Os cinco adversários de Centeno na corrida a vice-presidente do Banco Central Europeu
Disputa do lugar pretendido por Mário Centeno vai ser muito concorrida, com o finlandês Olli Rehn e uma forte campanha do leste europeu. Conheça o perfil dos restantes cinco candidatos oficiais.
Termina esta sexta-feira o prazo para os Estados-membros apresentarem os seus candidatos à vice-presidência do Banco Central Europeu, lugar que ficará vago no final de maio com a saída do espanhol Luis de Guindos, em fim de mandato. Mário Centeno será o candidato oficial de Portugal, tal como o ECO noticiou esta quinta-feira, mas não está de todo sozinho.
Se o finlandês Olli Rehn é, juntamente com Centeno, o nome mais conhecido, fazem-se sentir os ventos da Europa do norte e do leste, nomeadamente com uma disputa de mais três países bálticos e de um candidato da Croácia, que acabam por representar uma reclamação de poder por parte de países que entraram mais recentemente na União Europeia.
Conheça os cinco adversários de Mário Centeno que já são conhecidos à entrada para o último dia do prazo de entrega de candidaturas.
Boris Vujčić
É praticamente um desconhecido a nível europeu mas é a cartada que a Croácia decidiu jogar agora, assente no argumento de que os chamados países do alargamento precisam de começar a ter uma representação mais relevante a nível comunitário e das suas principais instituições. Nascido em 1964, tem um currículo sobretudo local, com a sua formação a fazer-se em Zagreb, a capital do seu país, ainda que tenha sido professor visitante em instituições em Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos. O seu primeiro emprego foi enquanto professor universitário e entrou para o banco central da Croácia em 1996, para liderar o departamento de research económico, continuando por vários anos a ser professor. Nas últimas semanas, o governador do banco central croata tem vindo a ganhar força em alguns círculos como um dos principais rivais de Centeno e de Olli Rehn, o finlandês que é a cara mais conhecida desta disputa comunitária. A sua candidatura foi anunciada oficialmente nesta quinta-feira.
EPA/TOMS KALNINS
Olli Rehn
Rehn é o mais velho dos candidatos até agora conhecidos, e um veterano das instituições europeias. Nascido em 1962, chegou a jogar futebol nas camadas jovens do Mikkelin Palloilijat, clube local da região de origem de Rehn, no este do País, e então na primeira divisão finlandesa. Desde cedo começou um percurso internacional, estudando nos Estados Unidos e posteriormente em Oxford, partilhando com Centeno o selo de uma universidade de topo mundial. Entra para a política na segunda metade dos anos 80, através do Partido do Centro, considerado de centro-direita no espetro político habitual.
Teve cargos na juventude partidária e ao nível municipal na capital do país, Helsínquia. A sua ascensão política levou-o a ser deputado no parlamento finlandês mas o salto dá-se de seguida, quando passa para o Parlamento Europeu. Em 2004 torna-se comissário europeu para as empresas e sociedade de informação ao substituir o também finlandês Erkki Liikanen, que saiu para liderar o banco central do seu país. Ficou no cargo durante os quatro meses finais do mandato da Comissão liderada pelo italiano Romano Prodi. Foi de seguida comissário europeu com a pasta do alargamento de 2004 a 2010 e com a pasta de assuntos económicos e monetários de 2010 a 2014, sempre sob a liderança de José Manuel Durão Barroso. É dessa altura o seu papel na defesa dos programas de austeridade aplicados a Portugal e à Grécia, ainda que com o passar dos anos tenha passado a ter uma postura mais conciliatória.
Em 2015, volta à Finlândia, sendo brevemente ministro das Finanças e posteriormente deputado. É governador do banco central da Finlândia desde 2018 e, em 2024, concorreu à Presidência da República, tendo ficado em quarto lugar.

Mārtiņš Kazāks
Juntou-se à corrida no início de novembro, embora já se especulasse que a Letónia teria interesse em propor um candidato. Com 52 anos, tem como outros candidatos formação académica no estrangeiro: licenciou-se em Economia em Cambridge e fez mestrado e doutoramento, na mesma àrea, na Queen Mary University, em Londres. Teve um longo e bem sucedido percurso na banca do seu país, nomeadamente no Hansabank Group (hoje em dia Swedbank), com presença relevante na Letónia. Em 2018 saiu de economista-chefe da instituição para integrar o conselho de supervisão do banco central da Letónia. Colaborou também, na área de previsões económicas e de desenho de políticas fiscais, com o ministério das Finanças do seu país.
Em dezembro de 2019 foi nomeado governador do Banco da Letónia, tornando-se o mais jovem de sempre a ocupar esse posto. Tem chamado a atenção por ser relativamente vocal nas suas declarações acerca do rumo das taxas de juro do banco central europeu.

Rimantas Šadžius
O candidato da Lituânia foi dos últimos a juntar-se à corrida, já nesta quarta-feira, através de uma declaração oficial do Ministério das Finanças daquele país. Aos 65 anos, o percurso de Šadžius foi marcado sobretudo por funções governativas, nomeadamente como Ministro das Finanças, cargo que ocupou por três período diferentes. Foi ainda Primeiro-Ministro interino em alguns meses de 2025, depois da demissão do líder do Governo, Giantautas Paluckas.
Licenciado em inicialmente em Química e depois em Direito, teve também um percurso internacional, fazendo parte do Tribunal de Contas Europeu, entre 2016 e 2022.
É, juntamente com Centeno, um dos dois candidatos que não é atualmente governador central, posto que, aliás, nunca chegou a ocupar. Mas é também o quarto candidato do eixo báltico, já que Finlândia, Lituânia e Letónia também vão a jogo.
Através de um comunicado, o Ministério das Finanças lituano defende o currículo de Šadžius e acrescenta um argumento muitas vezes ouvido e que poderá agora ter força, mesmo que o candidato local pareça ter poucas hipóteses de sucesso: “É também de notar que o Conselho Executivo do Banco Central Europeu não teve, até agora, qualquer representante dos novos Estados-membros que se juntaram à União Europeia depois de 2024. Um equilíbrio geográfico apropriado é um requisito essencial para a legitimidade e para a eficácia de todas as instituições da União Europeia”.
Já o próprio Rimantas Šadžius justifica o seu avanço: “Um euro forte é um dos garantes essenciais não apenas de prosperidade económica mas também da segurança europeia, pelo que as atividades do Banco Central Europeu são de particular importância. Em tempos, beneficiámos da experiência de outros países europeus, e agora podemos nós partilhar os nossos conhecimento e experiência com outros. Acredito que a minha experiência acumulada pode ser utilizada com sucesso nas atividades do BCE”.
Esta não é a primeira tentativa de Šadžius em assegurar um importante cargo europeu. Recentemente, esteve na corrida para presidente do Eurogrupo, mas acabou por desistir alegando falta de apoios políticos. O cargo acabou por ficar para o grego Kyriakos Pierrakakis, algo que viria a tirar da corrida à vice-presidência do BCE a vice-governadora do banco central grego, Christina Papaconstantinou.

Madis Müller
Mais um candidato báltico, desta feita vindo da Estónia, Müller está atualmente a viver os últimos seis meses à frente do banco central daquele país, já que em junho será substituído pelo seu atual número dois. Com apenas 48 anos – o mais jovem nesta corrida – o banqueiro central tem formação local e um mestrado em Finanças pela Universidade George Washington, dos Estados Unidos. Foi conselheiro do Governo e trabalhou com o Banco Mundial e, entre 2011 e 2019, foi vice-governador do Banco da Estónia, tendo depois assumido a sua liderança, que cessará este ano.
Falando à comunicação social, Madis Müller assumiu que a concorrência é forte e que o processo depende também de fatores políticos entre os países e entre blocos: “Devo dizer que não consigo avaliar as minhas hipóteses de sucesso, até porque é um processo bastante político. Creio que todos os candidatos são fortes e eu não consigo ver o que está dentro da cabeça dos ministros das Finanças ou prever exatamente em que vão basear as suas decisões”.
Ainda assim, utilizou um argumento semelhante ao concorrente da Lituânia, de falta de representatividade dos países que se juntaram ao bloco europeu após 2004. “Penso que se pode argumentar que isso deve mudar. Mas, mais uma vez, não sei se isso será um fator primário ou importante na decisão dos ministros das Finanças”, afirmou, citado pelo site ERR.
O vice-presidente do BCE tem a sua cargo, habitualmente, as áreas da estabilidade financeira e desse setor. Nesse sentido, Madis Müller considera-se muito capacitado para o lugar. “Como vice-presidente do Eesti Pank [o banco central estónio] antes do meu cargo atual, fui responsável exatamente por essa área, e penso que estou bastante familiarizado com esses tópicos. Tive também um papel mais ativo nestas áreas no âmbito do Conselho de Governadores do BCE”, acrescentou.

Os próximos passos
Fechada esta sexta-feira a entrega dos nomes, segue-se uma complexa teia de contactos para encontrar apoios, de forma a chegar-se a uma recomendação formal sobre o nome, que ainda terá de ser aprovado por várias instâncias comunitárias.
Quando houver um nome escolhido, este é proposto ao Conselho Europeu, órgão atualmente presidido pelo ex-primeiro-ministro português, António Costa. De seguida o candidato(a) é ouvido formalmente pelo Parlamento Europeu, no comité de assuntos económicos e monetários. No final, é emitida uma opinião tanto pelo Parlamento Europeu como pelo Conselho do BCE, constituído pelos seis membros da Comissão Executiva e pelos governadores dos bancos centrais dos 19 países da área do euro. Só depois termina o processo, correndo tudo bem, com a nomeação por parte do Conselho Europeu, através de aprovação por maioria reforçada.
É possível que alguns nomes que estão em cima da mesa caiam logo de início, por falta manifesta de apoios. Para além disso, há nomes lançados agora que, mesmo falhando, podem ser lançados mais tarde para outros cargos. Ou até que um estado-membro lance um nome e, este falhando, acabem por ganhar uma espécie de créditos de negociação para o futuro, mesmo que com outro responsável como figura de proa.
No BCE, Luis de Guindos é o próximo a sair mas haverá mais vagas de seguida. O irlandês Philip Lane, economista-chefe do BCE, termina mandato em junho de 2027 e, cinco meses depois, será a vez da própria presidente, a francesa Christine Lagarde.
Não é obrigatório que os estados apoiem em público um candidato, uma vez que o que conta é o que se passa nas reuniões decisivas e no lóbi político atrás de portas fechadas.
O calendário não está totalmente fechado. Para dia 19 está marcada reunião do Eurogrupo, de onde poderá sair, em teoria, o nome que será proposto para que o processo avance de seguida, incluindo a intervenção do BCE e do Parlamento Europeu. Ainda assim, admite-se que o nome possa só sair na reunião seguinte, em fevereiro.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Os cinco adversários de Centeno na corrida a vice-presidente do Banco Central Europeu
{{ noCommentsLabel }}