Trump e Colômbia “tramam” EDP Renováveis e ditam rombo de 556 milhões

EDP Renováveis apresentou prejuízos de mais de 500 milhões de euros. Projetos eólicos do outro lado do Atlântico abalaram as contas. Já a casa-mãe viu uma quebra mais modesta.

A EDP Renováveis defraudou as expectativas do mercado, ao apresentar prejuízos de 556 milhões de euros relativos a 2024, um ano que o CEO, Miguel Stilwell de Andrade, reconheceu que “não foi ótimo” para a empresa, em declarações aos analistas. A empresa justifica a quebra com as imparidades que decidiu constituir em relação a projetos de eólico offshore nos Estados Unidos, face à incerteza criada pelas políticas de Donald Trump, e também com a decisão de não avançar com dois projetos na Colômbia.

O resultado líquido da EDP, de acordo com o comunicado publicado na página da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) esta quarta-feira, foi impactado sobretudo pela subtração de um total de 777 milhões de euros em itens não recorrentes, explicados por imparidades relacionadas com os projetos offshore nos Estados Unidos e a decisão de não prosseguir com investimentos previstos para a Colômbia, que já havia sido comunicada em dezembro.

Horas depois desta apresentação de resultados, foram divulgados os números relativos à casa-mãe, o grupo EDP, que também apresenta uma quebra, mas mais ligeira, de 16%, e mantém-se em terreno (muito) positivo. A EDP obteve um resultado líquido de 801 milhões de euros, sendo que o “forte desempenho da atividade de produção e gestão de energia em mercado e o aumento do contributo da atividade de redes de eletricidade no Brasil” mais do que compensaram a redução do contributo da subsidiária EDP Renováveis, informou.

A decisão de deixar cair os investimentos na Colômbia remonta a dezembro do ano passado, quando foi comunicada pela EDP Renováveis. A empresa havia entrado no mercado colombiano em 2019, através de dois projetos, Alpha e Beta, com uma capacidade de 0,5 gigawatt (GW), localizados na região de Guajira. “Os projetos receberam contratos de 15 anos no leilão competitivo, sendo assinados com várias distribuidoras”, lê-se no mais recente relatório e contas.

No entanto, desde então, a empresa assinala vários atrasos, primeiro no processo de licenciamento ambiental, depois na interligação. Já no final de 2022, a EDPR assinalou a necessidade de medidas urgentes para reequilibrar a economia dos projetos, junto do Governo. Este respondeu com um decreto que acabou por ser adiado judicialmente, já corria o ano de 2023.

Na sequência, a empresa portuguesa afirma ter tomado várias medidas para tentar desbloquear a situação mas, até dezembro de 2024, ainda falhavam medidas que a EDPR e a associação do setor na Colômbia viam como “cruciais” para permitir a construção de projetos eólicos.

“A EDPR considera que estes projetos não cumprem os critérios de investimento e perfil de risco da empresa e, portanto, decidiu não avançar com os investimentos restantes necessários para construir os parques eólicos”, lia-se no comunicado enviado à CMVM no final de 2024.

Na altura, a empresa de energias limpas assumiu ainda que esta decisão iria implicar perdas de até 700 milhões de euros, ressalvando que estas não iriam afetar os resultados recorrentes nem a política de dividendos. Em paralelo, prometeu tomar todas as ações legais necessárias para proteger os interesses da EDPR na Colômbia.

Agora, na apresentação das contas, a empresa descreve que “entre imparidades, provisões para garantias ainda a serem incorridas e impostos”, a decisão de abandonar os projetos na Colômbia teve um impacto total de 590 milhões de euros nos resultados de 2024.

Turbulência nos Estados Unidos sente-se nos resultados da EDPR

A Ocean Winds, consórcio detido em partes iguais pela EDPR e Engie, registou uma imparidade de 133 milhões de euros, ao nível da EDPR, relativamente ao seu negócio offshore, “devido à incerteza atual em torno dos projetos offshore nos EUA, após as ordens executivas presidenciais emitidas em 20 de janeiro”, escreve a empresa, no comunicado enviado na quarta-feira à CMVM.

Recuemos então a 20 de janeiro. Nessa data, entre várias ordens executivas, a nova administração da Casa Branca emitiu uma intitulada “Libertar a Energia Americana”. Um ponto que merece destaque nesta ordem executiva é o de “Terminar o Novo Pacto Verde”.

Nele, está previsto que todas as agências devem suspender imediatamente o pagamento de fundos garantidos através do Inflation Reduction Act de 2022 ou do Infrastructure Investment and Jobs Act. De acordo com o Financial Times, Trump está a travar a aplicação de mais de 300 mil milhões de dólares na transição verde, montante que também servia para financiar projetos de energias renováveis.

Todas as agências norte-americanas devem rever os seus processos, políticas e programas para conceder apoios, contratos ou outros, de acordo com as orientações de proteção dos recursos endógenos. Foram dados aos responsáveis das agências 90 dias para reportar as conclusões desta revisão, incluindo recomendações para reforçar o alinhamento com a ordem executiva.

Antes de serem libertadas estas orientações, e ainda antes de Trump tomar posse, já o presidente eleito tinha deixado uma mensagem mais direta à indústria eólica: “É a energia mais cara que existe. É muitas, muitas vezes mais cara do que o gás natural, por isso vamos ter uma política em que nenhum parque eólico será instalado“, afirmou, numa conferência de imprensa, a 7 de janeiro.

De acordo com o comunicado publicado pela EDPR esta quarta-feira, a Ocean Winds tem três projetos de eólico offshore em desenvolvimento os Estados Unidos: o Southcoast Wind, o Bluepoint Wind e o Golden State Wind. Na chamada com analistas que se seguiu à apresentação de resultados, o CEO da EDPR, Miguel Stilwell de Andrade, reconheceu que “existe incerteza regulatória nos EUA”, e por isso a empresa tem procurado “navegá-la de forma prudente”.

Independentemente da incerteza política, é muito claro para nós que a procura de energia nos EUA deverá registar um bom crescimento ao longo da década”, ressalvou, contudo, o gestor, revelando-se “cautelosamente otimista” em relação aos Estados Unidos.

Além dos grandes abalos, “no geral, tivemos menores ganhos com a rotação de ativos e custos financeiros mais elevados. Portanto, não foi um ano ótimo para a EDPR“, acrescentou Stilwell, na chamada com analistas. Na rotação de ativos, a empresa obteve ganhos de 179 milhões de euros, que comparam em baixa com os 460 milhões de euros de 2023. Os custos financeiros subiram de 132 milhões para 183 milhões de euros, no mesmo período.

EDP Renováveis vai travar no investimento

O líder da EDP e EDP Renováveis informou que a empresa está a abrandar o nível de investimento, sendo que prefere “dar prioridade à rentabilidade em detrimento do volume”. O responsável pela pasta das Finanças na empresa, Rui Teixeira, revelou que o investimento da empresa deverá rondar os 3 mil milhões de euros em 2025 e situar-se abaixo desta fasquia em 2026. O investimento bruto totalizou 4,1 mil milhões de euros em 2024, com mais de 80% do seu Capex investido na Europa e América do Norte.

Rui Teixeira informou ainda os analistas, na mesma chamada, de que conta com melhorias nos fluxos de caixa relativos às operações e nos ganhos com a rotação de ativos nos próximos anos, assim como uma redução da dívida líquida, sem quantificar. Ao longo da chamada, os responsáveis foram indicando que deverão atualizar as perspetivas após o verão, quando for mais claro o quadro regulatório que enfrentam, em particular nos EUA.

Confrontado com a questão de se a EDP Renováveis teria crescido demasiado rápido, Stilwell contrariou esta tese. “Cresce-se tão rápido quanto se pode”, disse, adiantando, contudo, que o setor enfrentou alguns “eventos traumáticos” como choques na cadeia de valor, disrupções tecnológicas e outros relacionados com custos de capital.

“Os projetos demoram tempo a ser desenvolvidos e a serem construídos. Mas não podemos estar no pára-arranca”, defendeu. Na ótica do gestor é importante manter consistência no crescimento, porque “o mercado pode mudar muito rapidamente”, e a empresa quer estar pronta a reagir. “Não se pode reagir em demasia porque, de outra forma, és apanhado no próximo ciclo”, explicou.

“Apesar de desafios de curto prazo no mercado, fundamentais sólidos de crescimento nos mercados chave da EDPR suportam uma estratégia de crescimento de longo prazo lucrativa”, concluiu Stilwell.

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