“Estamos numa boa posição para enfrentar choques”, garante a presidente do BCE

Christine Lagarde defende a política monetária europeia se encontra "numa boa posição" para enfrentar eventuais choques, mas alerta para riscos inflacionistas e incerteza económicas acima do normal.

O Banco Central Europeu (BCE) manteve esta quinta-feira as taxas de juro inalteradas pela terceira vez consecutiva, numa decisão que confirma a cautela do banco central perante um cenário económico marcado por sinais contraditórios.

Com a inflação próxima dos 2% mas ameaças no horizonte, Christine Lagarde, presidente do BCE, defendeu esta quinta-feira que a política monetária europeia se encontra “numa boa posição” para enfrentar eventuais choques, embora tenha alertado para uma incerteza acima do habitual nas perspetivas inflacionistas.

Durante a conferência de imprensa em Florença, após o Conselho do BCE anunciar a decisão do congelamento das taxas de juro, Lagarde sublinhou que “a inflação permanece próxima do nosso objetivo de médio prazo de 2%” e que “os indicadores de inflação subjacente são consistentes com o objetivo”. No entanto, a responsável do BCE não escondeu as preocupações do banco central, notando que “as perspetivas para a inflação são mais incertas do que o habitual”.

“Alguns dos riscos negativos para o crescimento diminuíram, mas não se pode dizer o mesmo em relação à inflação”, destacou a líder do banco central da área do euro, apesar de salientar que “um euro mais forte pode reduzir a inflação mais do que o esperado.”

Apesar de reconhecer que a Zona Euro e o BCE estão “numa boa posição do ponto de vista da política monetária”, Christine Lagarde assegurou que o banco central está preparado para enfrentar os desafios que se avizinham.

A presidente do BCE alertou ainda que “o aumento da despesa em defesa pode aumentar a inflação a médio prazo” no espaço do euro. As projeções de setembro do BCE apontam para uma inflação média de 2,1% em 2025, descendo para 1,7% em 2026 e subindo ligeiramente para 1,9% em 2027. Quanto à inflação subjacente (que exclui os preços da energia e alimentos), as previsões indicam 2,4% em 2025, 1,9% em 2026 e 1,8% em 2027.

Contrariando as expectativas mais pessimistas, a economia da Zona Euro registou um crescimento de 0,2% no terceiro trimestre de 2025, segundo estimativas preliminares divulgadas pelo Eurostat esta quinta-feira, antes do anúncio do BCE.

Este desempenho, que confirma que “a economia continuou a crescer apesar da conjuntura mundial difícil”, é sustentado pela robustez do mercado de trabalho, pela solidez dos balanços do setor privado e pelos anteriores cortes nas taxas de juro, refere a presidente do BCE.

Christine Lagarde destacou ainda que “a economia deverá beneficiar do consumo privado” e que “a despesa pública deverá apoiar o investimento”, sublinhando ainda que “as empresas estão a avançar com investimentos em inteligência artificial”, ao mesmo tempo que nota que “as poupanças das famílias são invulgarmente elevadas”, o que constitui um colchão importante para sustentar o consumo futuro.

No entanto, a presidente do BCE alertou para os desafios que persistem: “a indústria transformadora está a ser travada pelas tarifas” e “o ambiente comercial global continua volátil”. Apesar de vaticinar que “o impacto total das tarifas só se tornará claro ao longo do tempo”, refere que “o ambiente global deverá continuar a ser um entrave”.

Divergências no comportamento da procura

Um dos temas centrais da intervenção de Lagarde foi a crescente divergência entre a dinâmica interna e externa da economia europeia. A presidente do BCE afirmou que “a divergência entre a procura interna e externa deverá persistir”, com o setor dos serviços a continuar a crescer, impulsionado pelo turismo forte e, especialmente, pela recuperação dos serviços digitais, enquanto a indústria transformadora enfrenta ventos contrários significativos.

“A procura de mão de obra arrefeceu”, reconheceu Lagarde, embora o mercado de trabalho continue robusto. Este arrefecimento é particularmente visível no setor industrial, afetado pelas tarifas norte-americanas e pela intensificação da concorrência global.

A estabilidade temporária não garante tranquilidade, e a retoma económica da Zona Euro vai exigir vigilância e ação firme para superar os desafios que permanecem no caminho.

Christine Lagarde notou ainda que “alguns riscos negativos para o crescimento foram mitigados”, referindo-se ao acordo comercial alcançado entre a União Europeia e os EUA no verão, que fixou as tarifas em 15% sobre produtos europeus, abaixo dos níveis máximos atingidos em abril de 2025.

A líder do banco central salientou, por exemplo, que “um risco que ainda não se concretizou é o de cortes e interrupções na cadeia de abastecimento”, apesar das tensões geopolíticas que se têm assistido na economia mundial nos últimos meses.

A mensagem do BCE e de Christine Lagarde soa a um aviso que aponta para que a estabilidade temporária não garante tranquilidade, e a retoma económica da Zona Euro vai exigir vigilância e ação firme para superar os desafios que permanecem no caminho, mas sem precipitações que possam comprometer a estabilidade dos preços conquistada após anos de luta contra a inflação.

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