Investidores mantêm-se de olhos postos no ESG, mas dados e reporte ainda são desafios

Um contexto internacional desafiante não parece ter retirado os holofotes dos investidores das questões de sustentabilidade, garantem diversas partes interessadas.

Apesar de mudanças regulatórias e de um contexto internacional desafiante, a sustentabilidade parece permanecer no radar dos investidores e das empresas, afirmam desde a dona da bolsa até às empresas, passando pelos escritórios de advogados, embora também sejam apontados “altos e baixos” na preocupação com o ‘verde’. Mantêm-se desafios, nomeadamente no reporte e recolha destes dados. A qualidade e comparabilidade dos dados, o investimento em estruturas responsáveis pelo tema dentro das empresas e encontrar profissionais qualificados são ainda dificuldades assinaladas pelas diferentes partes interessadas.

Continuamos sentir da parte dos nossos stakeholders, clientes, investidores, empresas cotadas e outros participantes, que estes temas [da sustentabilidade] continuam a ser muito relevantes“, introduziu a CEO da Euronext, Isabel Ucha, no evento “Sustentabilidade, Retorno e Risco: Encontrar o equilíbrio no discurso e na prática”, que decorreu no primeiro dia da Euronext Sustainability Week, uma semana dedicada à sustentabilidade que se prolonga até esta quinta-feira.

Ucha destacou que, no segundo trimestre deste ano e de acordo com dados da Morningstar, registou-se um investimento líquido de quase 5 mil milhões de dólares em fundos e ETF com rótulo sustentável, a nível global. Este valor, considera, é indicativo que “os temas ESG continuam na agenda e os investidores continuam a dar-lhes relevância“.

Os temas ESG continuam na agenda e os investidores continuam a dar-lhes relevância.

Isabel Ucha

CEO na Euronext Lisbon

Num balanço dos desafios e oportunidades na área da sustentabilidade, Assunção Cristas, sócia na Vieira de Almeida da Área Ambiente & Clima, notou que “há um mundo que fala e outro que faz, e nem sempre coincidem, necessariamente”. Apesar de alguns reveses recentes em diplomas de sustentabilidade a nível europeu, “a regulação é importante, mas não decide tudo”, e olhando aos investidores e financiadores, “não parecem estar a desinvestir nesta matéria”.

Questionado no mesmo evento sobre se existe um ‘fit’ natural entre as matérias ESG, Nuno Vieira, responsável das Relações com Investidores (IR) nos CTT, responde que “não é óbvio que seja um fit natural, mas também não é oposto”. Se, por um lado, “a estratégia e os dados começam a embeber cada vez mais a sustentabilidade, e cada vez mais a andar a par e passo com área de relações com investidores“, deteta também “altos e baixos”.

Nas centenas de reuniões que tive ao longo deste ano e do ano passado com investidores, não recebi perguntas proativas de métricas de sustentabilidade ou questões específicas de sustentabilidade“, partilha, embora seja comum discutir desafios do negócio como a eletrificação da frota e a circularidade, temas ligados à sustentabilidade. Num inquérito que os CTT fizeram a investidores, no qual perguntava sobre a importância das questões ESG, estes responderam que “não era particularmente relevante”. Ainda assim, Nuno Vieira ressalva que acredita que a preocupação dos investidores seja diferente consoante o negócio da empresa ou mesmo a respetiva dimensão. “A sustentabilidade, no fim de contas, é a sustentabilidade do negócio“, indica.

Nas centenas de reuniões que tive ao longo deste ano e do ano passado com investidores, não recebi perguntas proativas de métricas de sustentabilidade ou questões específicas de sustentabilidade.

Nuno Vieira

Responsável das Relações com Investidores (IR) nos CTT

A experiência de Ana Rovisco, Diretora Global de Sustentabilidade e Relações ESG no Grupo Jerónimo Martins, é algo diferente. Afirma que, enquanto há 15 anos apenas cerca de 12 entidades questionavam a retalhista sobre sustentabilidade, desde iniciativas de alimentação saudável até às metas climáticas, nos últimos dois anos regista o contacto de mais de 50 entidades interessadas neste tipo de indicadores. A par com o colega de Relações com Investidores, afirma receber equipas cada vez mais multidisciplinares e especializadas em diversos temas relacionados com a sustentabilidade.

Do lado da Floene, ao dia de hoje, “os números ESG e os números financeiros estão a par e passo”, garante Joana Appleton, responsável das IR e da área de Risco, ESG & Stakeholders, já que a transformação energética e os gases renováveis “fazem parte do negócio e não há como estar tudo integrado”. Uma cultura que, afirma, é fomentada pelo principal acionista da empresa.

Os números ESG e os números financeiros estão a par e passo [na Floene].

Joana Appleton

Joana Appleton, Responsável das Relações com Investidores (IR) e da área de Risco, ESG & Stakeholders na Floene

Daniela Lima, gestora de Conhecimento e Formação do BCSD Portugal, afirma que as equipas financeira e de sustentabilidade precisam de partilhar a mesma linguagem e objetivos “para que tudo seja mais uno”, adaptando o discurso não só consoante o público alvo mas também os colegas. A estratégia financeira e de sustentabilidade devem ser uma só, entende.

A transparência é a alma do negocio, já não é o segredo.

Filipa Pantaleão

Secretária-Geral no BCSD Portugal

A sustentabilidade nos negócios, de acordo com Inês Palma Ramalho, partner de Regulação Financeira na Pérez-Llorca, é tanto uma oportunidade como um desafio. “Quem está na empresa tem de explicar aos investidores como é que isto [ESG], no final, dá um ROI [retorno sobre o investimento]” e que tem valor acrescentado, alerta.

A transparência é a alma do negocio, já não é o segredo“, concluiu Filipa Pantaleão, presidente do BCSD Portugal.

Trocas e baldrocas baralham o jogo

Assunção Cristas olha para 2024 como “um ano de grande mudança”, no qual a palavra “competitividade” passou a estar no centro, como consequência das guerras na Ucrânia e no Médio Oriente e as preocupações com a segurança energética e a concorrência crescente por parte da China e Sudoeste Asiático, e ainda o “empurrão” dado pelo relatório Draghi. Na sua opinião, a descarbonização não saiu da agenda, mas surge mais vezes ligada a temas de defesa, segurança e autonomia energética.

É nesta linha que surge o pacote Omnibus, que vem simplificar diplomas de sustentabilidade como a Taxonomia Europeia, a Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) e a Diretiva de Devida Diligência em Sustentabilidade Corporativa (CSDDD), com várias vozes a criticarem a simplificação como um enfraquecimento.

Mas há uma efetiva viragem na Europa quanto à sustentabilidade? Cristas afirma que “ainda estamos para ver”, porque “uma coisa é o que se diz, outra é o que está na letra da lei”. É que, até agora, foram saindo sobretudo diplomas que dão mais tempo às empresas, mas ainda não se sabe como vai ficar, afinal, a regulação de sustentabilidade na sua versão final.

A ex-ministra acredita que este é um momento para, da parte das empresas, se “tomar fôlego, analisar e refletir, de maneira menos impositiva e mais assente numa lógica de flexibilidade e voluntária”, mas “sem deixarem cair esta agenda”.

Se pensarmos que Portugal é sobretudo [constituído por] PME, nesse sentido, o cenário [do reporte de sustentabilidade] não é muito famoso.

Inês Palma Ramalho

Partner de Regulação Financeira na Pérez-Llorca

Já Inês Palma Ramalho, partner de Regulação Financeira na Pérez-Llorca, acredita que o nível de implementação e maturidade da implementação das exigências de reporte ‘verdes’ é “diretamente proporcional” à dimensão das empresas e dinheiro disponível para investir em estruturas focadas nesta tarefa. “Se pensarmos que Portugal é sobretudo [constituído por] PME (pequenas e médias empresas), nesse sentido, o cenário não é muito famoso“, rematou.

Outra dificuldade é que as empresas dependem de incentivos do mercado, e lançou-se uma “confusão significativa” com o pacote Omnibus, diz, ao mesmo tempo que deteta uma sobreposição de regras e fragmentação.

A estas questões acresce o desafio da qualidade e disponibilidade dos dados, assim como de encontrar recursos humanos especializados em ESG, que “são escassos”. Teresa Pinheiro, Analyst, Sustainable Finance na Moody’s, reforça que a agência de rating procura dados auditados e comparáveis, mas “nem sempre consegue”. De qualquer forma, indica que é sempre preferível informação a mais do que a menos, aliás, “quanto mais melhor”.

Na experiência da Jerónimo Martins, a aplicação da regulação tem sido “um verdadeiro desafio”, tendo em conta o nível de detalhe exigido mas também uma “repetição quase excessiva” do requerido, ao mesmo tempo que se pretende tornar a informação legível, de forma a “manter o rigor mas que um leitor menos especializado consiga perceber”. Além disso, é complicado harmonizar as exigências europeias com os indicadores requeridos noutras geografias como a Austrália ou América do Norte, e mesmo entre o que o regulador quer e aquilo que é pedido pelos investidores.

Acho que a sustentabilidade é um comboio que não vai parar. Se é um TGV ou um que pára em todas as estações e apeadeiros… Vamos ver.

Ana Rovisco

Diretora Global de Sustentabilidade e Relações ESG no Grupo Jerónimo Martins

“O relatório e contas é importante nas relações com investidores mas diria que não é o mais importante”, balança Nuno Vieira. Indica ainda que recebe mais pedidos de esclarecimento na sequência de apresentações de resultados, comunicados de imprensa, ou roadshows.

Seja como for, Ana Rovisco mostra-se otimista: “Acho que a sustentabilidade é um comboio que não vai parar. Se é um TGV ou um que pára em todas as estações e apeadeiros… Vamos ver“.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Investidores mantêm-se de olhos postos no ESG, mas dados e reporte ainda são desafios

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião