência ao “ povo de direita” são duas categorias que colidem com a real sociologia da nação. O “povo de esquerda” evoca uma espécie de frentismo de oportunidade para salvar a democracia. O “povo de direita” reflecte uma visão anacrónica de um país homogéneo e puro. No Portugal contemporâneo a esquerda é meramente residual para poder ser considerada como categoria decisiva. No Portugal contemporâneo a direita está transformada num arquipélago de sensibilidades que disputam identidades políticas antagónicas.

O que está a verificar-se é uma circulação dos votos entre os dois grandes blocos que deixaram de orientar as opções políticas. A segunda volta das presidenciais não é um confronto entre esquerda e direita em plena normalidade democrática, mas o choque entre a confiança e o medo.

Há ainda um efeito político extravagante que se projecta no debate entre as opções à segunda volta presidencial. Primeiro existe uma certa radicalização do voto moderado e uma certa moderação do voto radical. Seguro representa um grande centro que fala a linguagem de um novo centro radical. Ventura representa uma grande margem que fala a linguagem de uma nova centralidade política – O espaço não-socialista. O espaço não-socialista é um nada que pode ser tudo. O espaço socialista é uma opção demagógica de circunstância.

Aqui surge talvez o grande dilema da direita. O silêncio do primeiro-ministro enquanto player político na segunda volta das presidenciais tem um efeito de contágio em toda a arquitectura política e partidária. A não-opção do Governo representa a inexistência de um partido que se apresente como elemento de referência e de equilíbrio no grande sistema dos partidos políticos em convulsão. Tal significa que a direita pode ter os votos, mas a direita não tem um líder. A ausência de um líder à direita abre o espaço pela disputa de uma liderança capaz de unir o novo espaço não-socialista. No silêncio do primeiro-ministro está a voz de Ventura. No calculismo do primeiro-ministro está a ambição de Ventura. Em política não existem silêncios perfeitos nem calculismos sem custos.

A segunda volta das presidenciais é uma eleição à procura de um país. O país que tem de optar entre o candidato Seguro que leva a pátria a peito e o candidato Ventura transformado em santo capaz de salvar a pátria. Os portugueses estão cansados de ser salvos. A política portuguesa está viciada em heróis e outros homens providenciais. O equívoco das presidenciais é querer eleger um Presidente-Herói.

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Ventura sem Seguro

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