Horta Osório, Djokovic, David Frost. Quem já “caiu” por causa da Covid-19?

  • Joana Abrantes Gomes
  • 18 Janeiro 2022

António Horta Osório e Novak Djokovic são os exemplos mais recentes de personalidades que "caíram" por incumprimento das regras da Covid-19. Que outros casos existem desde o início da pandemia?

O incumprimento de restrições, a discórdia sobre qual a melhor estratégia a seguir ou a não vacinação contra a Covid-19 têm levado a que várias personalidades, nacionais e internacionais, com responsabilidades políticas e financeiras, do mundo do desporto e até mesmo do universo dos profissionais de saúde, se demitam, sejam exonerados de cargos ou impedidos de participar em competições desportivas. António Horta Osório e Novak Djokovic são os exemplos mais recentes. Desde o início da pandemia, quem é que já “caiu” por causa da Covid-19?

António Horta Osório é o mais recente desses casos. O gestor português era o presidente não-executivo (chairman) do Credit Suisse desde abril de 2021, mas demitiu-se esta segunda-feira do cargo, na sequência de uma investigação solicitada pela administração da instituição financeira ao facto de Horta Osório ter violado as restrições relativas à pandemia de Covid-19.

O primeiro incumprimento terá ocorrido em julho do ano passado, quando o gestor desrespeitou o período de isolamento de dez dias à chegada a Londres para assistir à final do torneio de ténis de Wimbledon. Meses mais tarde, Horta Osório terá quebrado as regras de isolamento suíças ao voar de Londres para Zurique a 28 de novembro, abandonando o país três dias depois, numa altura em que estava estipulado o cumprimento de dez dias de quarentena à chegada.

A opção de não ser vacinado contra a Covid-19 está a custar a Novak Djokovic a possibilidade de conquistar novos títulos. O número 1 do ténis mundial não vai poder competir no Open da Austrália após o Governo cancelar o seu visto, o que impede a sua permanência naquele país. Assim, Djokovic foi deportado no domingo, depois de o Tribunal Federal ter confirmado a decisão do Governo australiano, que alegou que a decisão do desportista em permanecer não vacinado representava um risco para a população.

Esta segunda-feira, o Governo francês já veio avisar que, caso o tenista sérvio deseje participar no torneio de Roland Garros, terá de ter vacinação completa contra a Covid-19. Ao contrário da Austrália, é possível entrar em França sem estar vacinado, mas uma nova lei, aprovada pelo Parlamento francês no domingo, introduz o passe vacinal, que impõe grandes restrições sociais às pessoas que não querem ser imunizadas contra o SARS-CoV-2, incluindo atletas.

Outro destes exemplos é Luiz Henrique Mandetta. Logo no início da pandemia, em abril de 2020, o médico e ex-deputado federal deixou o cargo de ministro da Saúde do Governo brasileiro, após divergências públicas com o Presidente Jair Bolsonaro quanto às estratégias a seguir para conter os contágios pelo vírus da Covid-19. Desde que Mandetta foi demitido, já outras três pessoas assumiram o cargo de ministro da Saúde no Governo de Bolsonaro.

Também David Frost, o “arquiteto” britânico da saída do Reino Unido da União Europeia foi vítima das divergências com o chefe de Governo. Em dezembro, o secretário de Estado para as relações europeias e responsável pela pasta do “Brexit” apresentou a sua demissão do Governo britânico por discordar do reforço das restrições contra a pandemia de Covid-19, numa altura em que o país enfrentava um aumento do número de contágios devido à variante Ómicron.

Frost decidiu afastar-se do Executivo por se opor ao chamado “Plano B”, que determinou a introdução de passes sanitários para entrada em discotecas e grandes eventos, a obrigatoriedade de vacinas para profissionais de saúde e o uso de máscaras em espaços públicos fechados. Na carta de demissão enviada a Boris Johnson, o responsável terá escrito que o Reino Unido precisa de “aprender a viver com a Covid“.

Boris Johnson ainda não “caiu”, mas pode estar perto disso, face às críticas que tem enfrentado naquilo que está a ser denominado de “partygate”. Em maio de 2020, quando o Reino Unido estava sob confinamento, Downing Street promoveu festas para cerca de uma centena de pessoas, convidadas por e-mail a trazer “a sua bebida”, e com a presença do primeiro-ministro britânico, que, na semana passada, frente ao Parlamento do país, pediu desculpas e resumiu o episódio a um “evento de trabalho”.

Esse episódio não terá sido isolado e até no período de luto pela morte do príncipe Filipe, em abril de 2021, foram violadas as regras que o próprio Johnson impôs aos cidadãos britânicos. O líder do partido trabalhista, Keir Starmer, rejeitou o pedido de desculpas e exigiu a demissão, mas Boris Johnson rejeitou a proposta e pediu para que se aguarde pela conclusão de uma investigação interna.

Além do primeiro-ministro britânico, também o Presidente da Argentina foi apanhado numa festa quando vigorava uma proibição de ajuntamentos no país. Numa fotografia que veio a público em agosto de 2021, mas que remonta a 14 de julho de 2020, vê-se Alberto Fernández a festejar o aniversário da primeira-dama, sem serem cumpridas medidas de proteção, o que o expôs a um processo penal e a uma eventual demissão – que não se veio a verificar. “Fabiola (Yanez) convocou uma reunião com os amigos que não devia ter feito. Definitivamente percebo que não devia ter feito”, afirmou o chefe de Estado, garantindo que tal “não vai voltar a acontecer”.

O mundo do futebol também não escapou e, em novembro do ano passado, o treinador da equipa alemã do Werder Bremen, Markus Anfang, abandonou o cargo, depois de as autoridades fiscais da Alemanha iniciarem uma investigação por suspeita de falsificação de um certificado de vacinação contra a Covid-19. Anfang negou as acusações, mas justificou a sua decisão para que a pressão não recaísse sobre o clube.

No final de março de 2021, Igor Matovic, na altura primeiro-ministro da Eslováquia, cedeu o lugar ao ministro das Finanças, Eduard Heger. Foi forçado a abdicar da chefia do Governo após uma crise política que durou quase um mês, causada por um acordo secreto para a compra de dois milhões de doses da vacina russa (Sputnik V) contra a Covid-19, que não recebeu autorização da Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês). Matovic ainda se manteve no Executivo, com a pasta das Finanças.

Mas a pandemia não provocou “baixas” apenas a nível internacional. Nem dois meses passados do começo da campanha de vacinação contra a Covid-19 em Portugal e Francisco Ramos, o primeiro coordenador da taskforce, demitiu-se do cargo, em 2 de fevereiro de 2021. A decisão, segundo o próprio afirmou em comunicado, foi motivada por “irregularidades no processo de seleção para vacinação de profissionais de saúde do Hospital da Cruz Vermelha”, a cuja comissão executiva presidia na altura. Foi então que o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo tomou as rédeas da taskforce.

Pouco tempo depois, também em fevereiro, foi Carlos Castro a demitir-se do posto de vereador da Proteção Civil da Câmara de Lisboa, na sequência de ter sido vacinado contra a Covid-19 dentro do seu gabinete com sobras de vacinas dos lares da cidade. Além de Carlos Castro, também a diretora do departamento de Higiene Urbana, Filipa Penedos, e os comandantes da Polícia Municipal e dos Sapadores de Bombeiros se vacinaram indevidamente, mas o município de Lisboa reiterou a confiança nestes.

Ainda antes, no final de janeiro, outro caso a nível nacional foi o responsável pela delegação Norte do INEM, António Rui Barbosa, que apresentou a demissão depois de ter sido noticiado que o instituto tinha vacinado contra a Covid-19 os proprietários e funcionários de uma pastelaria no Porto. O médico responsável pela delegação explicou, na altura, que só tinha duas opções: vacinar cidadãos não prioritários – decorria a primeira fase do plano de vacinação – ou “deitar ao lixo” as 11 doses da vacina.

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