Alojamento local acredita na recuperação a partir da Páscoa. “Até lá é sobreviver”

A pandemia fez parar o alojamento local, mas os imóveis do interior do país estão a escapar ao pior cenário. O presidente da Associação do Alojamento Local em Portugal pede mais apoios do Estado.

Os primeiros sinais de pandemia apareceram no país e não tardou até o impacto começar a ser sentido no setor do alojamento local. Depois de um janeiro e fevereiro “excelentes”, os cancelamentos de reservas a partir de abrir começaram em força, numa altura em que “ninguém estava preparado”. A “atividade parou” e ainda hoje, durante o verão, os efeitos estão a ser sentidos. Em conversa com o ECO para a rubrica “Dar a volta ao turismo“, o presidente da Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP) fala nas medidas de apoio ao setor, que diz serem insuficientes, e antecipa que o início de uma recuperação só começará a ser sentido a partir da Páscoa.

“Isto não é uma coisa de curto prazo”

Janeiro e fevereiro foram meses “excelentes” comparados com os demais anos e, em março, a pandemia apanhou os proprietários de alojamento local totalmente de surpresa. “Logo de início vimos que o impacto iria ser enorme, porque a atividade parou de vez”, diz Eduardo Miranda, que nota que agora “começa a ficar cada vez mais claro que isto [pandemia] não é uma coisa de curto prazo” e que ainda vai demorar a passar. Enquanto não passa, o setor reinventa-se e desdobra-se em medidas para dar mais confiança aos hóspedes. Até porque, afirma, Portugal está “muito mais avançado” em termos de alojamento local do que outros países.

“São precisas mais algumas medidas”

Para o presidente da ALEP, as medidas implementadas até agora pelo Governo para ajudar o setor a recuperar não são suficientes. Eduardo Miranda defende medidas “mais adaptadas e específicas” para o turismo, nomeadamente para o alojamento local. Uma delas é o alargamento da linha de microcrédito do turismo e outra tem a ver com a “necessidade” de “haver alguma componente de fundo perdido”. “Se não houver componente de fundo perdido o nível de endividamento vai ser gigantesco”, justifica Eduardo Miranda. O turismo está a viver um “momento de contraciclo” e, com medidas insuficientes e pouco adequadas, “muitos dos empresários já estão a ponderar abrir mão dos funcionários”.

“Mais-valias são uma verdadeiramente prisão”

É um dos problemas que tem vindo a ser denunciado há muito pelo setor e Eduardo Miranda aproveitou para voltar a sublinhar a necessidade de se acabarem com as mais-valias no alojamento local. Atualmente, a lei prevê que quando haja uma desistência do alojamento local, seja cobrada uma mais-valia como se o imóvel tivesse sido vendido. “É um imposto impagável e irreal”, diz, acrescentando ser “algo completamente injusto”.

Outro dos obstáculos que o setor enfrenta tem a ver com a confiança. “As pessoas perderam a confiança no Estado por causa dos milhares de alterações fiscais”, nota o responsável, afirmando que, à custa disso, programas como o Renda Segura e o Porto com Sentido –, em que as autarquias arrendam imóveis (sobretudo de alojamento local) a privados para os subarrendar a preços acessíveis — não têm muita adesão.

“Retoma mais a sério só a partir da Páscoa”

O presidente da ALEP afirma que “ainda há algum receio” por parte das pessoas em viajar, uma opinião também defendida por vários governantes e empresários do setor ao ECO, como o presidente do Turismo de Portugal e o administrador do Grupo Vila Galé. E esse é um problema com o qual Portugal terá de lidar, dado que não é o único país onde isso acontece.

Ainda assim, durante este verão, Eduardo Miranda nota que os imóveis de alojamento local localizados no interior do país estão a ter mais procura face aos anos anteriores e foi exatamente nessas localizações onde houve um “ajuste de preço” na ordem dos 15% a 20%, de forma a haver uma adaptação ao mercado nacional. Por outro lado, destinos mais urbanos não observaram grandes alterações.

Por enquanto, o cenário está a ser melhor do que o esperado, dado que as expectativas “eram nulas ou quase baixas”. Ainda assim, “nos centros urbanos a procura é muito baixa”, diz o presidente da ALEP. “Tirando o interior, (…) o impacto ainda é muito grande” e “tudo o que está para a frente é uma incógnita enorme”, salienta. Eduardo Miranda diz ser necessário sermos realistas. É preciso que as pessoas “façam planos a pensar que a retoma mais a sério só deve começar a acontecer a partir da Páscoa. Até lá são períodos de sobrevivência”, remata.

O ECO arrancou em julho com uma rubrica nova chamada “Dar a Volta ao Turismo“, em que entrevista empresários e governantes do setor para perceber os impactos que a pandemia trouxe para o turismo e de que maneira se poderá dar a volta por cima.

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