Quase 20% do PIB passou por Belém em mês e meio. Marcelo recebeu banqueiros, gestores e empresários

A agenda do presidente da República contou com mais de 40 encontros com empresários e representantes de empresas, em pouco mais de um mês. Ouviu-os falar da crise, mas também fez pedidos.

A agenda de Marcelo Rebelo de Sousa nunca foi calma, mas o coronavírus deixou-a numa roda-viva. Depois de ter afirmado vezes sem conta que a economia não pode morrer, o presidente da República anda num périplo, a receber empresários (grandes e pequenos), confederações e sindicatos.

A pandemia de Covid-19 “está a ser e vai ser um desafio enorme para a nossa maneira de viver e para a nossa economia”, dizia Marcelo Rebelo de Sousa no dia em que anunciou o primeiro decreto do estado de emergência no país. Mais tarde, viria a acrescentar: “A economia não fechou portas. Há que produzir, há que exportar e há que trabalhar“.

O repto era feito junto a um alerta: a economia não pode morrer à custa do combate à pandemia. Para garantir que não acontece, Marcelo já realizou quatro dezenas de encontros em mês e meio. Só contando as cotadas, recebeu (fisicamente ou por videoconferência) representantes de quase 20% do PIB nacional.

Logo após o fim da quarentena a que Marcelo se sujeitou, a lista de encontros arrancou com as confederações: os Agricultores, o Comércio e Serviços, o Turismo e as Empresas foram expressar as preocupações que tinham no fim do mês de março, quando começou a enchente de pedidos de lay-off. Do lado dos sindicatos, o mesmo fizeram a CGTP-IN e a UGT.

Banca garante a Marcelo que vai ajudar a economia

Com as empresas obrigadas a readaptar a atividade ou mesmo paralisadas devido à pandemia, o setor que mais tem estado em cheque é o da banca. Não têm faltado avisos para que os bancos se lembrem que na última crise foram ajudados pelos contribuintes pelo que devem agora retribuir. Assim, não é de estranhar que os banqueiros tenham sido chamados a Belém.

Marcelo reuniu-se com os presidentes dos cinco maiores bancos em Portugal — Caixa Geral de Depósitos, BCP, Novo Banco, Santander Totta e BPI –, bem como com o presidente da Associação Portuguesa de Bancos, Fernando Faria de Oliveira, e o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa.

O objetivo era saber como os bancos estão a reagir à crise e o presidente pediu dados sobre as principais medidas, nomeadamente as moratórias e as linhas de crédito com garantias do Estado. No fim, revelou as garantias dadas pela banca de que está a pôr no terreno medidas para ajudar a economia.

Encontrei um estado de espírito de grande mobilização no sentido de ajudar a economia portuguesa a enfrentar um período que sabemos que vai ser difícil“, dizia então o presidente. Mais tarde, numa ronda de audições parlamentares, defendiam que os apoios do Governo para famílias e empresas não são suficientes e pediam ajustamentos, nomeadamente através de um reforço das linhas de crédito e de um prolongamento das moratórias dos empréstimos.

Marcelo não se ficou pela banca e quis falar também com a presidente da COSEC – Companhia de Seguro de Créditos, Maria Celeste Hagatong, bem como a presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Gabriela Figueiredo Dias. Foi depois de ouvir a representante do supervisor dos mercados financeiros que o presidente convocou as grandes cotadas.

Cotadas na sombra dos dividendos

Há duas semanas, os encontros intensificaram-se. O presidente decidiu chamar as maiores empresas da bolsa de Lisboa, a começar por um setor crítico no momento que se vive: o retalho. O CEO da Jerónimo Martins, Pedro Soares dos Santos, e a CEO da Sonae, Cláudia Azevedo, foram recebidos a 15 de abril e ambos deixaram garantias de que o abastecimento dos supermercados não está em risco.

Desde então, o presidente da República já se reuniu com um total de 13 das 18 cotadas do PSI-20, avaliadas em conjunto em 39,2 mil milhões de euros (o equivalente a 18% do PIB português no ano passado). As conversas eram sobre o impacto da pandemia na economia, mas houve um tema a ensombrar os encontros: os dividendos.

Marcelo nunca se pronunciou diretamente sobre o tema — apesar de ter sinalizado agrado com a hipótese de a banca adotar uma política prudente — e nenhum dos gestores disse se foi ou não questionado sobre o assunto durante o encontro com o presidente, mas todos foram questionados pelos jornalistas sobre a remuneração dos acionistas.

Com o Bloco de Esquerda e o PSD a pedirem que as empresas não distribuam dividendos e a CMVM a pedir prudência na avaliação da sustentabilidade financeira, há nove empresas que já anunciaram a suspensão do pagamento de mais de mil milhões de euros em dividendos. Empresas como a Corticeira Amorim decidiram deixar a decisão para mais tarde, enquanto há quem diga que tem robustez para manter o plano: como a Jerónimo Martins, a Galp ou a Altri.

"A Altri vai fazer distribuição de dividendos, porque teve um ano, o ano passado, muitíssimo bom, os preços estavam muito altos.”

Paulo Fernandes

CEO da Altri

A par das cotadas, o chefe de Estado ainda recebeu pelo meio a Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas (CPPME), tal como representantes da imprensa e media. Também os livreiros, empresas cinematográficas, artistas e promotores de espetáculos.

Até ao fim do decreto de estado de emergência, Marcelo ainda vai continuar o périplo pelas empresas até porque o próximo grande desafio será o relançamento da economia pós-Covid-19. Tanto o presidente da República como o primeiro-ministro António Costa já sinalizaram que o estado de emergência não deverá ser renovado e as autoridades estão a estudar como reabrir as atividades, de forma gradual, a partir da próxima semana.

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