Carros, produtos petrolíferos e bens alimentares são as estrelas da indústria. Fábrica 2030 discute o futuro

Os serviços dominam, mas a indústria continua a "dar cartas", ajudando a economia. Há estrelas que brilham cá dentro, mas também estão em destaque lá fora, do automóvel aos bens alimentares.

Todos os dias, mais de 1,2 milhões de pessoas vão trabalhar na indústria portuguesa, da produção de bens alimentares à criação de sapatos, passando pela produção de automóveis e pela eletricidade. A indústria é a segunda que mais emprego gera em Portugal — mantendo-se a tradicional liderança do setor dos serviços. Brilha no volume de negócios, dando um contributo expressivo para o crescimento da riqueza do país. E tem muitas estrelas que se destacam cá dentro, mas também lá fora.

A indústria transformadora nacional contabilizou 85,6 mil milhões de euros em vendas de produtos e prestação de serviços, de acordo com a versão mais recente do relatório “Estatísticas da Produção Industrial”, em 2017. Apresentou um aumento de 9,3% (em termos nominais) face ao ano anterior. Para esse salto, contribuiu sobretudo o fabrico de veículos automóveis (cujas vendas subiram 18,9% em termos homólogos para 7,7 mil milhões de euros), com o arranque da produção do T-Roc em Palmela.

A produção de produtos petrolíferos refinados (cujas vendas cresceram 19,8%) e de produtos químicos (vendas engordaram 14,5%) também deram um forte contributo para o crescimento da indústria. Ainda assim, as indústrias alimentares lideraram as receitas, com 11 mil milhões de euros arrecadados com a venda de produtos e serviços, mesmo tendo aumentado apenas de 4,6%.

O automóvel continua a crescer em relevância no volume de negócios da indústria, com o aumento da produção de veículos no mercado nacional, dando um forte contributo para o avolumar do Valor Acrescentado Bruto (VAB), a diferença entre o valor da produção o da venda. Se no final de 2017 o VAB total da indústria era de 7,88 mil milhões de euros (16% do VAB global), passou para 8,07 mil milhões no fim de 2018. E no final do primeiro semestre ascendia a quase 8,2 mil milhões de euros, com os serviços a manterem-se na dianteira: 33.7 mil milhões.

O crescimento do setor secundário no total das atividades económicas, bem como o seu contributo crescente para a riqueza nacional, vão estar em discussão, esta quinta-feira, na conferência Fábrica 2030, que assinala os aniversários do ECO e da Fundação Serralves. Mas também será palco de discussões sobre o peso do investimento estrangeiro versus o nacional, e também o papel do Estado. Isto tudo sem esquecer a evolução (ou revolução) que a robotização, machine learning e inteligência artificial vão provocar no setor.

Afinal, o que se produz e compra cá dentro?

Os bens produzidos em Portugal e vendidos por terras lusitanas valeram 42,7 mil milhões de euros, em 2017, mais 11% do que em 2016. Tal como se registou na globalidade das vendas, a produção de veículos automóveis foi uma das principais responsáveis por essa evolução tão positiva, já que as vendas no mercado português de viaturas produzidas em território nacional cresceram 66% para quase 1,6 mil milhões de euros.

Também o fabrico de produtos petrolíferos (cujas vendas no mercado nacional subiram 15,7% para cinco mil milhões de euros) e a produção de equipamento informáticos (cujas vendas no mercado nacional subiram 39,9% para 1,3 mil milhões de euros) brilharam.

Mas a estrela voltou a ser a indústria alimentar, tendo conquistado o maior volume de vendas de produtos no mercado nacional: 8,8 mil milhões de euros, valor que representa um salto de 4,2% em relação a 2016 e 20,6% das vendas da indústria conseguidas em território nacional.

Evolução menos otimista, teve o fabrico de produtos farmacêuticos de base e de preparações farmacêuticas (cujas vendas nacionais estagnaram) e a produção de pasta de papel (cujas vendas nacionais subiram somente 0,2%. De notar, contudo, que essa última área industrial é a quarta a apresentar o maior volume de vendas por terras lusitanas: 2,8 mil milhões de euros.

Entre a indústria alimentar e o fabrico de pasta de papel, estão os produtos petrolíferos refinados, com 5 mil milhões de euros em produtos vendidos, bem como a eletricidade, gás, vapor, água quente e fria e ar fria, com 4,16 mil milhões de euros. Esta área de negócios produz quase exclusivamente para o mercado nacional, isto é, não faz qualquer tipo de troca com agentes fora do bloco comunitário e, mesmo dentro da União Europeia, as vendas são pouco significativas face ao volume conseguido a nível nacional.

E o que se produz cá dentro para vender lá fora?

Ao contrário do que acontece no seio do mercado nacional, não são os bens alimentares portugueses os mais consumidos pelos clientes estrangeiros. São os veículos e os produtos petrolíferos refinados os preferidos, nesses mercados que ultrapassam as fronteiras nacionais.

De acordo com o INE, em 2017, os mercados externos cresceram no seu conjunto 8%, tendo o mercado intra UE registado um crescimento anual de 6,6% enquanto o mercado extra UE cresceu mais significativamente, 13,5%. Apesar desta diferença, o primeiro destino continuou a absorver mais produtos portugueses. No total, foram vendidos quase 31,6 mil milhões de euros em produtos para os países da União Europeia. Já os clientes fora do bloco comunitário compraram quase 8,3 mil milhões de euros em produtos portugueses.

Em maior detalhe, a maior parcela de vendas para países dentro da UE ficou ligada veículos automóveis e reboques produzidos em Portugal (17,7% das vendas, ou seja, quase 5,6 mil milhões de euros, mais 5,7% do que em 2016). Seguiram-se os produtos da indústria do vestuário (7,4% das vendas, ou seja, 2,3 milhões de euros, mais 2% que em 2016) e os artigos de borracha e matérias plásticas (7,3% das vendas, ou seja, 2,3 milhões de euros, mais 10,2% que em 2016).

Fora da União Europeia, são os produtos petrolíferos refinados os artigos portugueses preferidos, representando 17,1% das vendas da indústria conseguida no mercado extra UE. Em causa estão 1,4 mil milhões de euros de produtos vendidos, mais 29,9 do que em 2016.

Seguem-se os produtos metálicos (com 7,9% das vendas, ou seja, 653 milhões de euros) e os bens resultantes do fabrico de têxteis (com 6,4% das vendas, ou seja, 532 milhões de euros).

Tudo somado, foram os automóveis produzidos em Portugal a arrecadar o maior montante de vendas para os mercados externos, correspondendo na globalidade a seis mil milhões de euros — mais 10,5% do que em 2016 –, o que equivale a 15,2% do total das vendas de produtos para o estrangeiro. E o peso deste setor nas exportações totais do país tem vindo a crescer forma expressiva, contrariando o que acontece noutros mercados europeus.

Estes são os heróis da indústria portuguesa

Junto dos consumidores nacionais, são os produtos resultantes das indústrias alimentares a liderar; E junto dos clientes internacionais, são os veículos automóveis a tomar a dianteira. Ou seja, são estes os dois maiores motores — em termos de montante de vendas de produtos — da indústria portuguesa.

A estes, juntam-se ainda os produtos petrolíferos, que, contas feitas, acabam por ocupar o segundo lugar no pódio do valor total das vendas feitas (quase 7,9 mil milhões de euros, ficando entre os 11 mil milhões das indústrias alimentares e os 7,7 mil milhões dos automóveis).

De acordo com o relatório “Estatísticas da Produção Industrial”, no âmbito das indústrias alimentares, é o pão o astro mais brilhante: gera 613 milhões de euros e representa 5,6% das vendas totais desta área industrial. Em segundo lugar, aparece a pastelaria (com 4,7% das vendas e 517 milhões de euros em vendas). Seguem-se os alimentos para criação de animais (com 4,1% das vendas e 455 milhões de euros em vendas), os frangos, galos e galinhas inteiros, frescos ou refrigerados (com 3,6% das vendas e 394 milhões de euros em vendas) e os queijos (com 3,5% das vendas e 383 milhões de euros em vendas).

De notar que as indústrias alimentares têm uma vocação fortemente ligada ao consumo nacional, destinando-se apenas 20% da produção para a exportação. Ainda assim, em 2017, as vendas para o mercado intra UE cresceram 8,2%, em linha com a subida também registada por terras lusitanas (4,2%).

Do outro lado da moeda, aparece a produção de automóveis, cujo principal destino é o mercado externo. Em comparação, foram conseguidos em vendas seis mil milhões de euros nos mercados estrangeiros, enquanto em Portugal o montante foi de cerca de 1,6 mil milhões de euros.

Nesse sentido, em 2017, o mercado intra UE permaneceu como principal mercado de destino da produção automóvel nacional, com 73,1% do valor da produção vendida (82,1% no ano anterior). Nesse ano, a quota nacional aumentou 5,9 pontos percentuais (p.p) e a quota dos mercados extra UE subiram 3,1 p.p.

Indústria marcada pela concentração empresarial?

As dez maiores empresas do setor secundário português concentram em si mesmas quase metade (47,7%) do valor total arrecadado com as vendas dos produtos fabricados e vendidos quer a clientes nacionais, quer a clientes internacionais.

Em sete áreas industriais, essa concentração é ainda mais acentuada, com mais de metade do montante das vendas a ficar nas cinco maiores empresas. Em causa estão o fabrico de produtos petrolíferos refinados (área na qual a Petrogal tem uma posição significativamente marcante), o fabrico de produtos químicos e de fibras sintéticas e artificiais, a indústria do couro e dos produtos de couro, a produção de equipamento elétrico, a recolha, tratamento e eliminação de resíduos, a produção de outros equipamentos de transporte e as outras indústrias transformadoras.

Nas outras indústrias transformadoras e no fabrico de produtos petrolíferos refinados, 100% das vendas estão mesmo concentradas nessas cinco maiores empresas.

Em sentido inverso, há mais heterogeneidade no fabrico de produtos metálicos, no vestuário, na indústria da madeira e da cortiça e na produção de mobiliário e colchões, áreas nas quais nem as 50 maiores empresas concentram metade das produções vendidas.

Já no que diz respeito à evolução tecnológica do setor secundário, é importante frisar que, desde 2014, tem sido registado um crescimento mais acentuado na formação bruta de capital fixo (os bens necessários para produzir mais bens, nomeadamente máquinas) do que aquele verificado no que diz respeito às remunerações do pessoal, “podendo evidenciar uma mudança estrutural no sentido da indústria se tornar mais capital intensiva”, sublinha o INE.

A propósito, de acordo com os dados relativos ao segundo trimestre do ano, 1,2 milhões de pessoas estavam empregadas, até junho, no setor da indústria construção, energia de água. Tal valor representa uma fatia de 24,6% do total de 4,9 milhões de pessoas empregadas.

No início deste ano, mantinha-se assim a tradicional liderança do setor terciário, isto é, os serviços davam emprego a 3,4 milhões de pessoas, cerca de 69,8% do total da população empregada. Em contraste, a agricultura, a produção animal, a caça, a floresta e a pesca empregavam 275 mil pessoas, cerca de 5,6% do bolo total em questão.

Qual o lugar de Portugal à escala da Europa?

Excluindo os produtos petrolíferos refinados e a eletricidade, gás, vapor e água quente, a indústria portuguesa pesa 1,3% na produção industrial de toda a área comunitária. Esse peso tem permanecido constante desde 2014.

A indústria nacional ganha maior destaque, no que diz respeito à produção de pneus novos, sendo Portugal o maior produtor deste tipo de bem. Mais de metade da produção de pneus novos (54,6%) da União Europeia é feita em terras lusitanas, com a Continental Mabor a dar um forte contributo.

Também há a enfatizar a posição de Portugal na produção de aparelhos recetores de radiodifusão dos tipos utilizados nos carros, já que 43,4% do total europeu é fabricado em território nacional.

Destaque ainda para a indústria do calçado portuguesa, que nos últimos ganho tem andado nas bocas do mundo. De acordo com o INE, Portugal foi responsável por 13,6% da produção total de sapatos femininos na União Europeia, ficando atrás dos 54,4% da Itália, mas consolidando a sua posição. Este é o quinto produto mais relevante em termos de produção nacional, salienta o INE.

A propósito, um estudo recente da Católica Porto Business School concluiu que o “selo” Made in Portugal aumenta o valor que os clientes internacionais estão dispostos a pagar por um par de sapatos em 28%. A partir de uma prova cega realizada no início do ano a retalhistas, grossistas, fabricantes, designers, estudantes de moda e clientes finais de 27 nacionalidades na MICAM, a maior feira internacional de calçado, em Milão, o estudo permitiu concluir que o mundo aceita pagar mais para calçar sapatos portugueses.

Outra indústria tradicional portuguesa — a cortiça — traz o holofote para a indústria nacional. Em 2017, três dos produtos em que Portugal deteve a maior quota de produção vendida na União Europeia estavam relacionados com a indústria da cortiça.

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