Dos pequenos avanços à grande fatura: o que resta do ESG
Entre pressões políticas e económicas, há aspetos do ESG que resistem. Registam-se avanços ambientais, embora pequenos, conceitos ganhadores, como a materialidade, mas também uma "fatura" para pagar.
Numa discussão sobre “o que resta” da sigla ESG, que representa o ambiente, os temas socais e os de governança, as visões são divergentes. Avanços pequenos, uma grande fatura, o pilar da governança ou o conceito de materialidade são algumas das respostas lançadas para “cima da mesa”, num debate no auditório da PLMJ, esta terça-feira.
“Não estamos, nenhum de nós, cada um de nós individualmente, as nossas empresas, os países e a Europa, dispostos a deixar cair nenhuma destas letras [do ESG]”, indica Madalena Perestrelo de Oliveira, consultora sénior da PLMJ.
O tema da competitividade, reconhece, “é uma preocupação central que levou a que tenha havido, neste último ano, um impulso muito grande para a revisão de diretivas europeias”, algumas delas que ainda nem sequer tinham sido transpostas para Portugal, coo é o caso da Diretiva de Reporte de Sustentabilidade.
O reporte não é só compliance. O reporte é um motor de recolha de informação, de mudança de mentalidade e de incorporação da sustentabilidade na estratégia.
Na prática, reduziu-se o universo de impacto desta legislação em mais de 90%. Contudo, realça, “o reporte não é só compliance. O reporte é um motor de recolha de informação, de mudança de mentalidade e de incorporação da sustentabilidade na estratégia”. Em paralelo, o Parlamento Europeu propõe eliminar de todo a obrigação de as empresas elaborarem um plano de transição. “Na minha visão, é altamente preocupante”, remata a consultora sénior da PLMJ.
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Conferência ESG Portugal Fórum 2025 -
Luís Pais Antunes, Presidente do Conselho Económico e Social -
José Costa Pinto, Vice-Presidente do Instituto Português de Corporate Governance -
Filipe Duarte Santos, Professor Catedrático do Departamento de Física da FC-UL -
Madalena Perestrelo de Oliveira, Consultora Sénior da PLMJ
No entanto, entre avanços e recuos, há temas de sustentabilidade nos quais não espera retrocesso, nomeadamente, o que diz respeito à ideia de dupla materialidade. No fundo, este conceito diz respeito a quantificação dos riscos climáticos – do impacto das entidades no meio envolvente e o inverso.
“Quando nós falamos de ESG, aquilo que nós devíamos, efetivamente, estar a falar era de competitividade sustentável”, entende Luís Pais Antunes, presidente do Conselho Económico e Social, numa altura em que considera que o que resta do ESG é “uma fatura grande para pagar”.
Essa extensíssima rede regulatória que a Europa teima em lançar, sobre tudo o que mexe, ata-nos as mãos e os pés e explica em grande parte as dificuldades e o insucesso que a Europa tem tido ao longo dos últimos anos.
“Essa extensíssima rede regulatória que a Europa teima em lançar, sobre tudo o que mexe, ata-nos as mãos e os pés e explica em grande parte as dificuldades e o insucesso que a Europa tem tido ao longo dos últimos anos”, remata. Neste sentido, o Conselho Económico e Social acredita que pode contribuir para a solução destas questões ao manter “uma discussão suficientemente rica” sobre como se poderá “salvar o ESG”.
“O ambiente não tem propriamente prioridade” a nível mundial, balançou Filipe Duarte Santos, presidente do Conselho Nacional para o Desenvolvimento Sustentável, apontando que as questões sociais e económicas são vistas como mais relevantes, em comparação. Prova disso são os parcos avanços no que diz respeito aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
O ambiente não tem propriamente prioridade.
Na sua ótica, não terão sido as ambições ambientais a prejudicar a competitividade europeia, mas sim a fragmentação do mercado, por oposição ao que acontece nos Estados Unidos, onde existe um “número relativamente pequeno de grandes empresas” com uma incidência mundial bastante grande”. Na Europa, “não temos nada que se compare com isso” e que possa competir com Estados Unidos e China, evidencia.
Este silogismo do ESG não é mais do que compactar aquela visão multistakeholder que nós fomos vendo aparecer no governo societário ao longo das últimas décadas.
“Este silogismo do ESG não é mais do que compactar aquela visão multistakeholder que nós fomos vendo aparecer no governo societário ao longo das últimas décadas”, enquadra, por seu lado, José Costa Pinto, vice-presidente do Instituto Português de Corporate Governance. Para o mesmo, a governança é “o pilar invisível, onde o E e o S vão sempre sustentar-se”, tendo a sustentabilidade integrado “fortemente” o Código de Governo Societário, elaborado pelo IPCG, em 2023.
“Aquilo que é a pressão regulatória, aquilo que são as oscilações políticas, na verdade não deve impactar naquilo que é o governance, porque o governance, as boas práticas, têm que estar imunes àquilo que é o mundo político e o mundo regulatório”, defende. É que, sem o G, “não há crescimento”.
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