Literacia financeira é o trampolim do crescimento da economia

Um aumento de 10% dos níveis de literacia financeira pode elevar o PIB em 0,3 pontos percentuais e baixar substancialmente o nível de incumprimento das famílias, destaca um estudo internacional.

A literacia financeira está a emergir como um dos motores invisíveis do crescimento económico e da estabilidade familiar. Num momento em que o crédito ao consumo e o endividamento das famílias portuguesas continua a crescer, um novo relatório reforça a ideia de que compreender melhor o dinheiro pode ser tão importante como ganhá-lo, e que o conhecimento financeiro dos cidadãos está ligado à saúde económica de um país — desde taxas de incumprimento mais baixas a um crescimento do PIB mais robusto.

O relatório Global Financial Inclusion Index 2025, elaborado pelo Principal Financial Group em parceria com o Centre for Economics and Business Research, analisou 42 economias globais e concluiu que “níveis mais elevados de literacia financeira estão associados a taxas de incumprimento de empréstimos mais baixas, maior acessibilidade dos créditos e crescimento mais forte do PIB”. A investigação utilizou dados de 68 observações distribuídas por 27 países e identificou uma relação estatisticamente significativa entre o conhecimento financeiro e a capacidade das famílias para gerir a sua dívida.

Para Portugal, apesar de não fazer parte dos 42 países analisados neste estudo, estas conclusões ganham particular relevância. Recorde-se que, num dos últimos inquéritos ao nível de literacia financeira na Europa, publicado no ano passado pelo think thank Bruegel, Portugal ocupava o penúltimo lugar do ranking da União Europeia em termos de literacia financeira, com apenas 42% dos portugueses a conseguirem responder corretamente a três em cinco questões básicas sobre finanças, muito abaixo da média europeia de 52%.

Famílias com maior literacia financeira não só pagam melhor as suas dívidas como também se endividam de forma mais sustentável. ​Esta relação torna-se particularmente crítica para Portugal, onde o incumprimento das famílias no crédito ao consumo tem revelado um contínuo crescimento.

Os números do Global Financial Inclusion Index 2025 demonstram que “uma melhoria de um ponto percentual nos níveis de literacia financeira está associada a uma redução de 2,8 pontos percentuais no incumprimento dos empréstimos das famílias e a uma redução de 6,7 pontos percentuais nos rácios de dívida das famílias em relação ao rendimento“.

Ou seja, famílias com maior literacia financeira não só pagam melhor as suas dívidas como também se endividam de forma mais sustentável. ​Esta relação torna-se particularmente crítica para Portugal, onde o incumprimento das famílias no crédito ao consumo tem revelado um contínuo crescimento.

De acordo com dados do Banco de Portugal publicados no Relatório de Supervisão Comportamental relativo a 2024, foram iniciados no ano passado quase 853 mil processos no âmbito do Procedimento Extrajudicial de Regularização de Situações de Incumprimento (PERSI), mais 6,4% face ao ano anterior. Estes processos traduzem-se em cerca de 640 mil contratos de crédito aos consumidores em PERSI, com um montante total em dívida superior a 2 mil milhões de euros que se traduziu num rácio de incumprimento de 8%.

Uma melhoria de 10 pontos percentuais nos níveis de literacia financeira poderia gerar uma melhoria de 0,3 pontos percentuais na taxa de crescimento do PIB após um período de quatro anos.

Global Financial Inclusion Index 2025

A ligação entre literacia financeira e gestão da dívida é explicada pelo facto de “indivíduos financeiramente literatos terem maior probabilidade de compreender os termos dos empréstimos, fazer orçamentos eficazes, evitar o sobre-endividamento e gerir proativamente os reembolsos, reduzindo, em última análise, a probabilidade de incumprimento”, destaca o estudo promovido pelo Principal Financial Group.

Esta dinâmica cria um círculo virtuoso: melhor conhecimento financeiro leva a decisões mais informadas, que por sua vez resultam em menor pressão sobre os agregados familiares e maior estabilidade do sistema financeiro. Além disso, o impacto económico agregado na economia é substancial.

Os investigadores concluem que “uma melhoria de 10 pontos percentuais nos níveis de literacia financeira poderia gerar uma melhoria de 0,3 pontos percentuais na taxa de crescimento do PIB após um período de quatro anos”. Este efeito multiplicador resulta de vários canais: famílias com melhor literacia poupam mais, investem de forma mais eficiente, reduzem o endividamento improdutivo e contribuem para a estabilidade do sistema bancário, libertando capital para financiar investimento empresarial.

“A melhor literacia financeira é um motor poderoso de um ambiente de crédito a funcionar bem e, em última análise, de crescimento económico”, refere o estudo, sublinhando que os dados “mostram que a melhoria da literacia financeira leva a menos incumprimentos na dívida pessoal e a uma maior acessibilidade do crédito às famílias”. Este impacto no PIB observa-se “em todo o espetro de mercados, desde economias de baixo e médio rendimento com grandes setores informais até países altamente desenvolvidos com sistemas financeiros sofisticados”.

Um país de baixos níveis de literacia financeira

As parcas posições que Portugal ocupa nos vários rankings europeus de literacia financeira mostra que ainda há muito caminho a percorrer nesta matéria. Os dados do Eurobarómetro de 2023 da Comissão Europeia, por exemplo, revelam que apenas quatro em cada dez portugueses dominam conceitos financeiros básicos. Esta realidade contrasta fortemente com o desempenho de países como a Finlândia, onde 73% da população demonstra conhecimentos financeiros sólidos.

Mais recentemente, o 4.º Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa, divulgado em abril do ano passado pelo Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (CNSF), colocou Portugal em 13.º lugar no indicador global de literacia financeira entre 39 países participantes na comparação internacional da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE).

O inquérito da OCDE identificou lacunas importantes nos conhecimentos dos portugueses, particularmente em questões relacionadas com o cálculo de juros simples e juros compostos, a diversificação de risco e o poder de compra. Estas deficiências têm consequências práticas: quando as pessoas não compreendem como funcionam os juros compostos, tendem a subestimar o custo real do crédito ao consumo ou a sobrestimar os ganhos de poupança a longo prazo.

A necessidade de melhorar a literacia financeira não é apenas uma necessidade estatística, ou de melhorar uma posição numa tabela, é um mecanismo concreto para melhorar a vida das famílias.

Relatório Global Financial Inclusion Index 2025

Contudo, há sinais positivos entre os mais jovens. Os dados do último Programme for International Student Assessment (PISA) da OCDE indicam que 84,5% dos estudantes portugueses alcançaram o nível básico em literacia financeira, colocando Portugal em linha com a média dos países avaliados. Este resultado sugere que os esforços educacionais para introduzir conceitos financeiros desde cedo estão a dar frutos, embora a avaliação PISA 2022 tenha revelado uma descida de 11 pontos face a 2018, com Portugal a obter 494 pontos.

A nova Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania integrou a literacia financeira como componente obrigatória do currículo escolar em pelo menos dois ciclos do ensino básico. Contudo, os resultados mostram que os jovens portugueses têm menos contacto com produtos financeiros do que a média da OCDE: apenas 38% dos estudantes tinham conta bancária (contra 63% na OCDE) e apenas 27% possuíam cartão de débito ou crédito (comparado com 62% da OCDE).

O relatório Global Financial Inclusion Index 2025 sublinha que “investir em literacia financeira é um imperativo económico, bem como a coisa certa a fazer do ponto de vista social”, e que “a necessidade de melhorar a literacia financeira não é apenas uma necessidade estatística, ou de melhorar uma posição numa tabela, é um mecanismo concreto para melhorar a vida das famílias”.

Num contexto de endividamento crescente e rendimentos baixos, melhorar o conhecimento financeiro dos portugueses pode ter efeitos mensuráveis sobre a estabilidade macroeconómica. A relação identificada entre literacia, sustentabilidade do crédito e crescimento do PIB sugere que apostar na formação financeira é investir na competitividade do país — uma estratégia de longo prazo com impacto direto sobre a saúde económica nacional.

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