Maioria dos portugueses não acredita que terá rendimentos suficientes na reforma

  • Carolina Neves Carvalho
  • 15 Janeiro 2026

Estudo da supervisora europeia de seguros conclui que 53% dos inquiridos confia nas seguradoras, 52% acredita na fiabilidade dos fundos de pensões e 54% temem baixo valor das pensões públicas.

O “Eurobarometer 2025: consumer trends in insurance and pension services”, da Autoridade Europeia para Seguros e Pensões Ocupacionais (EIOPA), revela que a maioria dos portugueses não está preparada financeiramente para a reforma: fraca adesão a pensões privadas e baixa confiança numa vida confortável na reforma apontam para um futuro preocupante.

No inquérito sobre as tendências dos consumidores nos setores de seguros e pensões na União Europeia participaram 25.846 pessoas, com 18 anos ou mais, em entrevistas online deoriundos de vários países.

No caso específico de Portugal, em relação aos produtos de poupança e pensões, o seguro de vida (com cobertura apenas para o risco de morte, sem investimento) é o mais adquirido com 21% de subscrição, seguido do produto de poupança/investimento de seguradoras (com 19%), o plano de pensões profissional/ocupacional (com uma taxa de 9%), e a pensão privada pessoal (excluindo pensão do Estado, com 6%).

Fonte: EIOPA. “Eurobarometer 2025: consumer trends in insurance and pension services”

Já no segmento de seguros não vida, cerca de 51% dos portugueses inquiridos possui um seguro habitação, 60% um seguro automóvel (fora o seguro obrigatório de responsabilidade civil), 33% um seguro de saúde privado e, por fim, 21% tem um seguro de acidentes.

A subscrição de seguros presencial domina

Quanto aos canais de subscrição, cerca de 50% adquire estes produtos apenas presencialmente ou por telefone (com recurso a um agente/mediador), 15% apenas online, 11% utiliza ambos os canais e 22% não adquiriu qualquer tipo de seguro nos últimos dois anos.

Quanto à gestão de sinistros em Portugal, 14% mostram-se um pouco insatisfeitos e outros 6% mostram-se muito insatisfeitos. Desses, 21% apontam como motivo uma indemnização inferior ao esperado, 18% vêm o processamento do sinistro como demasiado lento, 13% afirmam que o serviço é pouco útil ou pouco responsivo, 17% afirmam que os termos da apólice eram pouco claros e levaram a uma rejeição da cobertura dos danos, 15% dizem que tiveram de apresentar documentação excessiva ou repetida, 14% sublinham que o processo para acionar a cobertura é pouco claro ou demasiado complicado, e 12% acreditam que o sinistro foi indevidamente recusado.

Portugueses não acreditam ter fundos suficientes para a reforma

O pessimismo quanto ao futuro financeiro é particularmente acentuado em Portugal. Cerca de 21% daqueles que têm um plano de pensões profissional/ocupacional mostram-se pouco confiantes, e 11% nada confiantes quanto à possibilidade de viver confortavelmente na reforma. Já entre os que têm uma pensão privada pessoal, 30% estão pouco confiantes e 3% nada confiantes. Por fim, entre os que não têm qualquer tipo de pensão, 35% estão pouco confiantes e 19% nada confiantes.

Fonte: EIOPA. “Eurobarometer 2025: consumer trends in insurance and pension services”

Durante a conferência anual do ECOseguros, o presidente da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), Gabriel Bernardino, já tinha alertado para o facto de que, em Portugal, “somos um público de aforradores, não de poupança de longo prazo”. O regulador, durante essa intervenção, sublinhou ainda a necessidade de o setor segurador assumir um papel mais ativo na promoção da poupança de longo prazo para a reforma.

O panorama na Europa: confiança moderada nas pensões

Os dados apurados pelo inquérito revelam que, na União Europeia, a situação é ligeiramente diferente. Entre os que não têm qualquer tipo de pensão, 42% acredita que terá fundos suficientes para levar uma vida confortável durante a reforma.

Entre aqueles que não se sentem confiantes na UE, as principais preocupações são: a falta de confiança no sistema público de pensões (37%), o impacto da inflação nas poupanças (36%), e ainda a incerteza sobre necessidades e despesas futuras (30%).

UE começa a tomar medidas para aumentar poupanças

Maria Luís Albuquerque, a Comissária europeia de Estabilidade Financeira, Serviços Financeiros e Mercado de Capitais da União Europeia, já tinha alertado para o facto de que os sistemas públicos de pensões não vão ser suficientes no futuro para garantir os rendimentos adequados na reforma, sendo necessário agora a compra de produtos de poupança.

Nessa linha, um pacote sobre pensões complementares foi recentemente proposto pela Comissão Europeia como forma de aumentar a poupança para a reforma e combater o panorama atual presente em toda a União Europeia. Esse pacote contempla: a criação de sistemas digitais de acompanhamento de pensões; painéis de acompanhamento das pensões a nível nacional ou pension dashboards, com indicadores sobre cobertura, adequação, sustentabilidade e impactos orçamentais; e a inscrição automática em regimes de pensões complementares.

Já em relação aos seguros não vida subscritos mais comuns, o seguro de habitação lidera, com 62% dos inquiridos a afirmarem possuir esta cobertura, seguido do seguro automóvel (para além do seguro de responsabilidade civil obrigatório), com 57%. Outros produtos de seguros e de poupança registam níveis de adesão ligeiramente mais baixos.

Fonte: EIOPA. “Eurobarometer 2025: consumer trends in insurance and pension services”

No que diz respeito aos canais de subscrição, o contacto direto continua a ser dominante. Cerca de 37% dos consumidores indicam que preferem contratar seguros presencialmente ou por telefone, através de agentes ou mediadores. Ainda assim, 24% recorrem exclusivamente a canais digitais, enquanto 15% utilizam uma combinação de canais online e presenciais. Um dado que também é relevante é que 21% dos inquiridos não adquiriu qualquer tipo de seguro nos últimos dois anos.

O inquérito concluiu ainda que, a nível europeu, cerca de 53% dos inquiridos confia nas seguradoras, 52% acredita na fiabilidade dos fundos de pensões, e apenas 45% manifesta confiança nos bancos enquanto entidades capazes de garantir uma reforma adequada.

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