Davos discute o diálogo no meio da gritaria de Trump

56ª reunião do Fórum Económico Mundial tem como tema "Um espírito de diálogo" e será marcada pela participação do presidente dos EUA, o grande disruptor desse mesmo multilateralismo internacional.

Quando alguém fala alto, mais alto parece num ambiente silencioso. Este é o panorama no qual arranca a 56ª edição da reunião anual do Fórum Económico Mundial, na localidade suíça de Davos, e que tenta fazer o impossível: restabelecer pontes e diálogo num encontro dominado pelo líder que mais tem feito para diminuir o valor do multilateralismo internacional.

Donald Trump regressa a Davos pela primeira vez desde 2020, quando participou presencialmente no fórum internacional durante o seu primeiro mandato na Casa Branca (2017-2021). Em 2025, poucos dias depois de ter assumido o segundo mandato presidencial, participou por videoconferência. Agora, segundo um anúncio entusiasmado da própria organização, estará na Suíça à frente de uma numerosa delegação norte-americana.

O presidente do Estados Unidos discursa na quarta-feira, dia 21, à tarde, inserido no tópico geral “Como podemos cooperar num mundo mais contestado”, que terá, poucas horas antes, a intervenção de António Guterres. E se o português deverá, sem surpresa, reforçar a sua habitual defesa do multilateralismo, como aliás fez no seu discurso nas Nações Unidas, na semana passada, do lado de Trump não será surpreendente que o tema seja encarado apenas como uma sugestão, num momento em que o tema da Gronelândia está a causar uma forte divisão entre os aliados da NATO.

Depois da pressão sobre a invadida Ucrânia, da intervenção na Venezuela ou das ameaças ao Irão, Donald Trump tem afirmado repetidamente que, de uma forma ou de outra, os Estados Unidos têm de ser donos da Gronelândia, território autónomo mas pertencente à Dinamarca, país membro da NATO, tal como os Estados Unidos. A única concessão que a administração norte-americana tem feito é de que quer comprar a ilha, mas deixando sempre em aberto a hipótese de simplesmente a anexar. Vários países europeus têm enviado militares, em número praticamente simbólico, para o território, tentando retirar a Trump o argumento de que há um problema de segurança que afeta os próprios Estados Unidos. O último episódio desta saga foi a ameaça de imposição de tarifas comerciais adicionais aos países – nomeadamente europeus – que não ficarem do seu lado na questão da Gronelândia.

Junte-se a isto a perseguição feita a Jerome Powell, presidente da independente Fed, e sobretudo a política altamente conflituosa das tarifas comerciais – tema ao qual muitos dos presentes são sensíveis – e o contraste entre o tema do evento e a postura de Trump fica ainda mais evidente.

Ainda assim, a organização afirma-se otimista, tentando manter vivo e relevante um fórum que habitualmente reúne muitas das pessoas mais influentes do mundo mas que é muitas vezes visto como uma bolha para os ricos. Børge Brende, o CEO do Fórum Económico Mundial, tem procurado lutar contra essa ideia de fechamento ao mundo real, transformando o que era basicamente um encontro de negócios altamente restrito num fórum de discussão sobre temas globais, chamando também artistas e figuras públicas fora da economia e da política.

Com o regresso de Trump a Davos, Brende ganha um trunfo porque garante a Davos 2026 uma centralidade na agenda mundial, mas terá como desafio impossível enquadrar a agressividade de Trump no tema escolhido para o encontro deste ano. “Esperamos que um espírito de diálogo possa levar também a áreas nas quais os líderes possam encontrar interesses comuns”, afirmou o responsável.

Segundo o Fórum, estarão também presentes o Primeiro-ministro canadiano Mark Carney, o número dois chinês He Lifeng, o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen e Mark Rutte, o Secretário-geral da Nato.

O Financial Times noticiou que o grupo de países que tem apoiado a Ucrânia deverá aproveitar para juntar-se a Trump e a Zelensky para tentar levar o responsável norte-americano a dar passos mais concretos nas garantias de defesa da Ucrânia.

Da parte de Portugal, Joaquim Miranda Sarmento já confirmou a sua presença, defendendo que “num momento particularmente desafiante para o mundo e para a Europa, este encontro do Fórum Económico Mundial assume particular relevância, sendo uma oportunidade crítica para refletir e analisar, em conjunto com alguns dos principais líderes e decisores mundiais, como alcançamos a estabilidade politica, económica e geoestratégica que ambicionamos”.

Estarão ainda mais de uma dezena de empresários e gestores nacionais.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Davos discute o diálogo no meio da gritaria de Trump

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião