World Trade Trump

Quando a economia se confunde com a política pura e a política se subordina à economia pura, o mundo acaba por viver numa guerra económica perpétua.

O mundo está devolvido ao prazer de odiar. É uma constante da política e da natureza humana – O inconfundível prazer que o domínio e a humilhação do outro causam nas mentes primárias e nos intelectos mais elevados. Quando Trump recebe o prémio Nobel da paz que não lhe foi atribuído, tal gesto diminui a simbologia do prémio e funciona como uma humilhação do real destinatário. Quando Trump anuncia a expansão territorial da América através da anexação da Gronelândia, tal declaração desafia toda a construção de uma ordem internacional que projecta a humilhação de uma nação aliada e cooperante. E se algum país soberano não concordar com a soberania universal da América então dispara-se a arma das tarifas aduaneiras transformadas numa espécie de míssil de cruzeiro económico. Há qualquer coisa que aproxima estas declarações políticas da lógica das expedições punitivas para efeitos de pacificação da ordem internacional. É a nova versão da Pax Americana.

O ódio em política não é um atributo particular à direita ou à esquerda. O ódio é uma parte constitutiva da política – Maquilhado com a hipocrisia, disfarçado com a justiça, impulsionado com a cultura. O ódio é um dispositivo político que provoca um profundo sentido de identidade e uma ideia de destino manifesto. O ódio é uma emoção política que se liberta do medo, da inveja, do preconceito, do desejo puro de poder. O ódio permite unir comunidades inteiras contra um inimigo comum. O mesmo ódio que faz da política um exercício irracional associado a decisões destrutivas que podem ameaçar a harmonia social de uma comunidade e armadilhar qualquer sentido de realização pessoal. O ódio consolida as divisões e fortifica as fronteiras. O estado actual do mundo passa pela consolidação das divisões e pela fortificação das fronteiras. Fronteiras políticas e económicas. Contra uma versão lírica do Direito Internacional, o ódio é a mais eficaz máquina do medo.

Quando se observa e se lê o sentido do tempo político destaca-se uma atmosfera metálica que incomoda o presente e que anuncia dificuldades para o futuro próximo. O ar do tempo político está saturado de medo, de um medo transformado em arma política por excelência. Nunca nos últimos 75 anos se respirou este ar turvo e vermelho que marca a Europa e o mundo com o anúncio de um novo futuro incerto e não a continuidade de um futuro razoável. Quando a política está tomada pelo regresso dos homens providenciais que estão acima da política e da democracia, o lugar da esperança tem de ser reinventado com a imaginação dos tempos de crise e com o talento político próprio dos tempos de incerteza absoluta.

A Europa e o mundo estão infectados pelo regresso da política hegemónica centrada no populismo, no proteccionismo, no nacionalismo. A política está a ser tomada por uma versão autocrática da “masculinidade tóxica” que orienta a acção política no sentido da competição, na direcção da pureza étnica, na lógica da agressão. A violência deixa de ser apenas simbólica inscrita no discurso político, mas transporta a promessa da violência física transformada em espectáctulo da superioridade política. Os tempos não são tempos normais que estejam em linha com declarações de princípio em divergência com as dificuldades oblíquas que esperam a Europa e o mundo.

Se as autocracias inspiram as democracias, a economia está transformada numa arma ao serviço da hegemonia política. A ideia comum de que o comércio aproxima as nações e evita as guerras é um pensamento obsoleto. A economia associa-se à cultura como factor identitário e factor de supremacia política. A nova “geoeconomia” é a subversão de uma economia liberal no centro de uma política multilateral. A nova “geoeconomia” está a criar uma nova realidade transaccional baseada no unilateralismo de uma lógica imperial e na definição de esferas de influência.

Quando a economia se confunde com a política pura e a política se subordina à economia pura, o mundo acaba por viver numa guerra económica perpétua e numa versão da política como extensão belicista dos interesses económicos mais imediatos. Em nome da grandeza da nação dominante, a economia é um factor de agressão, a política é uma sequência de argumentos que levam à agressão permanente e a desordem mundial é a ordenação da supremacia do mais forte. O novo confronto da “geoeconomia” não é um colapso silencioso, mas a afirmação ruidosa de uma guerra de valores incompatíveis. Os mares do mundo são percorridos por uma nova classe de navios – Transportam mísseis instalados no espaço livre dos contentores.

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