“É uma missão pessoal sentir que estou a ter um impacto positivo na vida das pessoas”premium

Apaixonada pela diversidade, Ana Sanches olha para o seu trabalho como uma missão: quer ter um impacto positivo na vida das pessoas. E, às vezes, bastam pequenos gestos.

No dia do seu onboarding na Teleperformance Portugal, Ana Sanches conheceu Charlie. Foi a inspiração para a primeira medida de ação da VP of diversity, equity and inclusion na multinacional: “Project Charlie”. Um projeto com nome de pessoa, ou não fosse esta uma iniciativa onde o nome faz toda a diferença na vida de alguém. Charlie é uma pessoa não binária e, todos os dias, quando abria os sistemas para trabalhar era confrontada com o seu dead name, com o qual já não se identificava.

“Estamos neste momento a mudar parte dos nossos sistemas para que, desde que a pessoa é recrutada, possa determinar qual o seu nome preferencial e isso possa estar refletido nas tools para que seja conhecida pelo que a faz sentir melhor. É algo mínimo, não tem custos por aí além, mas tem um impacto brutal”, adianta Ana Sanches. Uma mudança que faz toda a diferença na vida de Maria.

“Quando começamos o ‘Project Charlie’ um conjunto de pessoas pediram-nos para mudar o nome, inclusive um colaborador que entrou na Teleperformance como homem, com algum receio de divulgar a sua identidade, mas que queria chamar-se Maria, estava em processo de mudança legal de nome”, lembra. “Na reunião, disse-nos que, pela primeira vez, estava a partilhar as suas intenções e a forma como gostaria de ser tratada porque, até agora, nas organizações onde tinha estado tinha sido alvo de bullying e não percebiam a sua condição. E chorou um bocadinho ali connosco. Em muitos casos estamos a dar às pessoas a oportunidade de serem aquilo que querem ser.”

Formou-se em gestão e aos 21 anos começou a trabalhar na EDP, mas sempre com a ideia de um dia trabalhar na gestão de pessoas, dar energia a “mudanças na organização que impactem positivamente as pessoas que lá trabalham”. Foi nos RH da elétrica que trabalhou pela primeira vez os temas da diversidade e inclusão. Transitou mais tarde para a Outsystems, mas no unicórnio nacional o foco era gestão de performance, experiência do colaborador, onboarding e criação de momentos de happiness at work.

“Quando fui convidada para a Teleperformance estava a criar a estratégia de diversidade e inclusão na Outsystems. Tentei deixar uma semente. É uma empresa com muita diversidade, super aberta em termos de mindset”, diz. Mas era difícil dizer não ao desafio proposto pela Teleperformance Portugal. “Claramente o que me motivou era saber que (a diversidade e inclusão) seria 80% do meu trabalho. Ainda tenho outro chapéu: do engagement, que liga com o happiness at work, saúde mental. Mas há muitas peças que se conjugam e faz-me muito sentido dedicar o meu tempo a isto.”

Com mais de 12 mil trabalhadores, quase 100 nacionalidades, mais de 20 línguas, para uma “apaixonada por diversidade” era difícil resistir a um “multilingual hub, onde se juntam pessoas de todas as partes do mundo”. E com um combate pela frente. “Quando cheguei o Augusto Martinez Reyes, o CEO, disse-me que o desafio era grande e que não vinha para fazer amigos”, conta. “Quando se trabalha em temas de diversidade e inclusão trabalha-se muito em mudança, do mindset, do status quo, de processos, de comportamentos, uma situação desconfortável para a maioria das pessoas”, explica.

Ana Sanches é VP of diversity, equity and inclusion da Teleperformance Portugal.

“Não tenho problema em criar desconforto, no sentido de evoluirmos todos, percebermos que temos os nossos próprios bias, que somos privilegiados, para daí partirmos para como vamos criar uma cultura mais inclusiva onde as pessoas se sintam bem venham de onde vierem, falarem como falarem ou terem uma identidade de género particular.”

Na lista de coisas a fazer está o potenciar dimensões de diversidade e inclusão, seja o acolhimento de refugiados – “estamos em contacto com o Alto Comissariado para as Migrações para perceber como podemos ajudar as pessoas que chegaram do Afeganistão” – seja alavancar a liderança feminina de forma transversal na companhia. “Muitas vezes as organizações olham para este tema como fix the women, o que podemos fazer às mulheres para elas estarem mais preparadas, e esquecem-se do fix the organization, ou seja, trabalhar a organização.”

Mas este tema tem um caminho traçado pelo próprio CEO. Augusto Martinez Reyes quer paridade de género nas possíveis lideranças que possam substituir. “A grande diferença, e o que me fez aceitar o desafio, foi perceber que (esta mudança) está a começar pelo topo e não pela base, o que só iria mudar qualquer coisa daqui a 20 anos”. Depois de 14 anos a trabalhar em recursos humanos, para Ana Sanches “não há melhor profissão do que esta”, garante. “É uma missão pessoal sentir que estou a ter um impacto positivo na vida das pessoas.”

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