Debaixo de críticas, Bruxelas chumba mega fusão ferroviária da Siemens e Alstom

A Comissão Europeia travou a fusão dos negócios ferroviários da Siemens e Alstom. As empresas "não se mostraram dispostas a resolver" dúvidas concorrenciais que pairavam sobre o negócio.

A Comissão Europeia decidiu chumbar a fusão dos negócios ferroviários da Siemens e da Alstom, que iria criar um gigante da ferrovia ao nível europeu. Depois de ter aberto uma investigação aprofundada à proposta, Bruxelas considerou que o negócio levantava dúvidas do ponto de vista concorrencial. O veto foi confirmado esta quarta-feira em comunicado.

“Milhões de passageiros em toda a Europa confiam todos os dias em comboios modernos e seguros. A Siemens e a Alstom são líderes na indústria ferroviária. Sem remédios suficientes, esta fusão teria resultado na subida dos preços dos sistemas de sinalização que mantêm os passageiros seguros e da próxima geração de comboios de alta velocidade”, considerou a comissária da Concorrência, Margrethe Vestager, citada na mesma nota. Vestager justificou, assim, que Bruxelas “proibiu a fusão porque as empresas não se mostraram dispostas a resolver” as “sérias” preocupações concorrenciais que pairavam sobre o negócio.

A fusão das duas maiores empresas de comboios do mundo daria origem à Siemens Alstom, uma mega empresa do setor ferroviário, que arrancaria com um volume de negócios estimado superior a 15,3 mil milhões de euros. A decisão de travar a operação surge mesmo depois de as duas companhias terem feito concessões para mitigar os receios das autoridades europeias, como noticiou o ECO no final de janeiro.

Em conferência de imprensa, Vestager reconheceu que ambas as empresas se mostraram dispostas a “desinvestir” em alguns ativos para viabilizar a fusão. No entanto, a comissária considerou que os conjuntos de remédios propostos pelas duas empresas foram “insuficientes”. “Cabe às empresas decidirem ou não proporem remédios que viabilizem as propostas”, argumentou a comissária.

Uma decisão histórica (e criticada)

O chumbo à fusão dos negócios ferroviários da Siemens e da Alstom é considerado histórico, pois deverá ditar as bases da resposta europeia à emergente concorrência chinesa em setores críticos, como é o caso das infraestruturas. É também alvo de duras críticas.

O argumento na base do negócio era ter uma solução europeia ao nível da concorrência chinesa no setor ferroviário, mais concretamente da gigante estatal chinesa CRRC Corp. Mas Margrethe Vestager não se deixou convencer, considerando que a entrada da China no setor ferroviário europeu não está assim tão iminente. Questionada sobre se houve resistência ao chumbo no seio da Comissão, Vestager disse apenas que “as decisões foram tomadas por consenso, como sempre”.

A posição da Comissão Europeia tem sido muito criticada em França e Alemanha, onde estão as sedes das duas empresas e onde o negócio reunia apoio das autoridades ao mais alto nível. Ora, nas últimas semanas têm-se escutado acusações de que Bruxelas está a impedir o surgimento de empresas fortes na União Europeia.

Em entrevista ao jornal francês Le Figaro, Henri Poupart-Lafarge teceu duras críticas à equipa liderada por Jean-Claude Juncker: “É provável que a Comissão, os seus serviços, proponham banir a operação. Essa decisão, que o colégio de comissários poderá reverter, não resulta da aplicação de regras concorrenciais, nem mesmo das mais apertadas. É ditada pela ideologia”, atirou o presidente executivo da Alstom.

Esta terça-feira, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão, respondeu às críticas, recordando que, em 30 anos, foram aprovadas mais de 6.000 fusões e rejeitadas menos de três dezenas delas. “Esta é uma mensagem para aqueles que estão a dizer que a Comissão é composta por tecnocratas cegos, estúpidos e teimosos”, disse, citado pela Bloomberg (acesso condicionado).

Um dia, dois chumbos

Igualmente esta quarta-feira, a Comissão Europeia chumbou a compra da gigante do cobre Aurubis pela metalúrgica alemã Wieland-Werke. Assim, os chumbos de Bruxelas caem duplamente mal junto das autoridades alemãs.

Segundo a Reuters, as regras europeias de fusões e aquisições poderão vir a ser alteradas na sequência dos dois vetos desta quarta-feira. Isto porque os chumbos deverão dar novos argumentos e um novo fôlego aos críticos da política mais apertada da Comissão Europeia, que tem a última palavra a dar em negócios desta envergadura. O mandato atual de Jean-Claude Juncker termina no final de 2019.

(Notícia atualizada pela última vez às 11h43)

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