BCE vê economia da Zona Euro forte e abre porta a novos aumentos de juros
Isabel Schnabel, membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu, avisa que o próximo passo do BCE será subir juros e deixa claro que se a chamarem, está pronta para liderar o BCE após Lagarde.
- Isabel Schnabel, membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu, anunciou que a economia da Zona Euro é mais resiliente do que se pensava.
- A economista alemã prevê ainda um aumento das taxas de juro, apesar de não se comprometer com uma data.
- Schnabel também se posicionou como potencial sucessora de Christine Lagarde, o que pode alterar a dinâmica da liderança do BCE, enfrentando concorrência forte.
Isabel Schnabel, membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu (BCE), lançou dois sinais que movem o xadrez monetário europeu: a economia da Zona Euro está mais forte do que se imaginava e a hierarquia do ECB pode ganhar um rosto novo em 2027. Numa entrevista à Bloomberg, a economista alemã, membro do Conselho Executivo do BCE, contradiz cautela que tem marcado o discurso da autoridade monetária da área do euro nos últimos meses.
A resiliência da economia europeia é o primeiro grande destaque da sua mensagem. “A economia da Zona Euro tem sido muito mais resiliente do que seria de esperar face à maior disrupção da ordem comercial internacional desde a Segunda Guerra Mundial”, afirma Schnabel, adicionando que “o outlook melhorou e os riscos de desaceleração foram significativamente reduzidos”.
Esta mudança de perspetiva não é cosmética. A responsável aponta uma série de indicadores que sustentam este crescimento: a robustez do mercado de trabalho com desemprego baixo e crescimento salarial forte, a expansão da política fiscal com investimentos em defesa e infraestruturas, e a aceleração de investimentos privados apoiados em condições de financiamento favoráveis e atividades ligadas a inteligência artificial.
As taxas de juro estão num bom lugar, e na ausência de grandes choques, espero que se mantenham neste lugar por algum tempo.
Os riscos deixaram de estar equilibrados e agora apontam para o lado positivo. “Comparado com as nossas projeções de setembro, os riscos estão claramente inclinados para o lado positivo”, sustenta Schnabel.
É neste ponto que Schnabel faz uma afirmação inédita por parte de um membro do Conselho Executivo do BCE. “As taxas de juro estão num bom lugar, e na ausência de grandes choques, espero que se mantenham neste lugar por algum tempo”, diz. Isto não é um “está tudo bem” genérico. É uma declaração de que o banco central europeu já tocou no fundo, e que o próximo movimento será para cima.
E quanto aos mercados? Eles entendem a mensagem, diz. “Tanto os mercados como os participantes de sondagens esperam que o próximo movimento de taxa de juro seja um aumento, embora não em breve”, sublinhando ainda que está “bastante confortável com essas expectativas”.
Esta confiança não é aleatória. Decorre de um diagnóstico específico sobre inflação e economia. A inflação está perto da meta dos 2%, a inflação subjacente é o indicador mais importante, e existem desafios claros: os preços dos serviços permanecem “o maior desafio” porque estão ligados à economia doméstica.
“A inflação dos serviços tem sido muito mais rígida do que esperado”, constata Schnabel, apontando fatores demográficos — muitos baby boomers a reformarem-se enquanto a imigração abrandou.
Numa economia que recupera, com o hiato de produção a fechar e a política fiscal a expandir-se, estas são todas forças inflacionistas. Logo, o BCE tem de ficar atento. Schnabel coloca a questão de forma cirúrgica: “Temos de monitorizar se a nossa política se torna mais acomodatícia ao longo do tempo, e potencialmente demasiado acomodatícia, o que seria então o momento de pensar num outro movimento de taxa de juro”.

A sucessão de Lagarde está aberta
Quanto a quando exatamente ocorrerá o próximo aumento das taxas de juro — alguns economistas apontam junho do próximo ano, enquanto outros veem um aumento no final do ano — Schnabel nega-se a ser específica. “Neste momento isto permanece muito incerto. Isto não está atualmente na nossa mente. Atravessaremos essa ponte quando chegarmos a ela”.
Na entrevista, a responsável do BCE revela também que o BCE tem consciência de um novo fenómeno económico que pode alterar o jogo: a inteligência artificial pode aumentar a taxa de juro natural da economia. Schnabel, que tem demonstrado ser a voz mais atenta aos riscos, está consciente disso: “Se ocorrer um aumento na taxa de juro natural… uma taxa de política constante levaria a mais acomodação, a menos que a inflação caísse ao mesmo tempo no mesmo grau”.
O segundo sinal que Schnabel envia é tão importante para o futuro do BCE quanto a mudança de ciclo de taxas. Quando lhe perguntam diretamente se ela poderia ser a sucessora de Christine Lagarde (cujo mandato termina em outubro de 2027), a resposta é clara: “Se me perguntassem, estaria pronta”.
É uma afirmação direta e sem equívocos que muda a dinâmica da sucessão. Schnabel é a voz mais aguçada do Conselho Executivo na defesa de uma política monetária mais restritiva. É também uma mulher numa instituição onde as mulheres são raridade nos cargos de topo. É alemã, e a Alemanha nunca presidiu o BCE, apesar de ter tido representação desde a criação do banco em 1998.
Mas Schnabel enfrenta competidores de peso como Klaas Knot (ex-governador do Banco Central Holandês), Pablo Hernandez de Cos (presidente do Banco para Compensações Internacionais) e Joachim Nagel (presidente do Bundesbank), já apontados por muitos como putativos candidatos a tomar o lugar de Lagarde.
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